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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

O MUNDO PINTODESOUSIANO

Inúmeras e abalizadas vozes repetem por aí que Sua Excelência o primeiro-ministro “anda na Lua”, “não vive neste mundo”, “se move numa fantasia”, “não reconhece os problemas”, etc.

 

Nada mais falso. O senhor Pinto de Sousa sabe muito bem qual é a realidade, quais são os problemas, quais os riscos. Sabe muito bem que quem tem razão é o Medina Carreira, o Ernâni Lopes e quejandos. Sabe tudo, melhor que nós. Não anda na Lua, vive neste mundo, etc.

Só que falar do mundo como ele é, ou no país como ele está, é coisa que não lhe convém. O senhor Pinto de Sousa não governa, nunca governou, para outra coisa que não seja ele próprio, a sua ambição, o seu orgulho, as suas vitórias. O país é uma coisa que ele tem que “ter na mão” à custa seja lá do que for. Assim, aprendeu a passar entre os pingos de chuva sem se molhar. Jamais reconheceu publicamente a existência da realidade, embora a conheça. A realidade não é coisa que lhe convenha, a não ser que a consiga manipular em seu favor.

 

O senhor Pinto de Sousa “cria” um mundo, que ele sabe não existir, mas que é “vendável”. Quanto mais compradores houver, mais hipóteses tem ele de continuar no poleiro. É isso, para ele, a “estabilidade governativa”, a “governabilidade” e outros chavões em que o Prof. Cavaco embarca com deleite.

 

O futuro não interessa, o que interessa é ir manipulando o presente. Na certeza que, na cabecinha privilegiada do senhor Pinto de Sousa, quando o futuro nos cair em cima a quatro patas, haverá sempre um culpado. Outro que não ele.

 

30.8.10

 

António Borges de Carvalho

O MELHOR DOS MUNDOS

Com a pompa e o serviço público da cartilha, foi anunciado o simplex comercial, isto é, se você quiser abrir um estabelecimento, abre, e pronto.

É de louvar esta atitude das notáveis figuras governamentais. Até parece mentira!

Parece também exagero. Então agora abre-se uma lojeca qualquer, ou uma lojona, seja o que for, sem atender a qualquer regra? Não acham isto demais?

Parece mentira, e é mentira. Parece demais, mas não é.

 

O que se passa não é que tenha havido simplificação ou, no jargão governamental, simplex.

Nenhuma das três mil condições para abrir um estabelecimento foi abolida ou simplificada. Nenhuma das oitocentas e quarenta e nove entidades com jurisdição na matéria foi tirada do circuito. Nenhum dos elementos da montanha de papéis obrigatórios passou a desnecessário ou lhe foi reconhecida a obsolescência, a inutilidade, o carácter de burocracia abusiva e ditatorial. Nenhum dos inúmeros fiscais, funcionários, arquitectos, engenheiros, com competência para o efeito, foi considerado supérfluo ou excessivo. Continua a ser preciso vir os bombeiros, a Certiel, a EPAL, os tipos do gás, da ASAE, da eficiência energética, do diabo a quatro. As licenças, alvarás e concomitantes papeladas são as mesmas.

Tudo está como dantes. A diferença é que se, no sistema actual, pelo menos teoricamente, não se pode abrir um estabelecimento sem a respectiva licença, agora pode-se, tratando-se depois dos papéis. Haverá, porém, um elemento importante: o pretendente a lojista vai ter que assinar um termo de responsabilidade, em que se compromete a cumprir (todas) as regras.

As regras são as mesmas, só que, a partir de agora, vai ser muito mais fácil aplicar as multas, uma vez que há, previamente, um compromisso de honra assinado pelo interessado.

 

O previsível resultado é evidente. Muitos estabelecimentos vão abrir sem respeitar a miríade de condições a que estão sujeitos, nem as desnecessárias, que são muitas, nem as úteis, que são uma dúzia delas. A actividade fiscalizadora vai conhecer um incremento nunca visto. As companhias, as empresas, os burocratas, toda a malta que chateia vai chatear muito mais, vai aplicar a pastilha e dar cabo da vida a meio mundo como nunca visto.

As normas, essas, vão continuar em vigor, ou aumentar, que não só é uma chatice não ter normas para aplicar como o é não ir produzindo mais umas.

Entretanto, o ignaro povo rejubila com mais esta aldrabice do governo. E tudo fica no melhor dos mundos.        

 

30.8.10

 

António Borges de Carvalho

Ó CRESPO, ESTÁS BALHELHAS?

 

Ao inesgotável baú de velharias que tem de reserva, foi o PC buscar o Lopes, um rapaz que, aos 17 anos, foi pescado na escola industrial e imediatamente integrado na gruta sombria da burocracia partidária.

O rapaz diz-se electricista mas nunca apertou um parafuso.

Viu com gosto ser-lhe lavado o cérebro e nele implantada a pen drive (actualização permitida pelo PC quando as cassetes caíram em desuso), coisa que papagueia, fatinho novo, agora na casa dos cinquenta, com primor escolástico e convicção de PVC (outra novidade).

 

Tal personalidade, formatada de forma já tão velha, não mereceria ao IRRITADO qualquer referência, não fora, desgraçadamente, tê-lo visto e ouvido duas noites seguidas a debitar as gravações da pen.

Na TVI, qual gramofone, o homem desdobrou a cartilha meio atrapalhado, mas com alto poder repetitivo, a mostrar que tinha decorado as necessárias fórmulas para responder a alhos com bugalhos, já que o importante, segundo as ordens do partido e as profundas convicções do patego, é debitar o que está gravado e não se deixar apanhar em armadilhas burguesas.

