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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

INSONDÁVEIS MISTÉRIOS

 
Tenho enormes dificuldades para perceber esta coisa das viagens ideológicas serôdias, hoje tão “normais” e corriqueiras.
Que um tipo seja maoísta, leninista ou nazi, aos vinte anos, e que, vinda a maturidade, viaje até regiões mais inteligentes, não me faz confusão (quase) nenhuma.
O que se passará, porém, com esta gente que, madura e instalada, percorre enormes distâncias sem mais nem menos, ou parece viciada em mudar de fidelidades tantas vezes quantas lhe apetece? O que pensam estas cabeças? Para além das desculpas públicas, o que se passa dentro delas? Talvez o diabo o saiba.
Há para aí vinte anos, na Praia do Vau, Mário Soares perguntava-me porque é que eu lhe “batia” no jornal. Expliquei-lhe que era por ele ser socialista, e eu não. Com o mais ternurento dos sorrisos, o homem disse-me: “mas você acha que eu ainda sou socialista?” Era. Era e é. Mas metia confessamente o socialismo na gaveta quando achava que lhe convinha. A verdade, para ele, sempre foi o que lhe foi convindo a cada momento. Apesar disso, foi capaz de manter uma básica fidelidade a ideias que, mais ou menos evidentes, mais ou menos disfarçadas, vão sendo sempre as mesmas.
Não é dos mários soares da nossa praça que estou falando, mas daqueles que se vão da lei da coerência libertando à medida que o tempo passa ou as conveniências mudam. Freitas do Amaral, Helena Roseta, Vital Moreira, José Magalhães, Ribeiro Telles, José Miguel Júdice… Figuras que, de uma forma ou de outra, ganham notoriedade num sector, e aparecem noutro, da noite para o dia, como que por encanto. Que se passará nas mais profundas arcadas destas inquietas consciências, para, com a mesma cara, com a mesma declarada dignidade, surgirem hoje a defender o que ontem condenavam, ou a prestar fidelidade aos adversários da véspera? Insondável mistério.
O que fará um amigo meu, eleitor e apoiante confesso de Mário Soares, aparecer na bancada dos admiradores de Salazar no concurso do “melhor português”? Insondável mistério.
A minha porventura estúpida consciência crítica, levar-me-ia, se mudasse de ideias ou as tivesse tão dispares, a “esconder” preferências súbitas antes que pusessem em causa o que tenho levado os outros a, com bons fundamentos, pensar de mim.
Um tipo que, já por volta dos quarenta, na perspectiva da perestroika, abandona o barco do PC, terá passado de feroz inimigo da democracia “burguesa” e de adepto da ditadura do proletariado a indefectível defensor do sufrágio universal e das liberdades individuais? Ou terá visto abrir-se, do lado do “inimigo”, uma janela de oportunidade? Insondável mistério.
A dona Helena Roseta viajou da AD de Sá Carneiro (primeira organização que, durante a III República, correu com a esquerda do poder), e do PSD, principal partido não socialista, em representação do qual foi autarca (de péssima memória) em Cascais, para os braços do PS. Entrada no PS pela direita, aí vai ela disparada para a esquerda do partido. Daí, passa a adepta dessa perigosíssima boutade que se chama “democracia” participativa. Porquê? Que tortura de consciência não terá a senhora sofrido ao longo do tempo, sempre em busca de uma verdade quiçá escorregadia e rebelde! Ou não? Ou o que lhe aconteceu foi ser iluminada pela luz das janelas de oportunidade que lhe foram entrando na torturada consciência, a última das quais se chama Câmara Municipal de Lisboa? Insondável mistério.
O que terá feito o senhor Júdice tomar o TGV na estação da extremíssima direita (JP, ELP, Partido do Progresso e quejandos) e viajar, pelos carris do PSD, até à Comissão de Honra do inimigo número um dos lisboetas, o impensável socialista Costa? Será o anti-capitalismo que está na massa do sangue dos fascistas o que, lá do fundo da tortuosa alma, lhe enviou uma mensagem de socorro? Ou haverá alguma oportunidade nesta coisa? Insondável mistério.
 
Dirá, já disse, o ilustre Director do SOLcrates que, na vida, toda a gente muda. O mundo é feito de mudança, dizia o vate. Talvez. Eu é que não passo da cepa torta. Por mais que tente, não consigo engolir o socialismo, seja ele fascista, estadonovista, nazi, democrático ou comunista. Pobre de mim que não mudo, nem com tantos e tão ilustres e dinâmicos exemplos à minha volta. 
 
António Borges de Carvalho

LÍNGUA DE TRAPOS

 
Quando foi lançado o primeiro “Campeonato Nacional de Língua Portuguesa”, iniciativa, em si, interessante, tive ocasião de escrever ao ilustre director do “Expresso”, Arquitecto Saraiva (hoje chefe do SOLcrates), a reclamar contra os inúmeros pontapés na gramática que, mesmo antes de o concurso começar, já eram dados nos artigos que o propagandeavam.
A coisa teve o destino normal, isto é, os pontapés na gramática continuaram, o concurso fez-se, o ilustre arquitecto nunca me respondeu, e eu, como é normal, borrifei no assunto.
Este ano, já com novo director, o “Expresso” reincidiu. Li as primeiras informações sobre a nova edição do concurso. Concluí que o nível era o mesmo, que os pontapés continuavam e que, simplesmente, era tempo perdido tentar protestar ou chatear-me com o assunto.
O concurso lá seguiu os seus trâmites, vindo a encerrar sob a habitual batuta da senhora dona Bárbara Guimarães, estranha quão plausível inflorescência da nossa “cultura” oficial. Mantive a minha atitude de distanciamento, como é natural, não fosse ter que me irritar outra vez.
Agora, vêm os concorrentes dizer que os catedráticos do concurso acham que tecelã não é o feminino de tecelão, que exuberante se escreve com s, que a dona Bárbara não sabe pronunciar correctamente certas palavras, que o sistema electrónico para as respostas não funcionava em condições, etc.
Fiquei todo contente por ver que, finalmente, alguém percebia que a coisa estava entregue a um bando de ignorantes. Fiquei tristíssimo por ver que nem alegados especialistas de alta craveira sabem já como se fala português.
Um conselho ao “Expresso”: deixe-se de concursos destes, e trate de rever melhor as suas edições semanais, para não irritar umas dúzias de malucos que andam por aí e que ainda se preocupam com a língua que os professores de português do tempo do fascismo lhes ensinaram.
 
Há dias, por indesculpável preguiça intelectual, comprei uma tradução da obra de John Le Carré The Song of the Mission. É que John Le Carré, em inglês, não é fácil de ler.
E em português? Garanto que é muito pior. Admito que o tradutor saiba muito de inglês, mais do que eu, com certeza. Mas de português, meus amigos, o homem, ou a mulher, não sabe patavina.
Logo nas primeiras páginas dou com a lindíssima palavra ansiões. Lindo. Depois, tropeço em infinitos impessoais na terceira pessoa do plural, em traduções literais sem sentido, em “adaptações” de conceitos completamente burras…
Ao chegar à página 20, para não estragar o fim de semana, peguei no belo livrinho e, possuído de incontida raiva, espetei com ele no caixote do lixo.
Amanhã, vou procurar a versão original.
A situação da língua portuguesa, no que às traduções se refere (e não só…) é desesperante. Não sei se, nas inúmeras faculdades que por aí há, entre tantos cursos, cursinhos e cursetes, muitos deles completamente absurdos, haverá algum que se proponha formar tradutores. Se não há, e caso seja possível ir buscar professores, ou ao estrangeiro ou ao cemitério, permito-me sugerir que o criem.
 
