Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

NAS MALHAS DO PAISAGISMO

 

Há muitos, muitos anos, havia na CML um paisagista que imaginou um re-arranjo dos jardins da Avenida da Liberdade. A coisa terá sido aprovada pelo então Presidente, um senhor França Borges, de genealogia jacobina e fé salazarista.

As obras foram feitas, a avenida transformada numa coisa totalmente diferente. Melhor ou pior, ninguém saberá dizer. Porém, antes que os trabalhos estivessem acabados, deu-se um fenómeno raro naqueles repressivos tempos. Um movimento popular, intelectual e “mediático” sem precedentes. O pessoal não queria que a imagem da avenida fosse alterada e substituída por modernices que reputava de desagradáveis. Muito “democraticamente”, a CML obedeceu ao apelo da malta e a avenida voltou, quase toda, ao seu primitivo look. O paisagista saiu da câmara, passando de empregado a feroz inimigo do satus quo municipal. Criticava acerbamente as podas extemporâneas das árvores e a construção em (mais) altura ao longo da avenida. Ganhou a questão das podas: até hoje, as árvores nunca mais foram tratadas e ficaram entregues a si próprias, como bem se pode observar. Quanto à construção em (mais) altura, coisa horrível que havia de matar toda a vegetação do vale da avenida, esqueceu o assunto depois de ter vendido um prédio que tinha num nobre gaveto da dita. Hoje lá se ergue um feio edifício, bem mais alto que o vendido.

Construiu-se mais uma data de edifícios. A vegetação continua na mesma, indiferente ao anátema do paisagista.

 

A certa altura, a Gulbenkian resolveu construir o Centro de Arte Moderna, ocupando uma parte dos jardins Vilalva, agora de sua propriedade. A coisa, sob o comando do nosso paisagista, deu brado. Não se podia destruir os jardins, de sua autoria, jóia primeira da coroa da cidade. Os jornais entraram em acção, a malta agitou-se, a Gulbenkian tremeu de medo. Até que o Dr. Azeredo Perdigão, chefe máximo da fundação desde a primeira hora, veio à televisão defender a iniciativa e dizer que jamais os jardins tinham sido projectados pelo nosso paisagista. Uma firma britânica tinha sido contratada para o efeito, tendo o paisagista sido usado, entre outros, para a sua construção. O homem calou-se, o CAM foi construído, coisa magnífica, os jardins nada sofreram. Anos passados, lá voltou ele a assenhorear-se da autoria do projecto, uma vez que já ninguém se lembra das declarações assassinas do falecido Perdigão. Com razão. Águas passadas.

 

Nos anos oitenta, nova polémica estoira. Havia uma empresa suíça que queria construir um hotel e um centro de congressos no alto do Parque Eduardo VII. Correu tinta, Abecassis foi acusado de tudo e mais alguma coisa. As hostes condenatórias, como é óbvio, eram chefiadas pelo paisagista. Os suíços acabaram por desistir, diz-se que faliram, a ideia foi abandonada. Naquele local, como é evidente, não se podia autorizar uma construção de tal envergadura e com um tal impacto na circulação, no estacionamento, etc.

A roda da fortuna, porém, dá as suas voltas. No tempo da coligação social/comunista chefiada pelo senhor João Soares, outra coisa, bem maior e com mais impacto que o projecto chumbado, havia de surgir e triunfar na mesma zona, ainda que um pouco mais abaixo: o Corte Inglês e edifícios adjacentes. Desta vez a câmara não se preocupava com volumetrias, impactos, estacionamentos e circulações. Vai disto! Mesmo sem licenças, mesmo sem cumprir os regulamentos camarários que, com razão ou sem ela, infernizam a vida do cidadão comum, o monstro urbano construir-se-ia sob o terno olhar do Dr. Soares. Havia, no entanto, um problema: o paisagista! Vai daí, em tirada de grande visão e mestria, o município contrata-o para projectar o jardim do sobe e desce do alto do Parque. E pronto. O paisagista calou-se e o imponente conjunto urbano construiu-se sem mais chatices. Quem sabe, sabe!

 

Para encurtar esta história, cheia de interessantes episódios, viajemos até ao presente.

A monumental pessegada em que o Presidente Sampaio e a câmara socialista transformaram o caso do Parque Mayer, continua a fornecer material para a paisagística intervenção.

Não contente com o abandono do único projecto visionário que tinha sido pensado já lá vão uns dez anos, não contente com a provinciana pequenez mental do que está em presença, não contente com o estado vergonhoso a que o local tem sido persistentemente conduzido, não contente com a evidente decrepitude dessa inigualável “preciosidade” arquitectónica que dá pelo nome de Capitólio, o nosso homem dedica-se à nobre tarefa de proteger o Jardim botânico, já que o tal projecto “altera a luz, as vistas e a circulação de brisas entre o Jardim Botânico e a Avenida da Liberdade”. Notável!

 

O Costa tem duas soluções: ou se inspira na sabedoria do seu camarada Soares e trata de contratar o paisagista para não o ter à perna, ou encana a perna à rã, o que também não vai contra a “filosofia” camarária.