Lapidarmente, quando lhe perguntaram se achava, como o Bernardino, que a Coreia do Norte é uma democracia, o palhaço respondeu mais ou menos assim:

- O caminho, portanto, do socialismo, portanto, tem vias, portanto, que, portanto, objectivam, portanto, a libertação do homem, portanto, a caminho, portanto, de uma sociedade, portanto, mais justa. Portanto…

- Pois, mas diga lá se a Coreia do Norte é, ou não, uma democracia.

- Portanto, a libertação dos povos, portanto, assume, portanto, segundo as condições objectivas, portanto, do estádio, portanto, de cada sociedade, portanto, as fórmulas mais adequadas, portanto, ao devir científico, portanto, da história.

A fulana que o entrevistava, vistos estes esclarecimentos, resolveu não insistir. O povo já tinha percebido que o inigualável regime do camarada Kim Jong Il é o ideal para o nosso PC. Não é novidade, mas é bom de ouvir e muito devia esclarecer o pessoal.

 

No dia seguinte, foi o inefável Crespo quem o entrevistou, na SIC Notícias.

Como o IRRITADO já estava de sobreaviso, pôs-se a contar os “portantos”. Contou 74. Devem-lhe ter escapado vários, dada a velocidade com que o patego debitava a pen. Teremos assim que, em 20 minutos, o dito disse “portanto” cerca de 4 vezes por minuto, de 15 em 15 segundos em média, o que deveria, se houvesse justiça neste mundo, figurar no “Guiness”, como “record” da estupidez discursiva.

Ah! Já me esquecia! Os autores lidos pelo patego são Álvaro Cunhal e José Saramago, o que completa o retrato do candidato do PC às presidenciais.

 

No fim da entrevista, o Crespo desejou ao aparatchick "as maiores felicidades".

 

Ó Crespo, estás balhelhas?

 

28.8.10

 

António Borges de Carvalho

IMPORTANTE MISSIVA

 

Senhor Primeiro-ministro, Excelência

 

Queria pedir-lhe encarecidamente que tomasse dois minutos do seu precioso tempo (precioso para si mas ainda mais para todos nós) a ler o meu último editorial.

 

Nunca fui seu inimigo!

 

Como largamente demonstro no citado editorial, não estavam totalmente longe da razão os que me acusavam de seguidismo em relação a Vossa Excelência, incluindo esse poço de fel que se auto intitula IRRITADO e que, calcule-se, chamava “Sólcrates” ao meu jornal. Suma injustiça! O meu jornal - como eu próprio - sempre foi de uma independência acima de qualquer suspeita.

Verá na peça que refiro, as transcrições do que escrevi, frases verdadeiramente históricas de apoio à Sua Insigne Pessoa. Verá o que eu disse sobre o tristemente célebre caso da sua augusta licenciatura e a forma firme como condenei os que, a tal respeito, infamemente o perseguiram. Verá o que eu disse sobre a sua personalidade, a indomável força anímica que o caracteriza, a mesma que assiste aos grandes homens, por exemplo ao Cristiano Ronaldo quando entra em campo, desde que não seja pela Selecção.

Em suma, verá, no meu despretensioso escrito, um resumo do que, ao longo do tempo, fui escrevendo, elogiando-o com a justiça e a independência que me caracterizam.

 

Confesso que os equilíbrios internos a que qualquer Chefe é obrigado, me levaram, como a si, a, por vezes, deixar passar informações provindas de uma tal cabrita, uma cabra!, informações que não correspondiam, de forma alguma, à admiração e ao respeito que sempre tive por Vossa Excelência. Coisas da vida.

 

Felizmente, as voltas do destino levaram a que a massa associativa deste jornal fosse recauchutada, nela entrando algumas personalidades de alto poder financeiro, ligadas ao governo de N’gola.

A esses importantes senhores não são indiferentes as atitudes do jornal que, à minha revelia, de alguma forma lançam ou lançaram indesejáveis escolhos no mar das suas relações com o poder de Tugália.

 

Por isso que, para pôr os pontos nos is e para que não restem dúvidas sobre a minha indesmentível fidelidade a Vossa Excelência, se tenha tornado importante fazer a humilde resenha dos meus justos elogios à sua Pessoa, republicando alguns dos momentos que, indesmentivelmente, os representam e provam.

 

Espero que esta minha atitude ponha fim a qualquer suspeição da parte de Vossa Excelência, outrossim que venha a entrar em justa consideração em qualquer momento em que a Justiça, por iniciativa de Vossa Excelência, se venha a pronunciar sobre as nossas relações, sem nuvens ou antolhos que lhe possam prejudicar o discernimento.

 

De Vossa Excelência atento venerador e obrigado, subscreve-se o

 

Apolónio Josué Catraiva   

A VER NAVIOS

 

Nas águas de Viana do Castelo jaz um navio de seis andares cuja construção foi adjudicada aos ENVC pelo governo regional dos Açores por 49,5 milhões de euros, navio cuja manutenção já vai em 300.000 euros e cujo valor desce todos os dias.

Os Açores não querem o navio, nem o pagam. Entretanto, para colmatar sua falta, trataram de alugar, na Grécia, coisa parecida. O custo dos alugueres (2010/2011) é de 21,246 milhões de euros salvo eventuais actualizações, como é de estilo.

 

Tudo por ajuste directo!!! Sem concurso!!!

 

Porque foi recusada a recepção do navio?

É simples. No decurso da construção o projecto foi alterado para aumentar a segurança. O processo fez com que o navio ficasse mais pesado. O peso a mais causou uma diminuição da velocidade que se cifra em 1,4 nós, isto é, o navio, que era suposto dar 18 nós, só dá 16,6.

Em linguagem “terrestre”, o navio, em vez de chegar aos 33,3 quilómetros por hora, chega só aos 30,71. Como se vê, uma diferença brutal, importantíssima, arrasadora!

Daí que o governo socialista dos Açores o tenha recusado, se tenha comprometido (sem concurso) com uma despesa de cerca de metade do seu preço, para dois anos, o que quer dizer que, em menos de cinco anos, teria pago o dito navio, e ficado com ele nos seus activos. Assim, fica na mesma sem o dinheiro e sem o activo!