António Borges de Carvalho
 
 

CARTA ABERTA

 
Ao Exm.º Presidente da Ordem dos Engenheiros
 
Senhor Presidente
 
Como é natural, a Ordem a que V.Exª mui dignamente preside impõe, estatutariamente, determinadas condições para a admissão de membros.
 
Em qualquer sociedade humana, de par com as condições de admissão, outras existem para o efeito contrário, isto é, para a exclusão de membros previamente admitidos.
Presumo que a Ordem dos Engenheiros não será excepção a esta regra.
Normalmente, os motivos de exclusão (demissão, expulsão, suspensão…) integram os que se referem a ofensa à dignidade da instituição, a reprovável ou escandaloso comportamento público, a atitudes censuráveis, etc., acrescendo, como será o caso da Ordem dos Engenheiros, falhas ou manifestações de incompetência técnica que possam pôr em causa a credibilidade da agremiação ou dos seus membros, minando gravemente a confiança técnica de que é suposta gozar.
 
Um senhor de nome Lino, que aos quatro ventos propagandeia a sua pertença à Ordem, toma atitudes de palhaço perante as câmaras de televisão, atitudes tão mais condenáveis quanto feitas tendo esse membro da Ordem vestida a pele de ministro.
De facto, ao usar, em favor de uma decisão – que devia ter fundamentos técnicos próprios de um engenheiro – argumentos gritantemente falsos, despidos de qualquer sombra de rigor ou preocupação técnica, apalhaçados e ofensivos para milhões de pessoas, o senhor Lino não só põe em causa a credibilidade técnica da Ordem dos Engenheiros, como a sua dignidade, bom nome e reputação, causando justificado escândalo público e corrompendo moralmente a postura dos engenheiros em geral e da sua Ordem em particular.
 
Como é evidente, não compete à Ordem demitir o ministro Lino. Os responsáveis pela manutenção no poder de um palhaço nada têm a ver com a Ordem e, infelizmente, podem deixar-se apalhaçar à vontade.
Mas compete, com certeza, à Ordem, apreciar a manutenção, ou não, nela, de um cidadão que, chocarreiramente, dá mostras da mais repugnante indignidade.
 
Razão pela qual, senhor Presidente, venho exortá-lo a que não se deixe apalhaçar, nem à Ordem, solicitando-lhe, por isso, queira ter a amabilidade de tomar as medidas estatutárias que necessárias forem para expulsar tal criatura. Se a Ordem pela qual V.Exª é responsável ficar quieta nesta triste circunstância, sairá dela tão apalhaçada quanto o seu apalhaçado membro.
 
Com os melhores cumprimentos
 
António Borges de Carvalho

E COMO É QUE SE SAI DESTA?

Para um lisboeta, pode não ser fácil saber qual o melhor dos candidatos à Câmara. Saber quais são os piores é de caras.
Nenhum munícipe no seu perfeito juízo pode ter hesitações a tal respeito. De uma forma ou de outra, todos os candidatos poderão fazer passar a ideia de são, pelo menos, amigos da cidade. Todos, menos dois.
 
Quem está comprometido com o inacreditável aeroporto da Ota, pode ter estranhas quanto especiosas opções estratégicas. Pode estar enganado, e ter desculpa para tal. Pode estar comprometido com políticas que nada têm a ver com os interesses da cidade. O que não pode é dizer que é amigo de Lisboa, que aposta no seu futuro, que quer o melhor para os alfacinhas. Pois se se propõe obrigá-los a fazer setenta quilómetros e gastar um dinheirão para chegar ao aeroporto, se se propõe desaproveitar as infra-estruturas de que a cidade já dispõe, se se propõe afastar de Lisboa milhões de visitantes, se se propõe acabar com as dormidas de stop over, se se propõe aniquilar a as vantagens relativas que a cidade, caso raro na Europa, poderia ter como hubb internacional, então, minhas senhoras e meus senhores, Costa não. Um tipo que inventou as mais rebuscadas dificuldades e cortes financeiros para as autarquias, não pode, não deve, não merece ser autarca. Venha outro. COSTA, NÃO!!!
 
Um fulano que embarga a principal e a mais fundamental obra pública de Lisboa, que provoca prejuízos de milhões à cidade, que vê as suas pretensões consideradas improcedentes, que não se propõe pagar à cidade os prejuízos que lhe causou. e que tem a monumental desonestidade de proclamar que defendeu os interesses do município, deve ser, por qualquer cidadão com um mínimo de lucidez, liminarmente posto de lado. Para além deste caso, o Fernandes é, manifestamente, comprovadamente, de forma pública e notória, um delator, um bufo, um PIDE après la lettre, um ser abominável, reprovável, que usa a Justiça para fazer valer o que perde a votos, que armadilha terceiros para provar as suas culpas (mesmo que as haja). Uma criatura repugnante. Venha outro. FERNANDES, NÃO!!!  
 
Eis-nos, pois, com dez candidatos. Um deles não faço ideia quem seja. Dos outros, temos um fadista meio tonto e analfabeto, um nazi com estrambólicas ligações ao Opus Dei, uma independente a sublimar frustrações e a pensar que as pessoas se esqueceram do que andou a fazer em Cascais, um maoista requentado e palavroso, um senhor que ainda não percebeu que ou volta para o CDS ou não tem saída, um comunista, coitado, que sabe muito de romances policiais e nada de gestão autárquica, hesitante entre o Mickey Spilane e o Karl Marx, enfunado como um peru a dizer inanidades, e um homem a querer salvar a honra ofendida, além dos candidatos do PSD e do CDS.
O PSD está a contas com as suas próprias asneiras. Já percebeu que, quando decidiu dar cabo dos seus em vez de aplicar todas as suas forças a defendê-los, ofereceu o campo ao inimigo e se meteu num buraco quase tão grande como a passadeira vermelha que ofereceu para a caminhada triunfal do ex-engenheiro. Arranjou um cordeiro para imolar na festa da antropofagia, e pronto.
O CDS está numa de afirmação, o que só lhe fica bem. Tem um candidato para queimar, o que só lhe fica mal.
Resta o Independente Carmona Rodrigues, bode expiatório das frustrações e das falsas moralidades do senhor Mendes.
 
Se ainda fosse possível juntar o Negrão, o Correia e o Carmona, talvez tivéssemos uma safa. Mas não é.
 
A única hipótese de salvar Lisboa da hecatombe da Ota e não só, é denunciar os malefícios do Costa, com o objectivo de pôr ou o Carmona ou o Negrão na presidência, e fazer, após eleições, a coligação que as teria ganho se o PSD ainda existisse, se o CDS andasse noutra, se o Carmona não tivesse sido tão maltratado.
 
