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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

FILOSOFIA TRIUNFANTE

Vivemos na terra dos documentos. Há documentos para tudo,estudos, estatísticas, gráficos, abaixo assinados, sei lá. Deve ser a batalha da produção de que tanto falava o saudoso Vasco Gonçalves.

No que respeita ao PS, a produção documental tem uma boa tradição, isto é, todos os documentos vão a galope para a lixeira. Ele foi o documento dos macro-economistas, onde tudo sem excepção estava errado mas que serviu para a propaganda. Lixo. Ele foi o seu filho, o programa do PS, esse nem para a propaganda serviu, só para perder as eleições. Lixo. Ele foi o programa de governo, coisa rigorosamente incumprida. Lixo.

Agora, é ainda mais engraçado. Sob a alta direcção do careca do BE e daquele tipo do PS que dizia que a dívida não era para pagar e que prometia pôr a Merkel de joelhos, reuniu uma comissão de sábios do PS e do BE a fim de dar à luz um novo documento. E deu mesmo, honrando gloriosas tradições.

No ridente dia da publicação do escrito, vieram as reacções, antes de mais das organizações envolvidas em tão importante realização. O bloco veio dizer que não se compromete com a coisa. O PS diz que não assina, o grupo parlamentar do PS afirma não sabe de nada nem tem nada com isso, o governo do PS não assume e promete esconder a coisa de instâncias externas. Três pêesses num só, qual mistério da Santíssima Trindade. Desta feita, antes de a coisa ir para o lixo, já os seus autores previnem o futuro. Compreensível cautela. Vê-se que já comprenderam alguma coisa.

É claro que o papel é um conjunto de inanidades destinado a vir a justificar tudo e o seu contrário. Só falta tirar conclusões, tais como: o Schäuble afinal é um gajo porreiro, a austeridade é progressista, a dívida não se pode pagar mas esperemos pelas eleições alemãs a ver se nos safamos, e mais isto e mais aquilo. O BE a dar uma de moderado, a fim de preparar os uns lugarzinhos no futuro governo do PS. O PS a mostrar-se bom aluno da Europa, no fundo a confessar que quem tem razão é, sempre foi, o PSD.

Se lermos todas as linhas, quais as novidades? Só uma: o saque dos dinheiros que o Banco de Portugal ainda vai tendo, a fim de segurar o défice de 2017. O resto é conversa para pacóvio ouvir.

A nossa querida crise bancária teve várias origens: por um lado, fraude, má gestão e trafulhice; por outro – casos do BCP e da Caixa - o PS. Pinto de Sousa, engenheiro Sócrates para os amigos, tratou da saúde à Caixa e deu cabo do BCP, Costa tem feito o que pode para rebentar com aquela, este vai-se safando enquanto o Costa não se meter no assunto.

O tiro agora é no Banco de Portugal, instituição que, apesar de tudo, dada a sua independência se tem mantido à tona. O “grupo de trabalho” do PS e do BE tratou de abrir a porta. O PS não assinou mas já mandou o aparatchik Galamba explicar ao povo que o Banco de Portugal é independente mas pouco e que o Centeno tem todo o direito a ir lá sacar o que for preciso para poder deitar foguetes acerca do défice. A “operação” vai sendo preparada na opinião pública, fazendo o seu caminho, até que haja muito quem ache bem. Pobre Banco de Portugal!

As esquerdoidas constroem o seu futuro lá dentro. Cá por fora, continuarão na calma, a dizer as suas irresponsáveis bojardas. O PC reserva-se: diz que a migalha não é papo-seco: mas come-a.

A oposição, leia-se, o PSD, vai chamando as hostes à razão, insistindo em não denunciar que, no Portugal dos nossos dias, o poder é o poder, tendencialmente total, e que quem não estiver com o poder leva. Não é esta a filosofia triunfante?

 

29.4.17      

O ALVOROÇO DE ALMARAZ

A construção de um armazém na central nuclear de Almaraz pôs em alvoroço os alvoroçados do costume, malta que vive de “causas” as mais das vezes completamente idiotas. Num arranque de patrioteirismo, o chamao ministro do ambiente alvoroçou-se também. Vai daí, impante, o geringoncial Estado da mesma sorte se alvoroçou. Mandou uns alvoroçados técnicos a Alamaraz, os quais foram deixados à porta e mandados chatear outro.

Alvoroçadíssimo, o orgulhoso poder nacional foi fazer queixinhas a Bruxelas. Bruxelas, paternalisticamente, disse-lhes que tivessem calma e deitassem fora a queixa. Daí, lá foi um magote de geringonçais protestantes, com ministros e tudo, a Madrid, onde lhe disseram que, sim senhor, somos todos uns gajos porreiros, mas o armazém vai construir-se na mesma. A missão voltou com o rabo entre as pernas e, patrioticamente, mandou fazer um “estudo”.  Veio o estudo. O estudo concluiu que, afinal, o tal armazém não faz mal a ninguém. Pelo contrário.

Resultado, o alvoroço pariu um estudo. Está tudo nos conformes.

Se calhar, devia ter-se começado pelo tal estudo, em substituição do alvoroço. Mas isso não está no espírito da geringonça, coisa onde a inteligência parece ter metido licença sem prazo nem vencimento.