 

Não faço ideia do que pensará disto o Tribunal de Contas. Gostava de saber. Não sei o que pensarão disto os perseguidores da corrupção, que por aí abundam, impolutos e sérios. Gostava de saber.

Não sei o que pensará o ministro das finanças. Gostava de saber. Não sei o que pensará o primeiro-ministro, se é que pensa nalguma coisa que não seja a próxima mentira que dirá aos portugueses. Não sei o que pensa o Presidente da República, tão preocupado que andou, há tempos, com os Açores, se é que tem tempo para pensar noutra coisa que não seja a sua continuidade no poleiro.

 

O IRRITADO pensa que estas coisas de alugueres milionários, habitualmente, dão pano para mangas.

Pensa que é totalmente ilegal, para além de imoral, fazer ajustes directos para montantes desta ordem.

Pensa que o PGR anda a dormir.

Pensa que, se o governo dos Açores não fosse do PS, outro galo cantaria perante uma coisa destas.

 

E não pensa mais porque estas coisas lhe metem um nojo do caneco.

 

24.8.10

 

António Borges de Carvalho

DA ESTUPIDEZ CIENTÍFICO-BUROCRÁTICA

 

Fui um frequentador assíduo do Portinho da Arrábida. Tive lá um barquinho, depois outro, e ainda um terceiro. Durante uns trinta anos. Tinha a minha poita, navegava por ali com a filharada e a mulher. A coisa era fiscalizada pela Polícia Marítima, que verificava as cartas, a fateixa, os coletes, o diabo a quatro.

O Portinho tinha muitos defeitos, o sistema era primitivo, o estacionamento caótico, etc. Mas, para quem gostava verdadeiramente do Portinho, tudo era, afinal, engraçado. E não fazia mal a ninguém, menos ainda ao mar ou à Serra.

As coisas melhoraram muito quando o senhor Mata Cáceres (não o senhor Pimenta) acabou com as barracas e as casotas. Depois...

 

Vieram uns sabichões dizer que andavam a proteger a natureza. Criou-se uma “entidade” gestora dos portos de Sesimbra e Setúbal. As poitas passaram a meia dúzia e tornaram-se caríssimas. A burocracia apoderou-se do sistema. Quem quisesse ter um barco tinha que ir para hediondas paragens, perto de Setúbal. Isto depois de um processo complicadíssimo, injusto e caro. Foram abolidas as zonas de abicagem. Passou a ser proibido fundear fosse onde fosse, para “proteger os ecossistemas”, como se alguém fundeasse em cima de algas ou de rochas. Pesca submarina nem sonhar. E, mesmo a pesca artesanal, só a 450 metros da costa (quem os mede?). Os predadores invadiram as águas “libertadas”. Acabaram os linguados, os chocos e as raias. As multas começaram a chover. Todas as embarcações, incluindo canoas e caiaques a remos, foram impedidas de navegar entre o Portinho e a Figueirinha. Etc.

 

Imperam os poderosíssimos sabichões. Aqui, como em Foz-Coa e um pouco por toda a parte. E são pagos para isso.

Há uns anos que não tenho barco. Tiraram-me o Portinho, tiraram-me o gozo da navegação, do Portinho à Figueirinha ou a Tróia, de Setúbal a Cascais. Vou lá, uma vez por outra, matar saudades e comer umas amêijoas, presumo que ilegais.

Faço mal. Não se deve voltar onde se foi feliz, não é?  

 

24.8.10

 

António Borges de Carvalho

PERGUNTAS ESTÚPIDAS

 

Uma miúda menor de idade, certamente filha de irresponsáveis compulsivos, resolveu dar a volta ao mundo à vela, em solitário. Anunciou que partiria de Portugal. A nacional subserviência ficou satisfeitíssima. Que inusitada honra!

Mas a pequena, sem mais nem quê, resolveu mudar-se para outras águas, dizem que na companhia do idiota papá.

Até aqui tudo bem, ou tudo mal, como se queira.

Vem nos jornais que a menina “foi escoltada até sair das águas territoriais pela Marinha Portuguesa”.

As perguntas são:

- E se me der na cabeça ir passear de barco pelo mar fora, a Marinha Portuguesa escolta-me, a ver se não me acontece nada?

- Quanto custou a operação?

- Quem é o responsável por estas parvoíces?

 

*

 

O Benfica anda a rifar o guarda-redes castelhano que custou 8,5 milhões de euros. O mais provável é ninguém querer um industrial de frangos do quilate do rapaz.

A pergunta é:

- Então o Benfica não tinha lá, pelo menos, o Quim e o Moreira, qualquer deles a meter o castelhano num chinelo?

 

*

 

Os portugueses, nos primeiros 6 meses deste ano, puseram ao fresco, entenda-se a salvo, entenda-se em off-shores, nada menos que 1.200.000.000 de euros.

Cada um defende o que é seu. Por meios legais, é o caso.

A pergunta é:

- Será que o governo não percebe o dinheiro que o país perde por causa da carga fiscal maluca com que esmaga as pessoas?

 

24.8.10

 

António Borges de Carvalho

SHOWBIZZ

Em gloriosa jornada beirã, perante umas dúzias de zelotes arredondados em forma taurina para parecer muitos, o grande homem, longe das tábuas, entre histriónicos saracoteios e ferozes ademanes, ribombou as suas verdades.

 

Eis algumas:

- O desemprego está a descer;

- A economia está a recuperar;

- A educação está em grande progresso;

- A ciência está mais melhor porque gasta mais dinheiro;

- O Passos Coelho é um leviano.  

 

N.B. As verdades proclamadas devem ter sido mais. O IRRITADO, porém, em manifesta falta de respeito pelo grande homem, não perdeu mais tempo com ele e pôs-se a ler um thriller americano muito mais interessante que as ditas verdades.