António Borges de Carvalho

UMA DESGRAÇA NUNCA VEM SÓ

Qual míssil nuclear com três ogivas, uma de estupidez, uma de lata e uma de desvergonha, o inacreditável alarve que, por obra e graça do ex-engenheiro, é ministro das obras públicas, assassinou umas centenas de milhar de pessoas, arrasou uns dez concelhos, apagou do mapa umas auto-estradas e umas pontes, destruiu caminhos de ferro e outras infra-estruturas, numa arrancada paranóica a favor do desastre nacional da Ota.
O homem ensandeceu por completo. Já não há nada a fazer. Quando o único argumento válido a favor de qualquer coisa é a teimosia, só a loucura pode defender o indefensável.
De que o homem é tonto, já não há dúvidas. Paciência. Problema é vê-lo ministro. Maior problema ainda é ver o chefe dele, com o aval da oposição mendista, continuar no poder. E, tão grande como este, é o problema de ver como a mesma oposição cria condições para que um inimigo declarado da cidade (quem é pela Ota é contra Lisboa) venha a ser presidente da sua câmara. Uma desgraça nunca vem só.
 
António Borges de Carvalho

INTERNET E LIBERDADE

Segundo o “Economist”, o regime chinês recuou na sua intenção de obrigar os “bloggers” locais a registar o seu nome enquanto autores e responsáveis pelo que publicam na rede.
Haverá quem tenda a saudar esta atitude “liberal”. À primeira vista, com toda a razão. No entanto, se pensarmos um pouco, veremos o que há de precipitado e inquietante no aplauso. Considerar legítimo o direito de cada um poder escrever e publicar o que lhe apetece a coberto do anonimato, não tem nada de liberdade, ou de liberdade liberal. A liberdade liberal é responsável, aberta, frontal ou, no actual jargão da correcção, uma liberdade “transparente”.
Não nos preocupará muito o que façam os chineses a este respeito. Num regime comunista, ditatorial e sanguinário como todos os regimes comunistas ou aparentados sem excepção, até se poderá achar útil que a opinião, garrotada pelo regime, tenda a, legitimamente, se exprimir de forma anónima.
O que se torna aterrador é que, do lado das sociedades liberais, se tenda a considerar positivo que, a coberto da Internet, seja possível e desejável que tudo se possa dizer, fazer, publicar, sem que os alvos de tais actos possam saber quem os pratica. O anonimato é um dos cancros da chamada sociedade da informação. A Internet inaugurou o anonimato global e autorizado, o que é a mais imoral, e antiliberal, das “morais” públicas.
Ser-se quotidianamente bombardeado por informação não querida, a que, muitas vezes, nem sequer se pode responder, ser-se levado, por sítios consultados de empresas oficialmente registadas e até do Estado, a pedir informações que não ficam registadas em parte nenhuma, assim impedindo o expedidor de usar o que escreveu em caso de diferendo, ser o endereço de cada um, enquanto dado pessoal, fornecido a terceiros por sistemas electrónicos que não pode controlar e aos quais não tem acesso, são evidentes atentados à liberdade individual e ao seu livre uso.
Não sei como se pode resolver este tipo de problemas, o mais grave dos quais é o de, na falta de solução, se vir a considerar legítimo aquilo que o não é.
A Internet, que poderia ser um precioso instrumento para o exercício da liberdade, tende a transformar-se no contrário.
Farão os chineses como entenderem.
Por cá, continuará o Irritado, de braço dado com uma dúzias de palermas, a não ser anónimo.
 
António Borges de Carvalho
 
 
N.B. Usa o Irritado avisar dos seus posts, por email, uma lista de “correspondentes”. Ça va sans dire, mas quem quiser sair de tal lista, mais não terá que avisar. O Irritado pede desculpa a todos os que, sem o ter solicitado, recebem tais mensagens.

AH GANDA LINO!!!

 
Os meus ouvidos não queriam acreditar no que ouviam. Os meus olhos, devidamente arregalados, não acreditavam no que viam. As minhas meninges, a escaldar de espanto, ameaçavam incendiar-se. Os pelos dos sovacos encarquilhavam-se. Quase tiveram que me levar para o hospital, com uma crise de raiva, de espanto, de indignação.
 
O engenheiro da Ordem passeava, imperial, entre riachos e pântanos, seguido de brilhante e atento séquito. O tipo da televisão informava que sua excelência estava nos terrenos do aeroporto da Ota. Até aqui, tudo bem. Depois, o engenheiro da Ordem, falou:
- A coisa está atrasada.
Não explicou bem porquê, mas ficámos a perceber que os atrasos, para o governo, não têm importância nenhuma.
- Jamais será possível alargar o futuro aeroporto, disse.
Não explicou porquê, mas confirmou o que já toda a gente sabia.
- Não são n campos de futebol, são n vezes dois, declarou.
A coisa fica a dever-se ao facto de parecer que são precisas umas construções que não estavam no primitivo esquema.
 
O homem tem mais lata do que uma fábrica de conservas.
O homem não sabe, nem faz a menor ideia do tempo que a coisa levará. O homem sabe que o aeroporto da Ota é para ficar como for feito, não tendo qualquer hipótese de vir a adaptar-se a novos tempos.
Para o homem, dezassete mil hectares ou trinta e quatro mil hectares são mais ou menos a mesma coisa.
O homem avança com o projecto sabendo que a coisa não vai durar nem um quarto do que durou a Portela.
O homem avança, pletórico de importância e de poder, sem ter ideia nenhuma dos prazos de projecto, quanto mais de execução.
O homem, nesta fase da coisa, ainda nem ideia tem da área de que necessita para consumar a asneira.
E confirma isto tudo, para quem queira ouvir, com o sorriso dos alarves estampado na melancia, como se estivesse a dizer a coisa mais natural, mais normal, mais comezinha, mais comestível desta vida.
 
E é ministro! E manda nesta coisa! E prepara-se para enterrar Portugal no buraco mais caro da sua História. Sabendo, como todos sabemos, que se trata de uma simples teimosia, de uma insistência paranóica e criminosa dele e do ex-engenheiro (tipo co-incineração), como se o país pudesse ser governado com base em birras e voluntarismos estúpidos.
E ninguém pede a cabeça do homem! E Mendes continua a condenar os seus e a deixar esta gente dar cabo, à vontadinha, do nosso futuro, arruinar Lisboa, tratar-nos como se fôssemos parvos!
E SEPIIIRPDAACS, nas brumas de Belém, cala-se, cohonesta, consente, silencia, coopera, sorri e faz festas às criancinhas.
 
Ora digam lá se isto não é de ir parar ao hospital com uma crise de nervos.
 
António Borges de Carvalho

JUIZES AO ATAQUE

 
Um grupo de doutos e ilustres juízes resolveu unir-se para tratar de proporcionar aos cidadãos uma Justiça mais célere, uma nova confiança, um melhor serviço.
Nobre intenção. Altos sentimentos.
Um dos promotores do movimento declara que “Vamos mudar a Justiça, doa a quem doer, incomode a quem incomodar”.
Até aqui, tudo bem.
O mesmo senhor diz há em Portugal uma perigosa tendência dos órgãos de soberania para governamentalizar a Justiça e para tirar aos juízes a independência que, constitucionalmente, lhes é garantida.
Acredito nas razões que assistem ao senhor para dizer o que diz.
 