  

28.4.17

VILEZAS

Com a pompa e a circunstância que a propaganda impõe e a ausência de bestunto anima, o governo da geringonça reuniu em Peniche, com mediático folclore, a fim de comunicar à Nação a sua decisão de dar o dito por não dito em relação à construção de um hotel nas instalações do forte local. Por outras palavras, o chamado governo resolveu ceder a instâncias, ou exigências, do seu parceiro bolchevista, passando o tal hotel a constituir uma nova sede de propaganda do PC, paga pelo Estado e mascarada de museu de homenagem aos prisioneiros da segunda república, “lutadores da liberdade”.

Sim senhor, eu compreendo que muitos de tais prisioneiros tenham sacrificado anos de vida encerrados nos muros do forte. Compreendo até que, muitos deles, tivessem a convicção, ou a ilusão, de que estavam a lutar pela liberdade. A título pessoal será possível tirar-lhes o chapéu. No entanto, como os seus dirigentes, ou comandantes, onde avulta o nome desse tarado que se chamava Álvaro Cunhal, sabiam perfeitamente, não estavam a lutar por liberdade nenhuma, mas sim pela implantação de uma ditadura perante a qual a da segunda república pareceria um regime libertário ou um clube de meninos do coro. Se o sacrifício de alguns (os enganados pela propaganda soviética) pode merecer respeito, as intenções da organização que os enquadrava não merece respeito nenhum, ainda menos merece investimento estatal comemorativo e, como é evidente, tão ruinoso como os bonecos de Foz Coa ou as autoestradas do Pinto de Sousa.

Num momento em que Mário Soares é posto nos altares da democracia (não nego que o possa merecer), bem se podia esta gente lembrar que foi Mário Soares quem, em 1969 (CEUD), afastou a oposição democrática da que o não era, separando as águas entre os que queriam democratizar o país à moda da Europa Ocidental e os que o queriam entregar às mãos de quem lhes pagava e neles mandava, a URSS. O mesmo Mário Soares que, depois do golpe de Abril, soube resistir à pressão soviética que se abateu sobre nós e, mais uma vez, voltou a dividir as forças políticas entre democráticas (PS, PSD, CDS, PPM) e não democráticas (PC e outras esquerdices). Com o advento da geringonça, esse Soares foi esquecido e abandonado, pelo menos no que respeita à sua posição de “separador de águas”.     

Voltando à minha democrática compreensão, direi que compreenderia que, na memória descritiva do hotel viesse a constar a história do edifício, com referência à utilização que lhe foi dada pela segunda república. E até aceitaria que, num canto significativo, fosse instalada uma memória do assunto, contrastando os novos quartos com as antigas celas.

Mais um elefante branco, por um lado, e uma custosa publicidade pública ao PC, repetindo a mentira da uma luta pela liberdade que jamais existiu ou existe e, por outro, o foguetório da geringonça para incensar a sua derrota perante o aliado.

Uma tristeza, uma incoerência, mais uma demonstração de como se pode aviltar as ideias e mandar a verdade de férias.

 

28.4.17

OS MESMOS NA MESMA

 

Tal como o IRRITADO previu aqui há dias, o maoista Melenchon, menino bonito do BE e do PC, aconselhou a abstenção, o voto nulo ou o voto em branco aos seus eleitores. Por cá, o trotskista Louçã, por outras palvras, fez a mesma coisa. O PC e o BE também já manifestaram o seu horror ao Macron.

A extrema esquerda prefere o nacionalismo, o isolacionismo, à liberdade individual, ao sufrágio universal, à demoracia liberal, à independência da Justiça. São estes os grandes inimigos da extrema esquerda. Antes uma ditadura, mesmo que fascista.  E não tem pejo em afirmá-lo.

Tenho passado a vida a dizer isto. Sempre foi assim. O PC, que era o que existia no “ramo” antes do surgimento do BE, nunca, durante a segunda república, deixou de lançar o seu anátema sobre qualquer tentativa de liberalização do regime, a todas apelidou de “golpe da burguesia” ou coisas ainda mais estúpidas, se é que as não denunciou à PIDE. O PC era, ao tempo, a outra face da moeda da PIDE. Justificavam-se um ao outro, existiam um para o outro. Na alvorada da terceira república, sabe-se o que aconteceu, estivemos à beira de uma ditadura bolchevista, fruto da associação do PC com um bando de militares ignorantes e sedentos de poder. Só não levaram a sua avante porque, entregues as colónias à URSS, esta lhes deu ordem para parar antes que estalasse uma guerra civil que, por razões estratágicas, não convinha ao Kremlin.

Os tempos mudaram. De fachada, o PC e o BE adaptaram-se à democracia. No fundo, estão na mesma, são o que sempre foram e sempre serão, como a sua posição em relação às eleições francesas demonstra à saciedade. Mas, ao contrário do que se passa no resto da Europa, foram levados ao poder pelo oportunismo, a ambição, a desonestidade intelectual e a moral republicana do homem que envileceu o PS: António Costa.

Uma diferença que não é dispicienda e que nos vai custar muita massa, se não algo mais do que isso.   

 

27.4.17

PRINCÍPIO DE PETER?

 

O nosso admirável Presidente informou as gentes sobre a feliz não existência de populismos em Portugal. É estranho que a alta inteligência que lhe é reconhecida não chegue para descobrir os populismos que por cá medram e que, pior do que nos países que os têm, estão no poder.

Então dizer que os tratados não são para cumprir, anunciar que, se sairmos do euro, vai ser uma maravilha, querer renegociar a dívida de qualquer maneira, defender que se deve aumentá-la para dar mais dinheiro às clientelas, achar que devemos sair da NATO e da UE, prometer que todas estas formidáveis propostas são garantia de progresso económico e social, não condenar a Coreia do Norte, ser amigo do Maduro, do Castro, do Iglésias, do Melenchon, votar no parlamento europeu, sistematicamente, lado a lado com a Marine, tudo isto, e muito mais, não é populismo? Lá fora, se excluirmos o Trump, não há populismos no poder. Por cá, é o que se vê.