 

Nenhuma novidade.

O país inteiro sabe que o desemprego está a subir, que a economia está cada vez pior, que a educação anda pelas ruas da amargura, que a ciência está como está, ou seja, mais cara, e que o Passos Coelho pode ter muitos defeitos (o principal é o Bota), mas leviano não é, a não ser que deixe passar o orçamento e não vá a Belém exigir o fim do grande homem em nome do que resta de dignidade nacional.

O país inteiro sabe que, se quiser, é fácil saber a verdade. Basta pegar no que o grande homem diz, virar de pernas para o ar, e aí está. O grande homem, há cinco anos a esta parte, nunca fez outra coisa que não fosse recusar a verdade.

O Presidente da República é o único português que ainda não percebeu. Ou, se percebeu, assobia para o ar.

 

Assim vão as coisas.

Um aldraba.

Outro finge que não percebe.

Outros dedicam-se à nobre tarefa de proteger o aldrabão com poderosas armas e malabarismos alegadamente legais.

 

Se não formos nós, os levianos, a exigir um regresso à seriedade possível, ninguém o fará por nós.

 

22.8.10

 

António Borges de Carvalho

CARTA AO SENHOR PRESIDENTE

 

Senhor Presidente da República, Excelência

 

A generalidade dos pitonisos da nossa praça, à esquerda e à direita, defende que o país está perante um triste dilema.

 

O governo é por todos, expressa ou implicitamente, tido como mau, muito mau. O primeiro-ministro é para todos, está provado, péssimo.

Mas, dados os prazos constitucionais, dizem eles, não é possível haver eleições porque a situação aflitiva em que o país se encontra se não compagina com uma data de meses de poder incerto.

Assim, sendo indispensável, por imperativo de salvação nacional, acabar com o poder canhestro e desonesto que temos, é, por outro lado, impossível pôr-lhe cobro sem altos custos.

 

Isto não é verdade. Havendo vontade política não há nenhum dilema.

Senão, vejamos:

Por um lado, Vossa Excelência, segundo a Constituição que temos, pode dissolver a Assembleia até 9 de Setembro. Repare que, ao contrário do que acontecia no tempo do seu antecessor, Vossa Excelência não dissolve, se dissolver, um Parlamento onde há uma maioria estável e coerente. Por outro lado, também ao contrário do que acontecia no tempo do Dr. Sampaio, Vossa Excelência está perante um governo e uma maioria relativa completamente incoerente, inoperante e deletéria, como factos mais que evidentes têm vindo a provar à saciedade. Isto, Senhor Presidente, para não usar adjectivos que podem ser considerados impróprios, pelo menos nesta sede. Vossa Excelência está perante uma situação desesperada (insustentável, na opinião expressa de Vossa Excelência), está perante a degradação evidente dos pilares do Estado de direito, como a Justiça, a educação, a defesa, etc.

A dissolução do Parlamento, nestas circunstâncias, nada teria a ver com o golpe de estado constitucional perpetrado pelo Dr. Sampaio.

 

Acresce a isto que a questão dos prazos não só é secundária como está mal contada pelos pitonisos.

Não é secundária porque a insustentabilidade da situação não se pode comprazer com a permanência no poder daqueles que a causaram e continuam a causar, tudo se agravando a cada momento que passa.

Não está bem contada porque, se Vossa Excelência acabar com este estado de coisas antes de 9 de Setembro, o país, respeitados os inacreditáveis prazos constitucionais, pode ter novo governo no dia 30 de Outubro (55 dias depois) e pode ter o orçamento aprovado antes do fim do ano. Que mal pode vir daí ao país, que seja pior do mal em que vivemos?

 

Faço-lhe ainda um pedido:

Não deixe Vossa Excelência que os seus interesses pessoais se sobreponham aos da Nação. Isto é, aliás, sua estrita e incontornável obrigação.

Não sei se é ilusão sua ou se é verdade que os seus interesses pessoais são, neste momento, incompatíveis com o bem da República. Presumo, outrossim, que Vossa Excelência perderá mais votos por nada fazer do que por exercer os seus poderes a bem de todos nós.

 

Pense nisto, Senhor Presidente. E, por favor, não nos abandone!       

 

21.8.10

 

António Borges de Carvalho

DONA ROSALINA RESSUSCITOU

 

Dona Rosalina, secretária com quem Lúcio Tomé Feteira tinha relações privilegiadas há muitos anos foi, ao que dizem os jornais, assassinada em Dezembro do ano passado.

 

Em Dezembro do ano passado, a senhora já era quem era, já era herdeira de umas massas do patrão, já estava em conflito com a filha do patrão, já era cliente do Dr. Duarte Lima. Foi assassinada, autopsiada, a sua morte investigada sem que se chegasse a conclusão alguma, etc. Ninguém, ou quase, deu por isso. Veio o Natal, o ano novo, vieram as eleições, as escandaleiras do Vara & Cª, os rabos-de-palha do PM, as eleições, o novo “governo”, o diabo a quatro. Da dona Rosalina nem cheiro, nem sombra, nem nada.

 

Oito meses depois, à mistura com os incêndios, eis que o cadáver da pobre mulher é resgatado das entranhas do desconhecido e a imprensa, a rádio, a televisão, passam a não falar de outra coisa. Quem seria a misteriosa Gisela (não sei se é Gisela, mas tanto faz) que foi ter com a Rosalina e o Lima a uma pensão algures no Brasil? Qual o papel do Lima na pessegada?

A dona Olímpia sai da obscuridade e alastra-se em aleivosias contra a defunta, o Lima e mais não sei quem. E por aí fora. O povo, a Nação, a malta, tudo minha gente a não ouvir falar de outra coisa. Isto para além dos incêndios, das declarações malucas do Pereira, do Viatalino, daquele Drácula das obras públicas e das novas ideias do Passos.