O problema é que o mesmo senhor declara que “os juízes são titulares de um órgão de soberania”. Ora isto pode dar origem, ou ter origem, numa grave confusão. Os Tribunais não são um órgão de soberania. Órgão de soberania é cada um deles, na estrita medida do exercício da função de julgar. É o que diz a Constituição, e outra coisa não podia dizer sem criar uma confusão dos diabos.
Os senhores juízes, enquanto classe, ou enquanto integrantes dos Tribunais, não são órgão de soberania de espécie nenhuma, não competem com outros órgãos, não têm a mesma origem. Cada juiz, ou cada Tribunal, é soberano para julgar. Mais nada.
Quando a Constituição diz que os tribunais são independentes, quer dizer que cada Tribunal é independente, e não que há um órgão de soberania constituído por uma espécie de colectivo dos tribunais, concorrente, ou em pé de igualdade, ou de natureza análoga a outros órgãos de soberania. Cada Tribunal é independente e irresponsável, para poder julgar sem constrangimentos. Mas não há nada que “soberanize”, ou “independentize”, ou “irresponsabilize” uma entidade mais ou menos abstracta que dê pelo nome de “tribunais”, ou de "juizes", e que tenha uma vida própria e independente enquanto tal. Confundir a independência de julgar com independência administrativa, corporativa, ou de outra qualquer natureza, é um erro clamoroso e perigosíssimo. Pelo menos tão grave como “governamentalizar” a Justiça é “judicializar” a governação.
 
Se os senhores juízes se unirem para dar à classe um novo arranque, uma nova alma, um novo sentido de responsabilidade, um savoir faire mais profundo e, com isso, cada Tribunal possa passar a ter condições para prestar os seus serviços com maior liberdade, maior eficácia, maior celeridade, que venha a associação dos ilustres e doutos juízes ajudar o país a sair do atoleiro em que, nesta matéria como noutras, se vai afogando.
Para isso, terão os doutos juízes que partir de ideias claras, não de confusões conceptuais. Para isso, terão que valorizar os colegas, e não chafurdar no ambiente sindical em que, ignorando a dignidade formal e material da sua profissão, vêm vivendo.
 
Se querem prestar um serviço à comunidade, sejam bem-vindos e louvados. Se vêm adubar a pessegada, obrigadinho.
 
António Borges de Carvalho

CUIDADO COM A LÍNGUA!

O ex-engenheiro foi objecto (não vítima, objecto) da chacota do país por causa das suas trapalhices universitárias. O anedotário é rico, expressivo, incontrolável e incontornável. A última medida do simplex – canudo na hora! – é só uma das piadinhas, como que a simbolizar todas elas.
Daí não vem mal ao mundo e, na opinião do dr. Mendes, mal não deve vir ao ex-engenheiro, o qual, na douta opinião do chefe do PSD, deve continuar onde está, por muita falta de carácter de que o acuse.
 
E pronto, dir-se-ia que ficamos por aqui.
 
Mas não. A coisa não vai assim com tanta facilidade.
Imaginem que, segundo rezam as notícias, um tal Charrua, professor de inglês no secundário, “foi suspenso das suas funções e depois dispensado por ter emitido um “”comentário jocoso”” sobre a licenciatura do primeiro-ministro”. Dona Margarida Moreira (aposto que é, ou do PS ou discípula do Sá Fernandes), chefa do Charrua, suspendeu preventivamente o professor, abriu um processo disciplinar e participou o caso ao Ministério Público”. Nem mais nem menos, que a mulher, pelos vistos, não é de modas.
 
Pensei comentar o assunto. Não vale, porém, a pena. Transcrevo, para quem está menos atento ao que se passa neste pobre país, o que o Charrua escreveu num blogue: “O  crime de opinião volta a estar na ordem do dia, a censura mostra agora as suas garras, o terror campeia, a boca calada é imposta pelo temor de processos disciplinares, os informadores pululam e a administração sente-se segura e livre de opositores ao Governo”.
 
Força, ó Charrua! Dá-lhes!
 
António Borges de Carvalho

DA MORTE DO INDIVÍDUO

 
Não há nada pior que um call-center, leia-se, um call-center à portuguesa.
Chama-se àquilo “atendimento personalizado”, isto é, atendimento em que a menina ou o menino começam a conversa por dizer “Vanessa Cláudia” ou “Pancrácio Calhordas”.
 
Há tempos, para resolver com a TV Cabo um problema técnico, tomei nota dos nomes de dezanove Vanessas e dez Pancrácios. Ouvi, pelo menos, duas horas e meia de intragável música, repeti vinte e nove vezes, a solicitação de outras tantas Vanessas e Pancrácios, o nome, a morada, o número de cliente, o número de contribuinte e mais não sei quê, na inefável certeza que nenhuma das novas Vanessas e dos novos Pancrácios fazia a menor ideia da história que eu já tinha contado às Vanessas e aos Pancrácios precedentes.
O resultado desta tão agradável odisseia foi o esperado: o problema não se resolveu. Tomei então a digna atitude de escrever a Sua Excelência o Presidente do Conselho de Administração da TV Cabo, contando o sucedido e rescindindo o contrato. O resultado foi o que se esperava: Sua Excelência não respondeu à minha carta. Em substituição da inexistente resposta, a distinta organização mandou-me uma missiva chapa 4 a dizer que tinha quinze dias para enviar à TV Cabo os materiais em meu poder, sob pena de ter que os pagar a preços completamente absurdos.
 
Este é só um pequeno exemplo do entendimento português do que é um call center e do seu funcionamento. As empresas, públicas ou privadas (desgraçadamente para as minhas convicções liberais, as privadas não são melhores que as públicas), desde que se apanhem num negócio onde haja muitos clientes, dão-se ao luxo de tratar mal toda a gente, cientes de que, se um lhes der com os pés, haverá sempre uns milhares de outros prontos a ser maltratados.
 
Se um tipo tiver a triste ideia de recorrer às “entidades” que, supostamente, o defendem, mete-se noutra do mesmo estilo. A Deco responde que só trabalha para sócios, sendo os sócios da Deco aqueles que respondem a umas investidas comerciais em que os tipos prometem duas esferográficas e um dicionário trilingue a quem se filiar, como se fossem o Readears’ ou a Moviflor. O Instituto do Consumidor responde, invariavelmente, ou que a reclamação é improcedente ou que não tem competência para tratar do assunto, remetendo para terceiros. O Provedor de Justiça tem o estranho hábito de marimbar nestes assuntos.
A última coisa que deve passar pela cabeça do cidadão, em caso de ser vítima de maus-tratos por de um call center(e não só), é queixar-se à Justiça. Se tiver a sorte de a sua queixa ser considerada procedente, verá o assunto resolvido uns vinte anos depois, dada a produtividade das instituições. O mais provável é ser ressarcido no cemitério.
 
Se alguém quiser espernear com alguma eficácia, a solução será fundar um “movimento de cidadania”, arranjar uns milhares de capangas, vir para a rua aos gritos, fazer uma manifestação à porta do ex-engenheiro, arranjar uns jornalistas que se prestem à coisa, enfim, ter uma atitude de “democracia” participativa. Ou actua em grupo, ou faz um escarcéu dos diabos, ou não tem hipóteses de resolver seja que problema for.
 
Malhas que o socialismo tece. A pessoa, o indivíduo, o cidadão, não interessa a ninguém, muito menos à TV Cabo, à agência do BES da Av. de Berna, à companhia das águas, à PT, ou seja, a toda a série de colossos que dominam a nossa vida e que se comprazem a tornar o diálogo impossível para aqueles que não têm meios para os prejudicar minimamente. Que interessa um idiota que se zanga, se há por aí milhões que pagam e não bufam?
 