O senhor Presidente não dá por isso? Não é capaz de ver onde estamos a ser conduzidos? É um caso de princípio de Peter? Ou o emprego como chaiman da geringonça tem uma descrição de funções que o obriga a fechar os olhos?

 

26.5.17

GATOS ESCONDIDOS

Iguais a si próprios, o PC e o BE não aconselham os franceses a votar Macron. O “povo francês decidirá”, diz o PC. O BE é mais afinado: depois de ter andado a fazer rapapés ao Melanchon, com presença nas festividades promovidas pelo comuna mascarado de ecologista (por cá também temos disto, não é, ó Heloisa?), acham que “os eleitores de esquerda saberão contribuir para afastar a Marine”.

Os gatos estão escondidos, mas os rabiosques estão de fora. Os tipos do PC, lá no fundo, não se opõem à fulana, e até lhes foge a boca para a verdade. Os do BE deixam a coisa em aberto, mascarando a preferência por uma abstenção em massa, que faça eleger Marine, a sua tão amada associada no Parlamento Europeu. Dona Matias que o diga!

Um e outro, o que gostariam de dizer é que, entre um europeista democrata e um populista demagogo, de esquerda ou de direita, preferem o populista. Isolacionistas, soberanistas, nacionalistas, tudo é preferível ao Macron. Democratas é que não, já que os democratas europeus têm a mania de não ir na conversa do socialismo.

 

25.4.17

O 25 CANINO

 

Dizem as notícias (última hora!) que uma criança de quatro anos foi gravemente ferida e desfigurada por um cão, o qual atacou mais pessoas, mas sem gravidade. O dono pegou no simpático animalzinho, buche buche, e foi para casa com ele.

Trata-se de um fenómeno “sistémico”. De vez em quando, uma destas criaturas de estimação come uma velhinha, estraçalha uma menina ou, mais moderadamente, come a barriga da perna de um passante. Uma questão recorrente, sobre a qual o IRRITADO já teve a honra de se debruçar.

Espera-se a todo o momento a reacção do deputado do PAN, que deve estar em casa a preparar a justa defesa do pobre animal, vítima primeira da maldade humana dos que se lhe saltam ao caminho. É que, na defesa da biodiversidade, dos “direitos” dos animais e da saúde do planeta, há que preservar as características das raças, pondo-as a salvo da crueldade humana. O simples facto de comer criancinhas não constitui crime nenhum, sendo, como é, um simples e inocente ditame da Natureza, que é o que importa conservar a todo o custo. Assim, se o fugitivo proprietário do animalzinho, dada a iniquidade da lei, deve ser castigado, o lulu deverá ser levado a cobrir várias cadelas, a fim de dar continuidade à respectiva raça ou, melhor dizendo, etnia. A mãe Natureza agradece.

 

25.4.17   

VERDADINHAS

 

Nas notícias “autênticas” e “verdadeiras” está definitivamente estabelecido que, nas eleições francesas, tanto a direita tradicional, gaulista, republicana, conservadora, como a esquerda moderada, socialista, social-democrata, desapareceram do mapa.

Vistas as coisas com olhos de ver - não como faz a “informação” -,  o PSF teve, de facto, um pré-desaparecimento (6%!). Não foi o que aconteceu com os conservadores (20%). Aliás, destes, quem ficou para trás foi o candidato, não a opinião conservadora. Fillon foi vítima de si próprio e dos trombones eleitorais que o acusaram de compadrio familiar. Tudo indica que as acusações procedem, mas o “pecado” só o é para o efeito eleitoral que, de facto, teve. É que há uma verdade republicana e socialista que ficou na sombra.

A Republique é, sempre foi, com conhecimento e aval do eleitorado, aval que conheceu um hiato com Fillon, uma fábrica de privilégios que, entre nós e na modernidade em geral, são considerados vis, mas que, em França, sempre se praticaram e praticam normalmente, ou impunemente, se quiserem. Fillon, ao dar empregos públicos à família, mais não fez que que o que todos, em França, fazem há séculos das mais variadas formas, pelo menos desde que as elites republicanas se substituíram à aristocracia do ancien régime, cujo sang, ainda hoje, mui republicanamente, se canta dever ser versé dans les sillons.

Não fora a vigente “transparência”, a direita conservadora teria eleito o seu candidato. É, pelo menos, o que dizem os números.

Uma coisa são os números, outra o politicamente correcto. E o que o politicamente correcto diz é que a hecatombe (!?) conservadora foi igual à socialista. Não é só o Trump a fabricar verdades alternativas.

 

24.4.17

DELENDUS EST PASSOS

É muito interessante ver o empenho e o carinho com que variegadas gentes se acotovelam para lançar o pobre do Montenegro às canelas do chefe.

O chefe da matilha foi o primeiro a pronunciar-se. Lançou a cortiça às ondas, a cortiça continua a boiar. Uns percebem, outros aproveitam, a maioria, com falhas de memória, ainda não percebeu.

O lançamento do Montenegro foi, como o de muitos outros ao longo do tempo, uma rasteira “científica” do pai de rasteiras que dá pelo nome de Marcelo Rebelo de Sousa. Há quem não se lembre de tantos outros que, via elogios, foram atirados à fogueira nos tempos em que ele era director do “Expresso”, ideólogo do “Semanário”, ministro da Presidência..., quantas vítimas fez com certeiras bocas, quantos deixou cair depois de os ter posto nos píncaros.