O “fripór”, a Cova da Beira, o Face Oculta, o PGR e seus acólitos (amigos ou inimigos consoante a hora do dia e a direcção do vento), tudo passou à clandestinidade. O senhor Pinto de Sousa desapareceu em combate. Dizem para aí que se vai dedicar, a partir de amanhã, a dizer cobras e lagartos do Passos. Do que interessa, zero.

 

Não é preciso ser adepto da teoria geral da conspiração para, pensando um bocadinho, achar isto muito estranho. Então, enquanto a Pátria se afunda, andamos entretidos com a dona Rosalina?

Porque? Oito meses depois? Assim, sem mais nem menos?

A quem é que isto aproveita?

Cherchez l’homme!

 

21.8.10

 

António Borges de Carvalho

UMA GOTA DE ÁGUA

 

O Drácula das obras públicas veio, finalmente, dar descanso às almas. Segundo inteligentes declarações ontem proferidas, vai haver portagens nas SCUTS “ainda este ano”!

 

As portagens eram urgentes. O PEC assim o determinava. O PEC e, acrescente-se, o bom senso, o sentido de Estado e de responsabilidade política e social, coisas que, como está demonstrado ad nauseam, não estão presentes, nem na cabecinha laroca do Drácula, nem, de longe ou de perto, na do senhor Pinto de Sousa.

Era urgente. Era para Março ou Abril (aliás, já era urgente há uma data de anos). Depois para Maio. Logo a seguir para Junho. Um pouco mais tarde foram anunciadas com parangonas para Julho. Agora, que estamos em Agosto, mês de férias e de (mais) aldrabices, ficamos a saber que tanto pode ser para Setembro como para Outubro, Novembro ou Dezembro.

Até ao fim do ano, o Drácula fica dispensado de fazer mais declarações, não precisa de meter os pés pelas mãos nem de refinar na trampolinice. O ministro que é suposto ser o chefe do Drácula pode continuar escondidinho, evitando dizer mais asneiras. O senhor Pinto de Sousa pode dizer que está tudo previsto e em boa ordem. Os penduras das SCUTS continuarão penduras, agarrados à barriga para não estourar de riso.

 

Entretanto, as facturas das concessionárias já somam 400 mil euros, e ainda estamos em Agosto.

 

É preciso reconhecer que, neste particular, o Drácula e o Pinto de Sousa têm toda a razão: o que são 400 mil euros, ou 800 mil, ou um milhão, ou dez, ou vinte, no buracão?

Uma gota de água, meus amigos, uma desprezível gota de água.

 

21.8.10

 

António Borges de Carvalho

PUTINE CAIPIRA

O camarada Luís Inácio da Silva, dito Lula, figura de proa dos países emergentes - entendendo-se por emergentes os que, além de emergir, causam emergências noutros sítios – anda numa fona.

 

Comecemos por lhe tirar o chapéu. Contra todas as expectativas, Lula foi um grande Presidente, sobretudo porque foi capaz de dar cobertura de esquerda às políticas do seu antecessor. Como as políticas de Fernando Henrique Cardoso eram boas, deram óptimos resultados. Lula capitalizou.

Em fim de festa, Lula ultrapassou todos os limiares de Peter ao convencer-se que tinha passado a ser um actor da cena internacional. Não se limitando ao que a emergência própria poderia potenciar, trilhou caminhos perigosos, fez amizade com o Amadinejá e o Chávez, contribuiu para a desestabilização da Turquia, diabolizou os EUA, etc.

É pena que o sucesso lhe tenha subido à cabeça de forma tão canhestra.

 

Agora que está, ou devia estar, em vias de ir para casa, resolveu transformar-se numa espécie de Putine da América do Sul. Arranjou uma candidata a sucessora que vai ser eleita, e prepara-se para ficar atrás dela a controlar as coisas, como o Putine faz com o Medvedev. Cada um tem o palhaço que merece. Espera-se que a dona Selma seja tão mansa como o Medvedev, sem ser bêbeda.

Lula desdobra-se em diligências para apoiar a sua candidata, diz que vai andar pelo país à cata de oportunidades e que vai obrigar a mulher a continuar o trabalho dele e a fazer o que ele não conseguiu, seja lá isso o que for.

Ou seja, o Lula quer continuar no poder sem continuar no poder. Nos brasis não há, como na Rússia, primeiro-ministro, Lula prepara-se para, informalmente, continuar a mandar. Não se sabe é se a dona Telma, depois de se sentar no trono imperial, estará pelos ajustes. Só o futuro o dirá.

Os ex-presidentes, nos países civilizados, costumam dedicar-se a fazer conferências, ou a tratar de bibliotecas, ou de fundações (olhem o Dr. Mário Soares, olhem, noutro nível, o Clinton), ou arranjam um tacho internacional (olhem o Sampaio).

Lula, reconheça-se, dificilmente pode ser imaginado a fazer conferências ou a tratar de bibliotecas, ou a desempenhar cargos na ONU. Talvez por isso, não se reforma. Continua, através da dona Gelma, a dominar as artes.

 

Se o tiro lhe sair pela culatra, o problema é dele.

 

21.8.10

 

António Borges de Carvalho

DOUTORES DA TRETA

 

Um tal Fernandes, figura de proa da organização de vendas por correspondência que se chama DECO, veio à estampa queixar-se dos bancos.

Estou com ele. Razões de queixa dos bancos não me faltam.

 

O problema é que a principal fonte de desagrado do homem é o facto de os bancos, passo a citar, encontrarem formas convenientes de interpretar a lei. Não se trata propriamente de a contornar mas de ajustar o conteúdo da legislação aos seus próprios interesses, minimizando os danos que a mesma lhes poderia causar.

Ocorre perguntar ao Fernandes que mal há nisso. Será que ele, quando declara os impostos, usa a maneira mais gravosa para si próprio de o fazer? Será que é moralmente condenável ou ilegal que, seja quem for, procure encontrar, sem fugir à lei, a resultados fiscais que lhe sejam o mais favoráveis possível?