É nisto que vivemos. Segundo a filosofia da modernidade, filha do socialismo, a sociedade não é constituída por pessoas, mas por grupos de interesses. E, se os interesses de cada um não se integram num grupo suficientemente ameaçador, cada um não interessa a ninguém.
 
Se entrássemos num caminho minimamente decente, em duas ou três gerações talvez o problema se resolvesse. Mas este é um túnel sem luz lá ao fundo.  
 
António Borges de Carvalho

EPISÓDIOS DA NOVELA DA TRETA

 
Toda a gente percebeu que uma senhora de nome Rocha, obscura militante socialista, sentiu na carne o pânico do partido com a eventual candidatura de dona Helena, e tratou de a evitar pelos meios ao seu alcance. Para quem não sabe de quem se trata - o que deve passar-se com 99,99% dos lisboetas - a senhora em causa é a governadora civil do distrito, a seu tempo e a seu jeito nomeada pelo candidato Costa.
A coisa era grave. Dona Helena é mais um Manuel Alegre para o PS, uma fulana cheia de visão de futuro, visão que a levou a desfiliar-se do PS assim que lhe cheirou que ia haver eleições em Lisboa e que não seria a escolhida do chefe. A senhora Rocha tratou de arranjar uma data que puzesse de fora a dona Helena.
Mas o tiro saíu pela culatra. Veio o Tribunal Constitucional adiar a coisa por mais quinze dias, o que dá à dona Helena todas as facilidades para se apresentar a roer as canelas do candidato Costa. Uma chatice.
 
Muito justamente, vêm alguns pedir a cabeça da senhora Rocha. Pois se se pôs de joelhos perante os interesses do candidato Costa, o que está ela a fazer no Governo Civil? Que confiança dá aos cidadãos no acto eleitoral? É Governadora Civil de Lisboa, ou governadora eleitoral do PS?
Baldada diligência. A senhora fica, de pedra e cal, e dá sinais evidentes de vir a beneficiar, no que ao seu alcance estiver, o candidato que, “como cidadã”, faz questão de, publicamente, apoiar. É, no seu melhor, a desfaçatez, a absoluta falta de vergonha socialista. 
 
Diga-se em abono da verdade que quem pediu a cabeça da senhora foi o CDS-PP. O PSD/Mendes ficou caladinho. Mergulhado na mais extraordinária crise de masoquismo de que há memória num partido político, para o PSD/Mendes, demissões, só as dos seus. Para o PSD/Mendes, o primeiro ministro não tem carácter, mas deve continuar primeiro ministro. Se a senhora governadora favorece um candidato contra outros, porque não há-de continuar no poleiro? Coerência, meus senhores, coerência!
Parece que, para o dr. Mendes, o fundamental é correr com o PSD de todas as instâncias do poder, e garantir que o PS não tenha problemas em ficar com o poder todo, todinho, coisa tão do agrado do largo do Rato.
 
Os camaradas do BE revoltam-se contra a nova data. Dizem que a malta vai estar em férias em 15 de Julho. Pois é. E em 1 de Julho, não vai? Será um raciocínio trotskista/Louçã? Ou leninista/Portas? Ou enverhoxista/Fazenda? Sabe-se que a lógica desta gente não é a mesma das pessoas normais, mas, que diabo, esta é de cabo de esquadra! Enquanto pessoa normal, arrisco uma explicação: os tipos ficaram à rasca com a candidatura da dona Helena, que é mulher para lhes dar um dentadinha nos votos.
 
Das profundezas do Tribunal Constitucional, extraíu o chefe o seu novo Ministro da Administração Interna. Não lhe dá tudo, é certo, só as competências que não saca para si próprio.
Chateado por não ter sido eleito vice-presidente do tribunal, o dr. Pereira, célebre nos jornais por advogar a governamentalização da Justiça, bate com a porta e viaja para o Terreiro do Paço. De certa forma é uma coisa boa, já que fica o TC livre de um fulano que, como é evidente e os factos demonstram, não oferecia nenhuma espécie de garantias de isenção. Adorava saber se não foi dele um dos votos contra a decisão sobre a data das eleições, se é que à altura ainda andava armado em juíz..
 
No meio da pessegada, houve quem argumentasse que SEPIIIRPPDAACS devia ter impedido a nomeação do dr. Pereira, sob pena de cohonestar a monumental ofensa às Instituições que a sua saída do TC consubstancia. Cais quê! SEPIIIRPPDAACS preza, acima de tudo, a cooperação estratégica com o ex-engenheiro. Abrir fendas nesta altura? A dois dias da presidência da UE? Estão a brincar, ou quê? Nem pensar. Para SEPIIIRPPDAACS o caso não passa de um fait divers como outro qualquer. O primado do executivo no seu melhor.
 
O arquitecto paisagista Telles é um dos mais destacados apoiantes do caloteiro Fernandes. Mais um emérito viajante. Foi do PPM, foi da AD, foi do PS (independente!), foi do MPT, foi do PS/PC, agora está no BE, isto se não me esqueço de nenhum apeadeito da sua pluralística viagem. Com um jeitinho, se o Paulo Portas o convida, ainda acaba no PP. Se o Fernandes ganhasse as eleições teríamos hortas sociais no meio dos quateirões (já viram os executivos das avenidas novas a regar cebolas?), teríamos o célebre caminho pedonal do parque Eduardo VII para a Serafina (era só preciso calcorrear o vale da Alcântara todinho, para baixo e para cima, coisa óptima para dar cabo do canastro ao mais pintado), seria a coroa de glória de uma vida inteira a atrazar o mundo.
 
Enfim, a pessegada continua. Há mais capítulos, mas ficam para outros posts.
 
 António Borges de Carvalho

UM FUTURO E PERAS

O futuro de Lisboa não podia ser mais negro.
O PS/Lisboa continua entregue aos mesmos analfabetos, sem tirar nem pôr. O senhor Coelho e o senhor Batista lá estão, felizes e contentes como sempre. O Gaioso é um chato.
Nos partidos comunistas, o BE atira-nos à cara com o mesmo díscolo, o qual, apesar dos inegáveis dotes policiais que o distinguem, não deixa de ser o homem que mais prejudicou a cidade nos últimos oitocentos e sessenta e seis anos, e o PC serve mais do mesmo, ou seja, o inchadíssimo Carvalho.
O CDS é, por enquanto, uma incógnita, mas uma incógnita pouco importante.
O PSD não interessa, uma vez que a intenção do senhor Mendes é dar a Câmara ao PS, única explicação possível para quem deu cabo da que, à custa de Carmona Rodrigues, conseguiu eleger.
Restaria a dona Helena, capaz de fazer ao senhor Costa o que o senhor Manuel Alegre fez ao senhor Soares. Mas como, em mais uma extraordinária manifestação de inteligência (e de amor ao PS?!), o senhor Mendes acha que as eleições têm que ser amanhã, acaba a dona Helena por ficar de fora, e o senhor Costa com os votos que ela lhe tiraria.
Na Assembleia Municipal continuará tudo na mesma. A dona Paula continuará a arrebitar o nariz, não se sabe bem a que propósito, nem com que propósito. As mesmas hostes continuarão a jogar à cabra-cega e ao chinquilho.
Lisboa entrará em “austeridade”. O senhor Costa, habituado a fazer o povo pagar as asneiras do governo, fiel aos sábios exemplos do seu chefe, cairá em cima de nós como um leão. Vai ser bonito. Com ele, ao menos, já se sabe de onde virá o dinheiro: dos nossos bolsos.
Dizem para aí que Lisboa perdeu, ao longo das últimas décadas, não sei quantos milhares de habitantes. É altura de perder outros tantos. Só quem for doido é que cá fica.
 