Montenegro, jovem inteligente mas suficientemente provinciano para não estar a par dos truques urbanos, verá o que se passa? Acho pouco provável. Verá que mais esta inocente e simpática iniciativa do maquiavelzinho de Cascais, ora altamente investido, se destina, primo, a lançar a cizânia entre Passos e um dos seus mais próximos colaboradores, secundo, a lançar às feras um possível opositor ao seu presidencial estilo. Dois coelhos de uma cajadada.

Marcelo lançou a casca de banana. Servil, a matilha colabora. Artigos no jornal, opiniões aos montes, prós e contras, não há quem não participe. Relvas, vingativo e burro, aparece de repente a dar ao Presidente a sua prestimosa colaboração. Sugere-se por aí que se devia fazer a Passos Coelho o mesmo que o Costa fez ao Seguro. Vale tudo, até repetir a rendosa palhaçada. As manuelas, os riachos, os pachecos, os mauros et alia, rejubilam. Há quem se faça à oportunidade e quem espere na sombra. Já se viu disto muitas vezes. Do escuro, saem os júdices, ferozes apoiantes do Costa, a aproveitar a oportunidade.

Montenegro que se ponha a pau. Que perceba que está a ser instrumento, que investigue quantos já cairam, vítimas dos elogios de Marcelo. Perceberá? Duvido.

 

23.4.17    

CAIR EM GRAÇA

 

Um dos mais interessantes fenómenos que a geringonça originou foi o do fim da emigração. No tempo do governo legítimo, qualquer enfermeira que embarcasse para o Reino Unido era entrevistada pelas televisões, dava lugar a debates parlamentares, a oposição ribombava indignações, havia protestos na rua. A baixa do desemprego era atribuída à emigração em massa, era tudo culpa do governo, os baixos salários, a drenagem de cérebros, o raio.

Hoje, ninguém vai ao aeroporto filmar despedidas, abraços e lacrimejantes beijinhos, os jornais não falam no assunto. O povo conclui que, graças ao geringoncial milagre, deixou de haver emigração, ainda que os salários continuem baixos, os cérebros não se saibam se foram se ficaram. Nunca mais se passou nada.

Fantástico, não é?

Naquele tempo, um desempregado sem subsídio punha a intersindical na rua, fazia manchetes, editoriais, um clamor universal. Hoje, há mais desempregados sem subsídio que com ele. Tudo normal, tudo feliz, tudo na maior, como dirá o Prof. Marcelo no uso da sua autoridade Presidente erigido em chairman da geringonça.

É verdade que vale mais cair em graça que ser engraçado.  Mas também o é que quanto mais alto se sobe de mais alto se cai.

 

21.4.17

DO NOJO

Enquanto os franceses lamentavam os assassinatos islâmicos dos Campos Elíseos, enquanto os candidatos presidencias franceses recolhiam a penates e, manifestado o horror, suspendiam a campanha, a dona Marisa Le Pen, perdão, Matias, cantava, aos pulinhos de júbilo, a “Grândola vila morena” lado a lado com o castelhano do rabo de cavalo e o Porcalhon, diante de um rassemblement de comunagem e fascistagem eufórico de esfusiante alegria.

Esta nossa tão repugnante quão melíflua palhaça dava assim aos tugas a imagem clara do que é e do que representa, ou seja, do repúdio da democracia, do direito e da liberdade.

As nossas televisões, cheias de repenicada satisfação, relatavam a coisa com orgulho e prestimosa colaboração, em frenética demonstração do geringoncial embiente em que vivemos.

Pode haver quem ache bem. O IRRITADO deixa aqui registado o seu nojo, antes que lhe tirem o direito de o fazer.

 

21.4.17

CARTA ABERTA

 

Aos Camaradas do politburo do Comité Central

 

Com as nossas saudações revolucionárias, vimos alertar o CC para alguns problemas que  a nossa gloriosa marcha para o socialismo real enfrenta.

Desde o emergir da nossa colaboração com a burguesia, apesar do aturado trabalho dos nossos infiltrados, tem o Partido, e nós com ele, adoptado uma linha de tolerância que não está nem na nossa tradição nem nos princípios revolucionários que são a base da nossa acção e garantia das nossa vitórias (o BE faz o mesmo, mas não importa, está longe de ser vanguarda, a vanguarda somos nós!).

Tememos que os camaradas que, sob a nossa direcção, se encarregavam das acções revolucionárias que, com tanta glória, vínhamos desenvolvendo, nas ruas, nas empresas, nas consciências, comecem a ficar desmoralizados por falta de ocupação, ou mesmo com temor do desemprego.

Temos tido sempre, como o CC bem sabe, as hostes bem preparadas e enquadradas para, em qualquer momento e a qualquer propósito, actuar de forma a perturbar os governos da burguesia, o que fizeram com assiduidade e denodo durante o tenebroso governo de Passos Coelho.  Porém, as massas estão em repouso há quase 17 meses, o que é altamente contraproducente. Fizemos há dias um pequeno ensaio com os professeres – devidamente dirigidos pelos nossos camaradas – mas tal não deu uma sequer pálida imagem do que costumávamos fazer. Lançamos pois um apelo aos camaradas do CC para que tenham em conta a possibilidade de desmobilização das massas, o que será altamente inconveniente.