Repare-se que o homem não acusa os bancos de não cumprir a lei, mas sim de, respeitando-a, o fazer da forma que lhes seja mais conveniente. Se a lei tem alçapões ou equivalente, então é a lei que está errada, não quem os utiliza.

 

O IRRITADO deseja ardentemente que o senhor Fernandes, em vez de criticar quem actua nos termos da lei, se dedique a criticar a própria lei e a contribuir para que seja mais clara.

 

Se o não fizer, vá pentear macacos. De bocas estamos fartos.

 

 21.8.10

 

António Borges de Carvalho

INCURSÃO BOLIVIANA

 

Na Bolívia impera um índio que, para além de outros profundos pensamentos, foi capaz de, cientificamente, concluir que o número de deficientes sexuais, vulgo maricas, cresce na razão directa do consumo de frangos de aviário.

O IRRITADO já se referiu a esta douta asserção. Quando se fala deste poderoso senhor, vale sempre a pena repeti-la a fim de posicionar os leitores de forma a melhor apreciar a qualidade intelectual do fulano.

 

O senhor Morales:

- É, a título pessoal, cultivador de folha de coca;

- É presidente, há vinte anos, da associação da união dos sindicatos de cultivadores de coca do Chaparé;

- Na constituição que fabricou, o cultivo (tradicional!), pelos índios, da folha de coca foi classificado como património cultural da nação;

- Na mesma constituição, o senhor Morales criou o estado plurinacional da Bolívia, não porque haja duas nações, mas porque institui o “apartheid” entre índios e brancos;

- Instituiu a cultura “oficial” de coca em 12.000 hectares;

- Fechou os olhos ao aumento “ilegal” desta área, que hoje cobre cerca de 39.000 hectares;

- Transformou a Bolívia no terceiro maior produtor mundial da folha de coca;

- Expulsou a agência americana para a luta contra o tráfico de droga;

- Deixou que se instalassem no país cartéis de droga mexicanos e brasileiros.

 

Posto isto, o senhor Morales, em mais uma manifestação dos seus altos critérios intelectuais e políticos, exprimiu este fabuloso pensamento: “dei-me conta que o narcotráfico não é assim tão pequeno. (…) É uma enorme delinquência.”

Posto isto, o senhor Morales encarregou a Miss Bolívia de chefiar a luta contra o tráfico de droga.

 

A comunidade internacional pode ficar descansada. O presidente Morales, assessorado pela Miss, vai, com certeza, ser um dos mais fiáveis lutadores contra o comércio de cocaína, comércio para o qual o seu país contribui, por ano, com cerca de 500 milhões de dólares.

 

Se o nosso governo quiser aprofundar e alargar o seu leque de relações internacionais privilegiadas, aí tem um homem que, na senda do amigo Chávez, pode proporcionar um relacionamento sério, prestigiante e proveitoso. Para além, é claro, de um bom mercado para a expansão do “Magalhães”.

 

19.8.10

 

António Borges de Carvalho

VERDADEIRAS MENTIRAS

Cumprindo com rigor os ditames da filosofia oficial do governo, o ministro dos incêndios tem-se desdobrado em declarações de optimismo. Afinal, na opinião abalizada do senhor, os fogos, no tempo dos governos PSD/CDS, eram muito piores do que agora.

Só lhe falta dizer que estamos perante umas fogueiritas sem importância, a que as hostes de bombeiros, tornadas socialistas, põem termo em três tempos.

 

Na mesma senda, o notável senhor Valter (não, não é brasileiro), muito conhecido pelos chorrilhos de disparates com que brindou a Pátria quando era secretário da dona Lurdes (a da inducação), veio à liça, desta vez com o chapéu do “emprego”, afirmar que as “medidas – as inteligentíssimas medidas do governo – foram acertadas, produziram efeitos, e o crescimento económico ajudou… é a maior queda dos últimos anos de taxa de desemprego entre jovens”.

A que propósito disse o senhor Valter estas coisas?

A propósito de dados oficiais vindos a público, que confirmam o que toda a gente intui: há dez anos havia, em relação a 2010, o dobro do número de jovens empregados, isto sem que o número de estudantes tenha aumentado. Acresce que está provado que as camadas jovens, em termos de emprego, nunca estiveram tão mal.

Como é possível que um tipo, seja ele quem for, mas por maioria de razão sendo do governo, diga as parvoíces que diz?

Segundo os ditos números, as 590 mil pessoas no desemprego, mais 16% que há um ano, são menos duas mil que no primeiro trimestre deste (0,338%!).

O desemprego total mantém-se estável -10,6%, o que deve ser também uma notícia de arromba para o governo.

Diga-se ainda (esta é dedicada ao ministro dos incêndios) que a subida da taxa de desemprego, se disparou a partir de 2008 e já vinha a crescer sem parar desde 2003, se acentuou fortemente a partir de 2005 (sem ter nada a ver com a crise externa), ou seja, desde que esta gente tomou o poder.

 

Donde se conclui:

a)   Que, aconteça o que acontecer, o governo tem sempre uma aldrabice na ponta da língua para dizer que aconteceu o contrário;

b)   Que aos senhores Barroso e Santana Lopes não pode deixar de se aplicar o velho adágio: “depois de mim virá quem de mim bom fará”.

 

 

18.8.10

 

António Borges de Carvalho

NOTÍCIAS DO AMIGO BANANA

 

Nos últimos dias soube-se uma série de coisas que toda a gente já sabia mas que convém repetir para ter uma noção geral do que se vai passando:

 

- Os professores receberam 10 milhões de euros a mais. O ministério das finanças acusa, o ministério da educação desmente.

- Os professores, depois de uma guerra em que o ministério foi vencido em toda a linha, já tinham garantido 400 milhões a mais, não se sabendo se os 10 milhões supra são ou não parte dos 400.