António Borges de Carvalho
 
e.t.                                                      ÚLTIMA HORA
 
Consta, em meios autorizados, que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) vai mandar erguer uma estátua equestre do senhor Mendes, a colocar no largo do Rato, à porta do PS. O monumento será inaugurado aquando das comemorações dos cem anos do 5 de Outubro, se o homem, até lá, continuar a portar-se à altura.
 

NÓMADAS E SEDENTÁRIOS

 
O ilustríssimo e extraordinário advogado José Miguel Júdice anda a ser vendido ao respeitável público como principal apoiante, quiçá referência, da candidatura governamental à Câmara de Lisboa corporizada pelo ambicioso Costa, a man for all seasons.
Uma coisa diferencia os dois homens.
O Costa é um sedentário. Feroz militante do Partido Socialista que temos. Ainda rapazinho, já circulava pelos corredores à procura de trabalho partidário. É um tipo que, goste-se ou não (eu não gosto, porque não gosto do PS), tem uma cara, uma fidelidade, um rumo, todos sabemos quem é, tem um sítio onde estar, e onde está.
O Júdice é o contrário. Um nómada. Diz quem o conhece que militou em infernas regiões de direita nacionalista, da pura e dura. Já homenzinho, ter-se-á esquecido disso, e surgiu a mandar bitates no PSD. Parece que ganhou umas massas largas, lá pelas bandas do escritório do dr. António Maria Pereira. Honra lhe seja. Foi bastonário dos advogados. Honra lhe seja. Descobriu que era nobre, salvo erro da nobre estirpe dos Alarcões. Deu em hoteleiro.
(Estive dois dias nas judicieiras instalações, e jurei para nunca mais. O quarto era uma soda, a água do miserável laguinho estava podre, cheia de bicharada, os tipos tratavam-me por senhor António, não havia uma alma caridosa que soubesse fazer uma sanduíche, ainda menos um chá.)
A partir de certa altura, o ilustre cidadão começou a dar sinais de “independência”, isto é, caso a caso, mandava as suas bocas, sem se perceber lá muito bem de que lado estava. Deve achar-se uma referência, pensavam os críticos. Coitado. Há dias, comunicou urbi et orbe que tinha rasgado o cartão do PSD. Ninguém percebeu lá muito bem o que aquilo queria dizer. Mas tratava-se de sábia atitude, cheia de visão de futuro. Um amigo meu, conhecedor profundo da natureza humana, disse-me “vais ver, não tarda nada temos aí outro Freitas”. E não é que tinha razão? O homem mostra as suas qualidades de transumante. Já chegou ao PS. Como o Costa é tido por esquerdista dentro do partido, havia que lhe criar alguma credibilidade à direita. Nada melhor que ter o prestigioso causídico ali à mão, cheio de vontadinhas.
É notável como os sedentários se juntam aos nómadas quando a coisa pode dar.
Ainda havemos de ver o dr. Júdice a aceitar, judiciosamente, um lugarzinho de ministro ou, quem sabe?, uma candidaturazinha à presidência, mais ano menos ano. Com o apoio do PS, pois então!
Isto de coerência em política, é, para muita gente, uma batata. Não tem ponta por onde se lhe pegue.
 
António Borges de Carvalho

AI, MENDES, MENDES

Em 5 de Maio, um jornal noticiou que não haveria qualquer imposto especial sobre a valorização dos terrenos que integram a área de influência do futuro (t’arrenego!) aeroporto da Ota.
Convenci-me de que a coisa iria dar uma enorme bronca, de que haveria uma legião de comentadores, de jornalistas, de economistas, de boas almas, etc., que iriam assestar as suas artilharias sobre o governo.
Esperei 10 dias. Hoje, sou levado a concluir que, ou sou mais estúpido do que julgava, ou há aqui qualquer coisa que não funciona.
Nos tempos do governo Cavaco, Joaquim Ferreira do Amaral travou, como é bem sabido, uma luta titânica, quase heróica, pela ponte Vasco da Gama. E, se a coisa acabou por passar, foi, entre outras razões, porque foi lançada uma espécie de imposto de mais valias, destinada a “evitar a especulação”, a moderar a “pressão do betão”, e a outras alarvidades tão do agrado dos empatas.
Agora fia mais fino. Os empatas de ontem são os p’ra-frentex/simplex/otex de hoje, não se lhes aplicando as exigências que a terceiros fizeram. É, para eles, evidente que, estando o PS no governo, não haverá especulação, nem betão, nem nenhum inconveniente do tipo advirá do processo, pelo menos nenhum inconveniente que possa justificar o tal imposto especial.
O que se aplica aos outros não se aplica a nós, se não nos convier. É esta, com provas dadas através da história, a filosofia do PS.
Não é, por conseguinte, de estranhar a omissão, vinda de quem vem. Também não é de estranhar a (não) atitude de comentadores, jornalistas, economistas, boas almas, etc. O que está a dar está a dar, e isto de levantar o rabinho do selim tem os seus inconvenientes.
De estranhar, sim, é a (não) atitude do PSD nesta, como noutras matérias. Entretido a dar tiros no pé, viciado na antropofagia, o dr. Mendes nem dá pelo que se passa à sua volta. Deve andar por aí entretido à procura de mais algum autarca do partido a quem dar um pontapé no rabo, ou de algum santo mártir que ponha a cabeça no cepo das eleições em Lisboa, cuja Câmara o dr. Mendes tudo fez para, generosamente, oferecer ao PS.
 
António Borges de Carvalho

TERCEIRO-MUNDISMO

 
Silva, presumido e presunçoso comentador socialista, brinda-nos esta semana com estes mimos:
- “É um score (o da vitória de A.J. Jardim) que só se vê, quando se vê, nas autocracias do terceiro mundo”.
- Os partidos da oposição, na Madeira, deviam tomar “a única atitude consentânea com a anormalidade política regional: recusarem-se(sic), pura e simplesmente, a participar em actos eleitorais…”.
 
Canas, conhecido demagogo ao serviço do PS, acha que “as aberrações eleitorais da Madeira não possuem dimensão nacional”.
 
Portanto, na opinião dos dois ilustres camaradas, se o dr. Jardim esmagou o PS, isso deve-se a “aberrações eleitorais” e à existência de uma autocracia terceiro mundista, estilo Mugabe, no arquipélago.
Nem um nem outro dos diáfanos propagandistas do socialismo nacional reconhece que o sistema eleitoral da Madeira é o mesmo que o do Continente, que é fiscalizado pelas mesmas entidades, que usa os mesmos métodos técnicos, que os órgãos de comunicação social do Estado, e não só, têm que cumprir as mesmas regras, que os partidos e coligações se candidatam pela mesma forma e obedecendo aos mesmos critérios, que não houve chapeladas nas eleições, que a contagem dos votos foi séria, etc. Não. Se o socialismo dito democrático perde as eleições, suprema injustiça!, isso não se deve à vontade dos eleitores, muito menos à repugnantíssima traição do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) que os abandonou à sua sorte para se livrar de chatices, mas ao condicionamento da sua vontade por meios “deficitários” em termos democráticos. Não tarda que descubram, na Madeira, campos de concentração, câmaras de gás, quartos de tortura com a sua parafernália de espetos e garrotes, locais onde são tratados os opositores socialistas à “autocracia terceiro-mundista” que domina o arquipélago e o mantem, com recurso à mais horrenda opressão, sob a batuta de um terrível ditador. A coisa é tão horrível que não resta aos adeptos do socialismo nacional outra solução que não seja a de se retirar dignamente da vida política. Que escrúpulo democrático! Que magnífica demonstração de fair play!
 