Reconheço que o governo que apoiamos tem tido algumas actuações convenientes. É o caso deste último PEC, em que qualquer tendência minimamente reformista foi abandonada, a não ser no caso, por exemplo, do arrendamento, “reforma” que, aliás, nos é conveniente. Quanto a outras, o nosso triunfo é total: tais reformas (trabalho, segurança social, energias, transportes, etc.) teriam como resultado o progresso económico e a reafirmação dos mais inconvenientes princípios burgueses, com a consequência de atirar para mais longe a criação das condições objectivas para a tomada do poder pelas massas, sob a nossa gloriosa vanguarda. Reformas não! Felizmente, o PS obedece. As reversões que, em boa hora, exigimos e aplaudimos, são avanços no sentido da revolução. As reformas são reaccionárias por natureza! A sua ausência, bem evidente no PEC que inspirámos, implica, a prazo que esperamos não muito distante, a ruína total do Estado burguês, o que merece ser saudado por todos nós e por todos os nossos camaradas. Sobre tal ruína ergueremos bem alto o socialismo real e o centralismo democrático!

Mas, e perdoem-nos a insistência, é indispensável reacender o clima das acções de rua, sob pena de se atrasar o caminho para o fim do euro, a retoma da Revolução a passos cada vez mais rápidos, o abandono desta Europa capitalista e burguesa, o restauro da soberania do proletariado (interrompida em 1975 e só timidamente recuperada, em 2015, através da aliança com os burgueses do PS e do BE) e o realinhamento da Pátria, dos Tabalhadores e do Povo com os nossos camaradas de Cuba, da Venezuela, da Coreia do Norte e de todos os que se batem pelos gloriosos amanhãs que nos compete instaurar.

Unidos venceremos!

 

Com as nossas mais profundas saudações marxistas-leninistas vos abraçamos, ó Camaradas!

 

Armínio Karl

Ana Avoiarx

Mário Noguécio

VENATÓRIA ESTUPIDEZ

 

O IRRITADO não é nem nunca foi caçador. Para além de um canivete não tem armas de nenhum tipo. Que se lembre, só deu tiros na tropa e na feira popular.

Feita esta declaração de desinteresse, passemos ao que interessa.

A caça é, em Portugal, de todos os desportos, o mais interclassista. Caçam ricos, remediados e pobres. É pormenorizadamente regulamentada, vigiada e, claro, cobrada pelo Estado de várias maneiras. Constitui, bem gerida (e nada diz que, na generalidade, o não é), uma fonte de regulação das espécies e, portanto, de guarda da diversidade genética. Se dá despesa a uns, é fonte de emprego e de rendimento para muitos outros. Ajuda a rentabilizar vastas áreas agrícolas, o que dificilmente ocorreria de outra forma. Concorre para o equilíbrio social de muitas regiões. A esmagadora maioria dos caçadores, todos “diplomados” e licenciados, tem a preocupação, no seu próprio interesse mas não só, de proteger habitats e espécies.

Contra tudo isto se levanta o animalesco deputado do PAN, em má hora eleito por burgueses urbanos, em várias matérias acompanhado pelo sovietesco BE, o qual, como é indiscutível, tem a mesma origem eleitoral, caracterizada esta, como é sabido, pela mais radical ignorância do que se passa fora das grandes cidades.

Consta que, na próxima sexta-feira, a Assembleia perderá o seu tempo a discutir as propostas dessa gente, tendentes, entre outras burrices, a acabar com os cães de caça, a obrigar a ter presentes nas caçadas “inspectores sanitários”, a reduzir drasticamente os dias de caça, a proibir a caça à rola e ao coelho durante três anos, etc..

A ignorância crassa destes meninós leva-os a tentar legalizar um rol de asneiras, demonstrativas da sua triste inconsciência ambiental, social e económica, a que se soma um desprezo visceral pelo mundo rural, pelos interesses das pessoas e do próprio Estado.

Da sua pequena tribuna, o IRRITADO formula a esperança de que, no meio de tanta asneira, os deputados tenham o bom senso de mandar o PAN e o BE às urtigas.

 

19.4.17

“INTELIGÊNCIA”

 

No “Observador” de hoje aparece publicado um teste, ao que parece destinado a avaliar criancinhas da primária. Parece que o tal teste se tornou “viral”, palavrão destinado a dizer que foi visto por muita gente. Não é referida a autoria da coisa, se do ministério, se de algum brincalhão, sendo legítimo pensar, via critério de analfabetismo e estupidez, que será daquele.

Segundo o “Observador”, os adultos não são capazes de responder às perguntas, não se esclarecendo o que se passa com ou miúdos.

A título de exemplo, o jornal adianta as seguintes três perguntas:

  1. Como é que se pode multiplicar 66 por 1,5 sem recorrer a cálculos matemáticos?
  2. Onde é que há mais pescado: numa loja de animais de estimação ou no rio?
  3. Como se podem colocar dez pessoas em torno de uma mesa quadrada se quisermos ter o mesmo número de pessoas em todos os quatro lados?

Para ajudar os “estúpidos” leitores, o artigo revela estúpidas respostas “certas”. Como segue:

  1. Virando 66 de pernas para o ar.
  2. É na loja de animais, porque o que está no rio não foi pescado.
  3. A resposta é um boneco com sete pessoas à volta de uma mesa.