- A despesa do Estado, só nos primeiros seis meses, derrapou quase 5% em relação ao orçamento – uns milhares de milhões.

- A ADSE recebe de funcionários e pensionistas, mas não paga às farmacêuticas. A dívida vai em 600 milhões e, até ao fim do ano, subirá para 1.000 milhões.

- A ADSE pagava a um ano, mas já se deixou disso.

- Os empreiteiros da SCUTS reclamam o que lhes é devido.

- A dívida externa cresce 3 milhões à hora.

- As exportações subiram mas as importações subiram mais, agravando-se o desequilíbrio da balança comercial.

- Portugal é o terceiro a contar do fim – em 27 - no que respeita ao crescimento.

 

Posto isto, o primeiro-ministro diz que estamos a crescer como uns heróis, que não há problemas de maior e que os 18 milhões, a acrescentar a muitos outros já enterrados nos bonecos de Foz-Coa, são uma coisa de que nos devemos orgulhar.

Posto isto, o Dr. Passos Coelho parece que vai deixar passar o orçamento, dando mostras de ser o único português que ainda é capaz de dar ao governo o benefício da dúvida.

Posto isto, o Professor Cavaco contempla, prenhe de amor, os progressos da Nação, e recusa-se a tomar uma atitude, não vá tal atitude prejudicar a sua reeleição.

 

Que chamar a isto tudo? Ocorre-me uma série de adjectivos, que não exprimo por patriotismo. Mas não tenho dúvidas que uns fogem para a frente, outros para trás, outros fingem que não vêem, e todos eles assobiam de satisfeitos e debitam bocas sem sentido.

  

17.8.10

 

António Borges de Carvalho

LÁ E CÁ

 

Há mais de vinte anos, apareceu em São Tomé, triunfal, , o Professor Marcelo, emérito intriguista da praça de Lisboa.

 

Perguntar-se-á porquê. Expliquemos.

O à altura Presidente da República local, senhor Pinto da Costa (nada a ver com o do fêcêpê), tinha resolvido mandar o marxismo-leninismo às urtigas e “ocidentalizar-se”.

Começou por transformar o seu partido, o MLSTP, em PSD, ficando a nova sigla a seguir à histórica: MLSTP-PSD.

Depois, percebeu que precisava de uma nova constituição. Pensou, pensou, e concluiu que nada melhor que chamar o famoso professor para tal efeito.

Ora o professor sabia a potes de constituições, mas não percebia nada de áfricas. Na linha do guru constitucional do seu tempo, o famoso Maurice Duverger, Marcelo gerou uma constituição semi-presidencialista, como não podia deixar de ser.

A partir daí, como era fácil de prever, nunca mais houve descanso político nas verdes ilhas do golfo da Guiné. O “Mais Velho” perdeu poder e o que perdeu foi entregue a um saco de gatos, partidos feitos à pressa, com líderes por demais ambiciosos ou por demais incompetentes, ou as duas coisas.

Naquelas terras, como na generalidade dos países da região, tem que haver um “mais velho”, de autoridade indiscutível, mesmo que eleito e com mandatos limitados. Se não, não funciona.

O Presidente vai fazendo pela vida, mas não é carne nem peixe nem antes pelo contrário. Como por cá, quase sem tirar nem pôr.

Apesar de tudo, parece que São Tomé ainda tem lições para dar à antiga metrópole. Lá como cá, as recentes eleições não deram maioria absoluta a ninguém. Mas lá, ao contrário de cá, o partido mais votado anda à procura de parceiro para formar governo. Lá, ao contrário de cá, parece que a “estabilidade” governativa não é a patacoada de que falam o nosso Presidente e o nosso primeiro-ministro. Lá, ao contrário de cá, o Presidente e o chefe do partido mais votado procuram uma solução com pés para andar. Não quer dizer que ande.

Mas, pelo menos neste aspecto, os pobres dos santomenses dão-nos lições de “governança”.

  

15.8.10

 

António Borges de Carvalho

VOSSA EXCELÊNCIA DESEJA?

 

Os jornais noticiam que os partidos estão à espera de saber o que quer o PGR.

 

Sua Excelência passa a vida a dizer-se e a desdizer-se, dá-se ao luxo de fazer despachos secretos e, mesmo assim, por causa das moscas, destrui-los, manda queimar materiais que colegas seus achavam importantíssimos, sonega elementos de altíssimo interesse público, apoia uma número dois que é uma autêntica fábrica de asneiras, mete-se com a Rainha de Inglaterra (pobre Senhora!), passa a vida a tratar de “safar” o senhor Pinto de Sousa das mais diversas enrascadas…

Enfim, à excepção do PS, et pour cause, e do PR, vá lá imaginar-se porquê, trata-se de um fulano universalmente tido por incompetente, incapaz de ter mão nos subordinados, que diz hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, que contribui activamente para o descrédito da Justiça, que, que, que…

 

É, por tudo isto e muito mais, digna de nota a preocupação dos partidos com o que Sua Excelência deseja. A partir de uma intervenção pública em que se dizia sem poder para actuar, além de outras patacoadas, os comentadores e os partidos entraram num frenesi teórico sobre o que pode e o que não pode, como é nomeado ou deveria ser, se é bom ou mau ser independente, e assim por diante.

Os partidos políticos, em vez de votar as queixinhas de Sua Excelência a um bem merecido desprezo, acordaram para um problema que não existe, ou não existe por causa desta excelência, e andam à nora para saber o que Sua Excelência deseja.

 

Há assuntos que não se tratam, ou não se deviam tratar sob pressão, muito menos sob pressões patéticas, para não dizer idiotas ou ridículas como as do Dr. Pinto Monteiro. Senhor que, se a República ainda tivesse alguma dignidade, já teria sido aconselhado a ir para casa gozar de merecida reforma. Que diabo, reforma-se tanta gente que ainda podia ser útil, porque não este senhor, que de útil nada tem?   