 

13.11.11

 

António Borges de Carvalho

A NADAR EM DINHEIRO

 

O inigualável Paulo Campos, emérito manipulador de relatórios, acrisolado defensor do indefensável, gritantemente antipático, afirmou há dias, entre outras cavalidades, que a Estradas de Portugal estava na maior, sem problemas nenhuns, já que ele, Paulo Campos, sob a superior direcção do excelso Jamais! e com o alto patrocínio do espantoso Pinto de Sousa, tinha tomado as providências necessárias para que aquela empresa pública não desse problemas a ninguém.

Se estas formidáveis afirmações tivessem sido proferidas por alguém digno de crédito, o IRRITADO teria ficado aflito. Então andou para aí o Almerindo a dizer que a EP não tinha cheta, que estava tudo falido e, afinal, era mentira?

Ainda que fosse evidente que quem tinha razão era o Almerindo, não o Paulo, não seria mau esclarecer o assunto.

Eis senão quando vem tudo escarrapachado no jornal. Só em2011, a EP vai sacar ao Estado a módica quantia de novecentos e doze milhões e cem mil euros em créditos do Tesouro, presume-se que emprestadados, como não pode deixar de ser. Consta que, nos anos subsequentes, será ainda pior.

 

Já agora, para esclarecimento do reduzido público do IRRITADO, a situação em que o respeitável Campos deixou as coisas custará, em “empréstimos” do Estado, este ano, uns meros dois mil quinhentos e trinta e seis milhões, generosamente distribuídos por empresas tão dinâmicas e tão “nossas” como o Metro de Lisboa, a Refer e o Metro do Porto, para além da já citada EP, tudo maravilhas estatais que, nos primeiros nove meses deste ano, já custaram qualquer coisa como 2.121% do que tinham custado em 2010 e que, como é mais que certo, custarão ainda mais a médio e longo prazo. E ainda falta saber o que se vai passar com a Carris, os STCP, a Soflusa e tantas outras inflorescências do estado socialista que por aí pululam.

 

Estes lindos elementos foram fornecidos pela Unidade Técnica de Apoio Orçamental, coisa que não se sabe bem o que é, mas que dizem ser muito credível.

Fica bem à vista, que é o que se queria demonstrar, a maravilhosa obra do tal Campos que, à imagem do famoso filósofo da Place Pigale, se gaba de ter deixado tudo a nadar em dinheiro.

 

9.11.11

 

António Borges de Carvalho

DO FIM DA CIVILIZAÇÃO SCUT

 

Uma pequena história portuguesa. Verdadeira, mas que se pode tomar por fábula.

Havia um homem que, com imaginação e talento, construíra um razoável império económico. Tinha pegado numas indústrias arruinadas pelas loucuras da revolução, relançara-as, e ganhava bom dinheiro. Tinha umas centenas de empregados, relativamente bem pagos e satisfeitos.

Um dia, chegada a moda dos computadores e da net, o nosso homem montou, num quartinho lá do escritório, uma espécie de sala de dealing, onde um truta qualquer se dedicava a operações financeiras, ligado a Nova Iorque, Tóquio, Frankfurt...

Depressa tais operações tomaram corpo na cabeça do nosso homem. Ganhava quase tanto no quartinho como nas suas indústrias. Pagava ao truta, e pronto. Quase não havia despesas e, com algum bom senso, a coisa dava, e dava bem.

Um dia, apareceu-lhe uma empresa “nacionalizada nossa”, a oferecer uma sonora maquia pelas suas indústrias. O homem exultou. Ia passar de rico a multimilionário!

Alguém do seu inner circle o aconselhou a não vender, ou a vender só metade. Veja você, disse-lhe, que a indústria é o que o mantém na vida económica, é o que o liga à realidade palpável, ao que, afinal, sustenta e justifica os seus investimentos financeiros.

Nada feito. O cash venceu. O nosso homem passou a ter só dinheiro, o conselheiro deixou de ser preciso, o truta foi aumentado, a vida continuou.

Anos passados, a empresa “nacionalizada nossa” passou a elefante branco do regime e o milionário não sabe o que há-de fazer ao dinheiro, para além de o ver desaparecer em operações falhadas. Pensa voltar a produzir alguma coisa, mas é tarde. Os anos passaram, ele já não tem nem estaleca nem know how para se meter noutra, nem tempo para apanhar o comboio outra vez.

 

Mutatis mutandis, é mais ou menos o que se passa com o chamado primeiro mundo.

Atolado em serviços, especulações e ilusões, o primeiro mundo esqueceu o primário e o secundário, como se estes fossem o décor que as transacções e os investimentos financeiros proporcionavam, isto é, pondo as coisas de pernas para o ar.

Ao mesmo tempo, as regalias de vida que o primário e o secundário tinham permitido criar transformaram-se em “direitos sociais”, ou seja, os habitantes foram levados a achar que viviam num mundo “scut” e que os Estados, ainda que cobrando impostos, taxas e “contribuições”, eram uma espécie de deuses que não podiam falhar nem tinham um deve/haver, à la limite igual ao de cada um.