Observações:

  1. Ao virar 66 de pernas para o ar, vira-se 66 de pernas para o ar, não se multiplica coisa nenhuma.
  2. Um imperdoável castelhanismo, em que “pescado”, adjectivo em português, é usado como “pescado”, substantivo em castelhano.
  3. Insondável milagre da desmultiplicação das pessoas, apimentado com um maravilhoso pontapé na gramática: o predicado “podem colocar” a concordar com o complemento directo “dez pessoas”, não com o sujeito indeterminado, 3ª pessoa do singular em todas as línguas latinas.

  Assim, é provável que os pequenos alunos “testados”, se forem burros, dêem respostas “certas”, e que os adultos não analfabetos se irritem com as porcarias impingidas.

 

19.4.17

MULTILATERALISMOS

Uma tal IPDAL, instituição com o nobre objectivo de “promover a América Latina e as Caraíbas”, organiza, ao que parece na Avenida Sidónio Pais , 26 r/c esqº, em Lisboa, um ambicioso programa, hoje matéria de um anúncio de página inteira no Diário de Notícias e não sei se noutros jornais e locais.

Sob o alto patrocínio de 24 empresas e instituições, estarão em apreciação os interesses de 33 países. Em palco, 40 personalidades. Imagine-se o brilhantismo, o impacto, a projecção nacional e universal de tal e tão vasta reunião. Gentes das mais variegadas origens, presume-se que todas ilustres, ministros, deputados, cientistas, diplomatas, burocratas, um ramalhete de três em pipa.

Talvez por causa de exiguidade do r/c esquerdo, o anúncio não fala em inscrições, o que evita que esmagadoras multidões venham a prejudicar os trabalhos.

Na primeira sessão, usarão da palavra 6 oradores, cabendo a cada um 6 longos minutos para expor as suas ideias. A seguir, o senhor Lee, um privilegiado, gozará de 15 minutos para explicar que “The World Isn’t Flat” - grande novidade científica. A seguir, falarão sobre o Atlântico três especialistas em assuntos marítimos, dos quais os conhecidos navegadores Daniel Proença de Carvalho e Luís Marques Mendes. Também estes parece que têm 15 minutos por conta, esclarecendo a seguir os “estudantes internacionais” presentes no r/c esqº. Seguem-se 45 minutos para tomar café. Depois, mais seis oradores, muito conhecidos sobretudo lá em casa mas julga-se de segunda, uma vez que só terão uns 5 minutos para que cada um banhe os presentes com o seu alto pensamento. Às sete da tarde, vão todos para casa.

Nova sessão no dia seguinte. Oração de sapiência por um senhor que até foi presidente do Senado da Marrocos.  Seguem-se mais sete falantes, cada um contemplado com os 5 minutos da ordem para mostrar o que vale. Meia hora de café. Mais cinco luminárias terão 5 minutos cada para perorar. Vai tudo almoçar. Sobre dinheiro, depois do repasto (por conta de cada um, que crise é crise), vai falar-se de dinheiro. Quatro altos especialistas. Estes, dada a importância das massas, terão atribuídos uns 20 minutos. Mais uma bica. Seguem-se embaixadores (decanos!), e um fulano do Cariforum (?), que terão direito a mais perguntas dos “estudantes internacionais”.  E ainda vai haver temp para nais três, entre os quais avulta Sua Excelência o chamado ministro dos negócios estrangeiros, encarregado do “gran finale”.

Às sete, ala moço que se faz tarde.

Não faço ideia do que será ouvir 40 oradores, assim, de esguicho, em meia dúzia de horas. Mas não tenha  a menor dúvida de que os contemplados com um convite sairão de lá esclarecidíssimos e, se calhar, com um diploma de bom comportamento para pôr no currículo.

A não perder.

 

18.4.17    

VIAGEM À ANATÓLIA

Em tempos idos e ao longo de vários anos fui muitas vezes à Turquia. Por lá conheci muita gente e até fiz meia dúzia de amigos, julgo que já todos a fazer tijolo. Era gente ocidentalizada q.b. , ataturquistas de gema, em geral laicos, adeptos da democracia de que gozavam mas cientes da sua fraqueza congénita, eivada de patriótico sultanismo, isto é, com evidentes pulsões nacionalistas.

Isto fazia deles adeptos dos equilíbrios que a revolução de Mustafa Kemal tinha criado, e imposto, para defesa da nova república. Não, não se tratava de cheks and balances, com nos EUA, nem da tradicional separação de poderes que, pelo menos teoricamente, evita, na Europa, a emergência de tendências autocráticas, de exageros religiosos ou de populismos autoritários. Na Turquia kemalista, tal equilíbrio era assegurado pelas forças armadas, a quem o “pai de Turquia”, ciente dos perigos, tinha confiado a continuidade de um regime do tipo europeu.

O sistema funcionou e, goste-se ou não, perante ameaças ditatoriais foi sempre o exército a criar situações intermédias tendentes a repor o sistema ameaçado. Isto suscitava o horror ocidental, mas tinha o benéfico efeito de, passada tempestade, os “golpistas” cumprirem a sua missão de restauro das liberdades públicas.

Havia, no entanto, uma generalizada pressão nacionalista, um exagero de orgulho nacional, uma inconfessa saudade imperial, um sentimento de frustração perante o regresso às fronteiras tradicionais, presente até no espírito dos mais afectos à democracia e ao  modelo europeu.  As tergiversações da CEE e da UE em relação à integração da Turquia serviam de mote ao recrudescimento deste tipo de sentimentos.