Esta gente está doida de raiva e de frustração. Perdeu a cabeça. Incapaz de fazer passar uma alternativa qualquer à governação de Jardim, irritada com a displicência chocarreira com que o homem a trata, nervosa com os resultados perversos do garrote financeiro com que brindou a região, esta gente não têm outro recurso que não seja o de recorrer ao insulto para justificar os seus desaires.
 
Não sou, pessoalmente, um defensor do estilo de Alberto João Jardim. Não vou contra quando ouço dizer que o espantoso progresso que conseguiu se deve em boa medida a privilégios fiscais, financeiros e outros, de que a restante malta não goza. Mas tenho que reconhecer, porque só não vê quem quiser ser cego, a extraordinária obra que se tem realizado na “pérola do Atlântico”.
Por isso que me seja fácil, e a quem quer que olhe as coisas como elas são, compreender o estrondoso resultado do braço de ferro entre o dr. Jardim e a política socrélfia.
 
Terceiro-mundista e própria de autocratas é a reacção do socialismo nacional à monumental sapatada que lhe foi dada pelos portugueses da Madeira.
 
António Borges de Carvalho

AINDA O TÚNEL

 
Anteontem, na telefonia do carro (raramente a acendo), dei com uma voz que vituperava, em termos vigorosos e definitivos, o túnel do Marquês. A fraseologia, a “certeza” técnica, a “autoridade” doutrinária, levaram-me a pensar que se trataria de algum membro do comité central do PC, assaltado por uma crise de ciúmes e de frustração por ver a obra realizada. Como já não há mais argumentos, o homem insistia na “impossibilidade” de abrir o corredor da António Augusto Aguiar, para além das consabidas diatribes sobre o “atrazo”, evidentemente devido à incompetência da dupla Santana Lopes/Carmona Rodrigues, que não aos crimes de outro partido comunista, pela mão do inacreditável Fernandes.
Qual não é o meu espanto ao perceber, ao longo do programa, que se tratava de um ilustre (dizem) cirurgião, que afirma já ter operado umas cinco ou seis mil pessoas e que usa surgir em todos os jornais, rádios e televisões, a dar opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Julgo que o homem, conhecido “lagarto”, não tem nada a ver com os partidos comunistas.
O assunto em si tem a importância que tem, ou seja, nenhuma. Mas vale a pena pensar um bocadinho. Toda a gente percebe que o túnel é um formidável acréscimo de valor para a cidade. Não há um único utilizador que o não reconheça. Não há quem não deseje que o problema da saída para a A.A.Aguiar se resolva o mais depressa possível. Só uma abordagem possidónia, ignorante e provinciana do problema pode levar a afirmar que não há solução. O cirurgião deve saber que, em cidades civilizadas, há túneis que se cruzam, sobrepoem e ladeiam aos sete, aos oito, aos dez, por vezes a centímetros uns dos outros. Então porque se insiste na maledicência? Porque é que um cidadão cosmopolita e famoso se encarniça contra a coisa?
Eu explico. É que, na nossa sociedade primitiva e saloia, para se ter lugar nas rádios, nas televisões e nos jornais, é preciso defender “o que está a dar”. O que (ainda) está a dar nestas matérias é demolir Santana Lopes e Carmona Rodrigues. O cirurgião, para se aguentar na crista da onda, mais não tem que, cortiçamente, a cavalgar. Voilá.
Pois se até o inestimável Mendes tomou a dianteira demolindo-se a si e aos seus, porque razão não há-de um cirurgião lagarto e mediático apanhar o combóio?
O homem, afinal, tem carradas de razão.
 
António Borges de Carvalho

ESTUPIDEZ OU LOUCURA?

Não foi o PS, ou os partidos comunistas, quem mais contribuiu para apear o governo de Santana Lopes. Foi do interior do PSD que os seus grandes adversários surgiram. Cavaco, marechal de campo, Marcelo, general de brigada, comandaram informalmente uma coorte de soldados e de escribas em que se distinguiram algumas figuras gradas do partido, bem como outras, mais pequenas, onde avultava a seriedade provinciana e bacoca do Dr. Marques Mendes.
Posta a semente no fértil terreno de Belém, o golpe de Estado surgiu como coisa quase natural e corriqueira aos olhos das pessoas. Pois se aqueles de quem seria lógico esperar apoio ao governo o aviltavam todos os dias, que havia de pensar o pobre do cidadão, menos avisado nestas matérias?
Em termos de funcionamento do regime, é inimaginável, incompreensível e injustificável que, por dentro do seu principal partido, se faça cair um governo, e se prepare o terreno para uma esmagadora vitória do seu principal rival.
 
A bela obra de Cavaco, Marcelo y sus muchachos,não serviu, porém, de lição. Bem pelo contrário. O Dr. Marques Mendes, pletórico de “coerência”, dá um pontapé no rabo do homem que lhe ofereceu de bandeja a maior Câmara do país. Não contente com o que já conseguira em relação ao governo, ainda que como actor de segunda, vem agora repeti-lo em matéria autárquica da maior importância.
O Dr. Marques Mendes não percebe, ou finge que não percebe, ou não quer perceber, que o único julgamento que lhe é legítimo fazer é de carácter político, isto é, está-lhe vedado julgar, sequer suspeitar, acerca da vida ou dos feitos de cada um por outros critérios que não os políticos. Uma coisa é aceitar ou não aceitar que um determinado cidadão integre, como candidato, as listas do seu partido. Outra, completamente diferente, é emitir juízos sem fundamento sobre os eleitos a meio do mandato, e, barbaramente, permitir-se apeá-los a seu bel-prazer, servindo-se de tão fracos pretextos como os de que se serviu. Num caso, teremos um julgamento político sobre as vantagens ou inconvenientes políticos de uma determinada candidatura, no outro um julgamento “judicial” antecipado sobre os actos de um político. E nem os exemplos emblemáticos do PS, do BE ou do PC, que vão protegendo os seus como podem, e mesmo quando não devem, lhe servem de lição.
 
O últimos sucessos atingem, já não as raias do absurdo, mas, à escolha, as da loucura ou da estupidez. O Dr. Marques Mendes, por razões que estão à vista de toda a gente, acha que o primeiro ministro Pinto de Sousa (Sócrates) não tem carácter. O Dr. Marques Mendes tem razão. Tal falta de carácter está demonstrada, é pública e notória.
Mas, neste caso, o Dr. Marques Mendes tem outro peso e outra medida. Acha que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates), mesmo sem carácter, deve continuar à frente do governo. O Dr. Marques Mendes, que se encarniça a perseguir os seus e a correr com eles do poder, acha que os adversários, façam o que fizerem, devem continuar no poleiro.
Mais. O Dr. Marques Mendes fornece ao adversário a lenha de que necessita para queimar o PSD e oferece-lhe, de mão beijada, uma cortina de fumo para tirar o primeiro ministro da linha de fogo e apagar das páginas dos jornais as suas malfeitorias académicas, e não só.
O PS, com carradas de razão, canta de galo com tudo isto.
Não sei se haverá, no mundo, alguma Democracia parlamentar onde estas coisas sucedam, onde um líder político se sirva de critérios opostos, não para fustigar o adversário e proteger os seus, mas para proteger o inimigo e punir o seu próprio partido, os seus apoiantes, os seus eleitores, os portugueses em geral e, o que é mais grave, a própria essência do regime que seria suposto defender.
 

