ASSIM VÃO ENTREVISTAS E DEBATES
Vi, com a atenção que o homem merece, a entrevista que o senhor Pinto de Sousa deu à dona Judite.
A dona Judite, toda dengosa, no fim das alegações do homem, teve a simpática coragem de lhe perguntar o que achava de alguém o ter classificado como sexy e bem-posto. O homem rebolou-se na cadeira e, babado, sorriu com ar modesto. Disse que não liga a essas coisas, mas não negou a sua performance de Petrónio da BeiraiAlta. Vistas as coisas com olhos de ver, a conclusão é: estávamos perante uma das mais pirosas parelhas da História da humanidade. O tipo exibia uma gravatinha de “seda à noite”, ou seja, de nailarucho barato e de um vermelho que nem os no name boys se atreveriam a usar. A camisinha do homem era tipo “Rosa de Ouro”, ou equivalente, branca tipo lixívia, um alvo desastre. O fatinho, a condizer, com ombros de alfaiate e pregas no cachaço. Dada a posição em que estava, não se lhe viam os sapatos mas pode assumir-se que eram tipo cabo artilheiro do midwest. Dona Judite não lhe ficava atrás, cheia de lantejoulas do chinês, com um vestido tipo cortinado de coté. Os sapatos, esses bem à vista, nem no Fontória, senhores!
Seja-me perdoada esta incursão na área do social, tão fora do estilo do IRRITADO. Não resisti, e pronto. Estou no meu direito, pelo menos enquanto o senhor Pinto de Sousa deixar, ou não der por isso.
O que foi, afinal, a entrevista? Nada. Nada, sim. O homem nada disse de novo, desfiou as estatísticas da “obra feita”, e foi tudo. Disse que o Freeport vai acabar bem (não acrescentou “Deus queira que depois das eleições” mas ou me engano muito ou não lhe faltava a vontadinha). Declarou, notável pensamento, que isso da guerra com os professores não passa de aldrabice. Nunca houve. Só uns desaguisados menores.
Uma coisa há que admirar no homem: nada disse que não julgasse que lhe convinha. Como as perguntas da dona Judite, em súbita alteração do habitual estilo peixeirático, eram mansas e doces, a tarefa do homem foi fácil.
Aquela do sexy e do bem-posto foram a cereja no topo do bolo encomendado pelo governo.
Anteontem outro galo cantou. Armado das mesmas armas que serviram para a dona Judite, o homem soçobrou que nem um prego. Apanhou com o Portas Paulo pela frente (podia ter aproveitado para ver o que é um tipo bem vestido) e lá se foram as declarações bombásticas e o triunfo do sexy. Ficou bem claro que aldrabou o orçamento, que brutalizou a Nação com impostos nunca vistos, que o desemprego começou a subir muito antes da crise internacional, enfim, que as “virtudes” do socialismo e do senhor Pinto de Sousa só lá em casa se dá por elas.
Acossado, o homem refugiou-se nos protestos e nas ordinarices. Que o combinado não estava a ser respeitado, que o Portas Paulo estava a falar demais, que aquele tema não estava na ordem da combinata… a ponto de ter de vir a dona Constança pedir alguma discussão substantiva. Depois, desvairado com a tunda que estava a levar, esperneou que o Portas Paulo tinha sido do governo que queria mandar soldados para o Iraque. Qual náufrago, quis agarrar-se ao que encontrou. Não encontrou nada melhor. Podia ter dito que o tal governo nada fez para evitar o furacão Katrina, o que teria a excepcional virtude de ser verdade. Podia ter dito que, à altura, os seus colaboradores mais próximos nada disseram – porque concordavam com o governo – e que os mais afastados mais não fizeram senão defender a tese peregrina e inconstitucional do senhor Sampaio.
Enfim, compreenda-se, quem não tem cão caça com gato. Quem não tem razão muda de assunto.
E ontem, meus amigos? Ontem assistimos à estreia universal da anedota intitulada “Tratado de Paz entre Estaline e Trotsky”. Tantas décadas passadas depois da fratricida guerra que travaram, os dois grandes do comunismo, brilhantemente representados pelo Louça e pelo Jerónimo, apresentaram-se ao povo com a mais doce harmonia, uvas do mesmo cacho, troncos da mesma raiz. Foi delicioso, ainda que muito chato, ouvi-los dizer que são iguais, que nada têm a criticar um ao outro, que é tão estúpido votar num como votar no noutro.
Uma autêntica sessão de esclarecimento para quem ainda acha que um é mais “democrata” que o outro.
3.9.09
António Borges de Carvalho