Neste caldo de cultura vicejou um partido religioso, hesitante entre a charia e o constitucionalismo. Quando, pela primeira vez, tal partido ganhou uma eleição (município de Istambul), as forças armadas fizeram valer a proibição, estabelecida por Kemal, do acesso ao poder por organizações de inspiração religiosa. Mas a “marcha” prosseguiu, sempre com multidões de apoiantes. As “primaveras” árabes, a instabilidade regional, a questão curda, potenciaram o apoio a Erdogan e ao seu partido, a ponto de as forças armadas, desta feita enredadas em contradições, não terem sido capazes, ou não terem sentido apoio popular bastante para cortar cerce o poder emergente.  A república laica ficou em causa, começaram as purgas, no exército, nos tribunais, nos media, na sociedade em geral.

O processo não parou mais, o poder pessoal do autocrata eleito reforçou-se a cada dia, culminando, primeiro, num golpe de Estado falhado – há quem diga que preparado pelo próprio Erdogan para justificar a “limpeza” de muitos milhares de militares, políticos, jornalistas, cujo destino, depois das primeiras semanas, deixou de ser conhecido – e, depois, a a atingir o auge com o referendo “bem trabalhado” que ontem alicerçou o poder ditatorial do caudilho.

Internamente, sabemos o que vai acontecer: o parlamento passará a fantoche, os tribunais ficarão ao serviço do poder, as iniciativas da sociedade civil terão a polícia pela frente por mais pacíficas que sejam, a informção passará a caixa de ressonância do poder sob pena de dissolução, sem que se veja, a curto ou médio prazo, qualquer hipótese de alternativa.

Externamente, uma perigosíssima confusão está estabelecida. Ninguém sabe com um mínimo de precisão o que fará a ditadura turca, que fidelidades manterá, quais os “amigos” que criará ou saneará, que papel, se é que algum não de mera oportunidade, desempenhará no teatro da região e do mundo.

Mais uma incerteza, a juntar a tantas que por aí andam a merecer a nossa inquietação.  

 

17.4.17

OS MARUJOS

Lembram-se do famoso “documento macro-económico” do PS, utilizado para propaganda eleitoral e posteriormente arrumado no caixote do lixo, não fora começar a descobrir-se que era tudo mentira? Lembra-se com certeza. Só o PS o esqueceu, como esqueceu a obra do seu governo de seis anos, que terá deixado de ter existido.

Acontece que um  alto “qualificado” da função pública, um dos cérebros do tal documento e actual geringonço, veio ontem à TV lamentar-se da sua triste desdita. É que, diz ele, os “qualificados” da privada ganham mais que os “qualificados” da função pública. Como ele é, ou se acha, qualificado da função pública, vê-se onde quer chegar, isto é, quer sacar mais algum sem fazer outra coisa senão deixar-se estar. Esqueceu-se da costumeira “declaração de interesses”, mas isso é pormenor. Também se esqueceu que os qualificados da pública têm o assento etéreo onde subiram garantido para todo o sempre, o que é uma não dispicienda “compensaçãozinha”, sobretudo para quem não está muito interessado em avançar na vida sem protecção que se veja.  Ao contrário, na privada, cada qualificado, e bem, tem lugar se e enquanto as suas qualificações servirem para alguma coisa. E tem que andar sempre à procura de melhor, sob pena de estaganção. Os da função pública estão, por definição, estagnados. Não procuram melhor. Então que se deixem estar, é uma escolha com vantagens e inconvenientes, como todas as escolhas.

Se eu estivesse lá na conversa da TV teria perguntado ao homem se não estaria interessado num lugarzinho na privada, melhor pago, mas dependente da forma como exercesse o cargo. O homem estremeceria e, indignado, chamar-me-ia, pelo menos, provovador neoliberal.

Quer isto dizer que a geringonça está preocupada com as suas clientelas, muito mais que com o que se passa cá fora, no mundo livre. À pala da luta contra a precariedade, vai metendo mais marujos no barco do Estado, ou seja, vai criando mais encargos para os que andam a nado.

Facto é que quem anda a nado, exceptuadas umas dúzias de “qualificados”, ganha menos e tem emprego enquanto tiver. Sabem porquê? Porque vive na triste realidade, enquanto os do barco estão atracados à terra do nunca, e estão muito bem. O pior será quando os da triste realidade deixarem de ter dinheiro para pagar aos marujos.

 

14.4.17

 

 

EDIÇÕES

 

Rezam as crónicas que quando um político importante sai de cena é assediado por um largo número de editoras que lhe fazem as mais mirabolantes propostas para a publicação das suas memórias. Paga-se milhões aos Bushes, aos Obamas, aos Blaires e quejandos para ficar com exclusivos e outras fantásticas fontes de rendimento.

Por cá não é bem assim, e chega ao extremo de se fazer tudo ao contrário. É o caso de um político que, não tendo, ao que parece, quem lhe edite as memórias, recorre à caridade pública, coisa a que há quem chame, respeitando o politicamente correcto, “mecenato cultural”. O sistema que tem a sua lógica. O autor que, para já, nem autor é, ciente de que ninguém, ou quase, gastará um cêntimo com dois desinteressantes calhamaços, trata de arranjar quem pague. É o triste caso do ex-Presidente Sampaio, personalidade que, para além de um golpe de Estado destinado a levar ao poder os seus correlegionários (sob a chefia do chamado engenheiro Sócrates!), nada mais fez que se visse ou que mereça, pela positiva ou pela negativa, atenção de maior

O sistema é interessante, mas a sua montagem é-o ainda mais. Calcule-se que os “mecenas” se juntaram numa “fundação”. Ninguém sabe quais os meios postos à disposição de tal agremiação, nem com quanto ela terá concorrido para a manufactura, a publicidade e o lançamento da obra. Tudo está escondido e há quem opine que a “fundação” terá sido criada exclusivamente para este efeito, se calhar dissolvendo-se uma vez fechadas as contas.