António Borges de Carvalho

FALTA DE JUÍZO

 
As andanças ético-políticas do Dr. Marques Mendes merecem um segundinho de reflexão. Nos últimos dias, as minhocas parecem ser mais do que as cavadelas. É uma pena.
O Dr. Marques Mendes acha que o Prof. Carmona se deve demitir. Então, e o senhor Pinto de Sousa (Sócrates)? Deve ficar?
O Prof. Carmona, no seguimento de infrene, impiedosa e malevolente perseguição levada a cabo pelos adversários políticos do Dr. Marques Mendes, anda a ser interrogado. O Dr. Marques Mendes adopta a posição dos seus inimigos políticos. Defende-a contra os seus próprios apoiantes. O Dr. Marques Mendes não faz a mais leve sombra de ideia se o Prof. Carmona cometeu fosse que crime fosse. Mas acha que o homem deve ir-se embora.
O senhor Pinto de Sousa (Sócrates) é, comprovada, pública e notoriamente, um aldrabão. O Dr. Marques Mendes acha que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) é um aldrabão. Até o acusa, com carradas de razão, de “falta de carácter”. E o senhor Pinto de Sousa (Sócrates), para além do que é evidente, está a ser investigado, como o Prof. Carmona.
Então porque é que o Dr. Marques Mendes exige a queda do Prof. Carmona, e não a do senhor Pinto de Sousa (Sócrates)?
Como é possível que um homem que se diz líder da oposição, ou do maior partido da oposição, acuse o seu rival de falta de carácter achando muito bem que fique no poder, e, sem fazer, nem ter para fazer, acusação alguma, defende a queda do Prof. Carmona?
Que raio de oposição é esta, que raio de líder é este?
Para os lisboetas, tão mau como isto, se não pior, é a ameaça, implícita nos mendais silêncios, de vir a candidatar a dona não sei quantas da Cruz à presidência da Câmara.
 
Que mais está para nos acontecer?
 
Mais. Desgraçadamente, há mais. O Dr. Marques Mendes acusa o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) de governar mais à direita do que o PSD o faria. Estamos nos umbrais da loucura, ou da estupidez? O Dr. Marques Mendes, com as suas acusações, faz inveja aos partidos comunistas.
Então privilegiar os interesses do estado contra os dos cidadãos, nas finanças, na economia, na saúde, é uma atitude de direita democrática ou de esquerda totalitária ou proto-totalitária?
Então concentrar as polícias, a investigação criminal, a vigilância das fronteiras, etc., na alçada de um só homem, é uma atitude de direita democrática ou de esquerda totalitária ou proto-totalitária?
Então impor às pessoas um aeroporto que é, evidentemente, uma monumental asneira técnica, financeira, económica e ambiental, para gáudio e afirmação do Chefe, é uma atitude de direita democrática ou de esquerda totalitária ou proto-totalitária?
Então levar o país a não ter tratamento de resíduos perigosos, quando uma solução consensual já foi encontrada há anos, só para gáudio e afirmação do Chefe, é uma atitude de direita democrática, ou de esquerda totalitária, ou proto-totalitária?
Então tomar conta da informação, acusar os que não alinham de "imprensa de sargeta", é uma atitude de direita democrática, ou de esquerda totalitária ou proto-totalitária?
 
Para quem, ou para quê, trabalha o Dr. Marques Mendes?
O mais que se pode dizer, ou desejar, é que Nosso Senhor lhe dê juízo!
 
António Borges de Carvalho

DO CRIME TABAGISTA

 
Andam por aí uns fulanos a protestar contra o facto de as multas a aplicar aos novos criminosos da proto-ditadura socrapífia (os fumadores) serem o dobro das aplicadas aos consumidores de bem mais inocentes produtos, morfina, heroína, cocaína, extasy e similares.
O Estado, que já cobrava, e muito bem, aos abomináveis indivíduos, a módica quantia de mil e quatrocentos milhões de Euros (números do fisco relativos a 2006), propõe-se persegui-los umas multinhas, rendosas e bonitinhas, no generoso afã de proteger a higiene de terceiros contra os inqualificáveis abusos dos criminosos. 
Dona Fernanda Câncio, plumitiva do regime, acha muito bem. Então não havia de achar? Os criminosos empestam, com o seu vício, o ar respirado pelas pessoas de bem, assim agravando o repugnante crime que praticam ao fumar. Os utilizadores dos outros produtos, no parecer da distinta intelectual, não fazem mal a ninguém, a não ser a si próprios. Por isso, segundo a moral socrapífia apregoada pela dona Fernanda, não se pode confundir o vício de uns, coitadinhos, com o crime dos canalhas. Lapidar. Evidente. Genial.
Há um pequeno detalhe, de que a nobre senhora se esquece. Nada mais nada menos que o facto, indesmentível, de mais de metade da criminalidade violenta em Portugal ser consequência directa das substâncias cujo consumo, no douto parecer da dona Fernanda, deve ser objecto de multas mais leves que as dos fumadores.
Demos, apesar de tudo, o benefício da dúvida e a mão à palmatória. Talvez a socrífica propagandista tenha alguma razão: de facto, matar uma velhinha para a roubar, assaltar a casa de cada um, dar umas facadinhas a uns fulanos, violar uns miúdos, sacar as carteirinhas das senhoras no meio da rua, espancar uns funcionários numas bombas de gasolina, não passa de pecadilhos comparados com os tabacais eflúvios que, partindo dos narizes dos fumadores, podem, se não forem exemplarmente reprimidos, penetrar nos delicados pulmõesinhos da dona Fernanda, podendo levar ao indesejável extremo de nos privar das suas preclaras opiniões.
 
António Borges de Carvalho

DA DIGNIDADE DO 5 DE OUTUBRO

 

Com o mais profundo respeito e a maior das humildades, permito-me citar Sua Honorificência o Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Excelentíssimo e Mui Ilustre Senhor Doutor António Reis.

Sua Magnânima Munificência, cercada de triângulos, compassos e olhos vasados, com o ventre pudicamente envolto em marchetado avental, entre as brumas das nobres naves do Templo, afirma que “faz todo o sentido aproveitar as celebrações da República para se reforçarem* legalmente os direitos conjugais dos homossexuais”.

Pois faz. Já o tínhamos dito, testemunhando para a posteridade a alta dignidade moral e estética das esclarecedoras palavras e intenções de tão nobre personalidade. Nada melhor para comemorar o 5 de Outubro do que fazê-lo ficar ligado a tão nobres objectivos, fazendo deles, aliás, o ponto alto de tais comemorações.

 

António Borges de Carvalho

 

 

* Sujeito indeterminado, terceira pessoa do singular. Reforçar e não reforçarem. O predicado concorda com o sujeito, não com o complemento directo, por muito que a TLEBS diga o contrário.

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