 

14.8.10

 

António Borges de Carvalho

A MORAL REPUBLICANA EM ACÇÃO

 

O espectáculo circense oferecido ao povo pelo camarada Narciso Miranda é coisa de fazer rir as pedras. Não que se perceba o que o homem diz, tais as piruetas, os triplos mortais de costas, o cerebrozinho a espumar aleivosias e acusações, mas porque nem patético consegue ser, só cómico.

O fulano foi expulso do PS mercê da altíssima autoridade do chefe supremo. O senhor Pinto de Sousa, como já não manda no governo nem em coisa que se veja, resolveu virar as matracas para dentro e fazer sangue nas hostes. Diga-se que, por uma vez, com toda a razão. Um bando de traidores resolveu candidatar-se por fora do partido e contra o partido. É assim como se um tipo do Benfica desatasse a aplaudir os golos do Sporting no meio dos “No name boys”. Compreender-se-ia a justa fúria das massas, se linchassem o canalha.

Até aqui tudo bem. Traiu, lixou-se. Certo.

 

O pior é essa chatice da coerência.

Se estão bem lembrados, o camarada Alegre, justamente célebre pelas suas intervenções radiofónicas em Argel, cometeu exactamente o mesmo crime, mas com agravantes de alto coturno. Candidatou-se à Presidência da República não só contra o PS mas também contra o símbolo máximo da moral republicana, o intocável Mário Soares, há décadas canonizado pelas hostes.

Seguindo a lógica republicana aplicada ao Narciso, o Alegre devia ter sido não só expulso como condenado na praça pública, torturado, lapidado, cremado, deitadas à estrumeira as suas malvadas cinzas. Traição maior não pode haver!

E, no entanto, sob proposta do camarada Louça, o Alegre é agora candidato do PS às presidenciais!

 

Quem põe em risco a gloriosa caminhada do PS em Matosinhos, ou Paranhos, ou lá onde foi, é expulso.

Quem concorre contra o PS à “mais alta magistratura da Nação” - como diria o Salazar - não só não é corrido como se torna, com honras de fanfarra, o representante máximo da organização.

 

Isto merece uma reflexão sobre a verdadeira moral do PS, ou seja, a moral republicana, tão do gosto do golpista Sampaio, do colunista Soares e da generalidade dos camaradas e dos filhos da viúva.

Quando a ofensa não faz mossa, isto é, se passa em Matosinhos, ou Paranhos, ou lá onde foi, a dita moral cai a quatro patas em cima do criminoso. Quando, pelo contrário, o reprovável cavalheiro causa estragos de monta, a moral republicana respeita-o e ergue-o aos mais altos píncaros.

 

Nem há moral nem comem todos, dirá quem isto ler.

 

Não é verdade. Há moral, sim senhor. E da boa. Da republicana. Código tanto mais respeitável quanto se rege pelas conveniências de cada momento, se adapta pragmaticamente a cada caso e tem em atenção, acima de tudo, a “categoria” dos que se julga.

Honroso princípio este, aliás cirurgicamente aplicado por inúmeras autoridades deste país, sempre mais atentas à pessoa do suspeito que àquilo de que suspeito é.     

 

14.8.10

 

António Borges de Carvalho

HONI SOIT

Os observadores, comentadores, palradores, locutores, doutores, professores, comendadores, sabichões de várias sabedorias, politólogos de desvairadas partes, psicólogos, astrólogos, futurólogos, bombeiros, engenheiros, autarcas e patriarcas,

todos

se desdobram em teorias, fantasias, alegorias, explicações, opiniões, cogitações, palpites e bitates

sobre

quem serão os beneficiários dos incêndios que, em 2010 como em 2009, 2008… 1994… 1852, etc., devastam o país e põem em risco vidas e bens de tantos portugueses.

Quem lucra? Diz quem diz saber que são os promotores que querem urbanizar milhares de hectares, os madeireiros que querem comprar barato, os fabricantes de andaimes, os maluquinhos, os que, quais neros do quinto esquerdo, gozam com o crepitar das chamas, os carecas que não percebem porque é que as montanhas não hão-de ser carecas também, as criancinhas que brincam com fósforos, as alterações climáticas, o aquecimento global, o CO2… tudo minha gente lucra com os incêndios.

 

O IRRITADO, observador impenitente da vida política, avança uma evidência de que os abalizados senhores ainda se não lembraram: quem mais tem lucrado com a coisa é o senhor Pinto de Sousa.

Nada de brincadeiras. É assim mesmo.

Senão, reparem: há uma semana, pelo menos, que não se ouve falar do “fripór”, nem da face oculta, nem de nenhum dos inúmeros rabos-de-palha do senhor. É, ou não, uma maravilha? A central de informações do governo deve estar embandeirada em arco.

Mais. À boleia do senhor PR (que também acordou tarde, como de costume), o senhor Pinto de Sousa vai prodigalizar visitas de solidariedade, de compreensão e de estima aos prejudicados, aos bombeiros, aos autarcas e demais pobres gentes, aproveitando para anunciar cinquenta e dois programas e iniciativas que jamais terão outro efeito que os do dito anúncio.

É de estalo ou não?

Donde se prova, como diz o povo, que há males que vêm por bem. Ou que, diz o IRRITADO, o diabo escreve torto por linhas direitas.  

 

Para os mais desconfiados, o IRRITADO faz uma declaração solene: lá por achar que o senhor Pinto de Sousa está a lucrar com os incêndios, que ninguém sonhe que o IRRITADO o acusa de os ter ateado. Ele gosta muito de atear, mas, até ver, ainda não chegou a este preparo.

 

Honi soit qui mal y pense, como diria o Dr. Pinto Monteiro, coitado, armado em Rainha de Inglaterra.

 

13.8.10

 

António Borges de Carvalho

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