Interessante é também o nome escolhido: Fundação Dom Luís da Cunha. Pobre Dom Luís, ilustre diplomata e homem de grande cultura (secs. XVII/XVII), com quem o meteram! O que terá ele de parecido, que afinidade, que possível comparação que o levem à situação de patrono das façanhas de Jorge Sampaio, ou de orago dos seus protectores da Mota-Engil, do BPI, da PT et alia (uma data deles)?

Já tínhamos assitido a cenas do tipo da dos “amigos” do 44, que lhe compraram milhares de livros a fim de assegurar o êxito literário da sua – ou de outros – obra.

Sampaio vai mais longe: o êxito foi garantido mesmo que ninguém, nem os amigos, lhe adquira o produto!

 

13.4.17  

DA GERINGONCIAL IMPRENSA

 

A entrevista de Passos Coelho à SIC foi brindada com ecos vários na imprensa “de referência”. No dia seguinte, Dias Loureiro, o futebol e outras “importantes” matérias vieram para as primeiras páginas, Passos Coelho para página par interior, tipo fait divers. Do que disse, ficou nas notícias praticamente só que não se iria embora se perdesse as autárquicas. Não iria para Paris como o seu miserável antecessor, não iria para a peluda como o Guterres, não diria que tinha ganho tendo perdido como o Costa, não diria que a derrota tinha sido pequenina como este tinha dito das vitórias do Seguro. Por outras palavras, para ele, as eleições, as autárquicas como as legislativas, têm o valor que têm, não o que lhes atribui a cultura socialista. Nesta, quiçá por mor da moral republicana, quem ganha deve ser corrido, como o Seguro, quem perde deve ser primeiro-ministro, como o Costa. Uma diferença notável, no que respeita àquilo a que se poderá chamar ética política e respeito pela vontade popular.

Adiante. A entrevista, excitou a cáfila da oposição interna, mais do que a oposição à oposição. Que não há projecto, que não há propostas, que não há novidades. Os rios e riachos, os mendes e os pereiras  que por aí apascentam objectivos e ilusões saltaram-lhe às canelas. Quereriam que Passos desatasse a falar de projectos e propostas que dariam aos geringonços oportunidade para insultos e acusações. Se vertidos em projectos de lei, quais fossem eles, seriam exemplarmente chumbados. Para quê adiantar fosse o que fosse? Toda a gente sabe, mesmo que não goste, que a seriedade e o bom senso são as armas de Passos Coelho, como a “leveza” e a propaganda são as da geringonça.

Para já, Passos Coelho sabe que não vale a pena. Há que esperar, há que ter calma e tenacidade. Há que denunciar o mar de asneiras e de populismo em que estamos mergulhados, que chamar a atenção para as suas inevitáveis consequências, que marcar as diferenças entre o que tem futuro e o aventureirismo popularucho em vigor. Isso fez Passos Coelho com a serenidade que lhe é habitual. Sabe que tem que esperar, sem fazer demagogia, propalar promessas ou agitar ideias sem futuro imediato.

Mas isso não interessa, nem à imprensa nem aos jornalistas da TV que, à custa do homem, se exibiram como de costume. Estavam ali para se “valorizar”, não para deixar que as opiniões do entrevistado se manifestassem. Gostava que alguém fizesse a estatística das respostas que deixaram chegar ao fim sem impertinente interrupção, das mudanças constantes de tema, sempre com critérios meramente sensacionalistas, a tentar arrastar o entrevistado para parangonas que alimentassem intrigalhadas. Passos Coelho, na medida do possível, não lhes deu cavalaria. Fez bem, mas condenou-se às páginas interiores. A imprensa não brinca com quem não faz manchetes.

Passos Coelho não terá “estratégias” para voltar ao poder. Não entra em palavreado para inglês ver ou eleitor engolir. Vai afirmando um estilo e, direi eu, terá esperança que, vistos os resultados de longo prazo da geringoncial trapalhada, a serena vilolência da razão venha ao de cima.

 

10.4.17

VARRER O LIXO

Há um mistério, ou um “milagre” que me faz uma confusão dos diabos. Durante o governo anterior, era diária a denúncia, não negada pelo poder, dos colossais problemas da Segurança Social. A prazo, as receitas não davam para as despezas, as reservas seriam consumidas, a reforma era urgente. Numa coisa estavam o governo PSD/CDS e o PS de acordo: o problema existia. A “reforma” do Vieira da Silva não tinha funcionado com previsto, havia que encontrar novas receitas, largo debate era indispensável para encontrar soluções com futuro. É claro que não houve debate nenhum, nem consenso nenhum, tudo o que o governo dissesse era digno de não mais que o caixote do lixo.

Veio a geringonça. O problema morreu. Há mais de um ano que ninguém ouve falar no assunto. As despezas aumentaram, as receitas não, ou nem por isso. A Segurança Social está tão próspera que até dá para pagar aos empreiteiros da “reabilitação”.

Mistério, ou milagre? Nem uma coisa nem outra. Vieira da Silva, calado como um rato, anda a pedir esmola às misericórdias para enterrar no Montepio. Mais nada. Contas não é com ele. Nem mistério nem milagre, só porcaria debaixo do tapete.

 

10.4.17      

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