Durante umas décadas, a superioridade científica e tecnológica do primeiro mundo manteve a capacidade de funcionamento do sistema. Mas a globalização, por tantos idiotas acusada de ser uma manobra do primeiro mundo para explorar o terceiro, provocou fenómenos globais inevitáveis e de sinal contrário.

O terceiro mundo produzia mais barato. Guardada que fosse a superioridade tecnológica, o primeiro mundo acreditou que deixava de precisar de trabalhar em actividades “menores”: imaginaria, investigaria, inventaria, inovaria, investiria, e daria aos demais para produzir, comprando-lhes um produto final onde as mais valias realmente importantes eram suas e pagas à cabeça. O resto era mão-de-obra, mal paga e sem “direitos sociais”. Daí as deslocalizações, as joint ventures e as inevitáveis transferências de tecnologia. Resultado: em meia dúzia de anos, o terceiro mundo passou a ter tecnologia própria – como, no pós-guerra, sucedera com o Japão – os fluxos de capitais mudaram de direcção e as mais valias sumiram-se.

O dinheiro tinha migrado. Os “direitos sociais” já não tinham cobertura. O capitalismo tinha deixado de ser liberal. Mas as suas incontornáveis regras continuaram a funcionar, já não a bem dos povos, mas contra eles.

A saída foi a anti-liberal corrida ao dinheiro, isto é, o esquecimento das tais incontornáveis regras, a primeira das quais é a de que o dinheiro, ou corresponde aos bens que se produz e é fruto deles, ou vai embora.

Em vez de o recriar, o primeiro mundo entrou em espiral financeira. Acusado de ser “liberal”, passou a “social”. Começou a distribuir dinheiro sem se dar conta que jamais o recuperaria, já que o colocava em mãos que produziam menos que o que deviam. Passou a viver-se como se houvesse almoços grátis. Mas não havia, nunca houve.      

Os cidadãos, esses, ficaram entregues às suas ilusões e aos seus “direitos”. Continuaram – e continuam! - a achar que “alguém há-de pagar”. Pior, continuaram convencidos que o que pagavam ao Estado lhes podia ser devolvido com juros, o contrário do que passou a suceder. O Estado não só nem em singelo devolve como gasta mais de metade para se auto sustentar.

O mundo scut acabou.

A realidade, longos anos disfarçada, veio ao de cima.       

 

Agora, há que começar de novo.

Bater no fundo, tomar balanço para voltar ao de cima.

Acreditar no renascimento da Fénix.

Fazer das tripas coração.

O resto é cantarolar de ideólogos, de demagogos, de tecnocratas falhados e de políticos pataratas.

 

Com a razão da moda e do “correcto”, chamem simplista ao IRRITADO.

Depois queixem-se.

 

5.11.11

 

António Borges de Carvalho

CAPITÃES DE ABRIL

 

Há várias espécoes de capitães de Abril: os democratas sinceros, os idealistas, os que queriam aumentos de ordenado e menos concorrência, os que estavam fartos das áfricas, os que queriam a ditadura bolchevista, os mentirosos, os enganados...

Há quem os incense, quem os odeie, quem não lhes ligue bóia.

Uma coisa, porém, é certa: não merecem ser representados por quem diz representá-los: o coronel, brigadeiro, tenente, ou lá o que é, Vasco Lourenço.

Antigo guerreiro do Império, cheio de bélicos cursos, infantaria, rangers, comandos e/ou coisas do género, jovem defensor da Pátria multicontinental e multirracial, virou, não se sabe quando nem porquê, feroz inimigo do que tão firmemente tinha defendido. Aconteceu a muitos.

Houve momentos em que pareceu lutar pelo que, na sua segunda fase, dizia lutar: a liberdade e a democracia.

Era tudo fogo de vista.

Hoje em dia, cada cavadela cada minhoca. O homem desboca-se de toda a maneira e feitio, a democracia, afinal, era para ele um socialismo de analfabeta pacotilha, coisa que ninguém percebe, a começar pelo próprio.

Desiludido, não tem outra solução que não seja apelar à insurreição. Não, não é às manifestações e às greves. É à insurreição militar. Na senda da castrense filosofia do poder pelas armas, que já nem na América do Sul é moda, o nosso Lourenço, qual general Tapioca, apela aos seus camaradas para que ressuscitem, contra a democracia, a força que usaram contra a ditadura.

Vasco Lourenço, não fora o descrédito em que se espera que caia, não podia ser mais perigoso, ou mais burro, sobretudo quando há tanta farda travestida em sindicalista.

 

Os capitães de Abril, de todas as naturezas, se ainda os há, não podem fazer melhor que arranjar outro que os represente. Em alternativa, ou ao menos, talvez pudessem denunciar as parlapatices do Vasco.

 

5.11.11

 

António Borges de Carvalho

O PREC ALEGRE

 

Ao ler o imponente artigo do camarada Alegre, anteontem publicado, vemos, de forma elaborada e certamente inspirada por algum economista da tribo, algo comparável ao apelo do major Lourenço.

O camarada Alegre, já que o PREC de esquerda foi travado manu militari, inventa um PREC de direita para legitimar o mesmo tipo de solução. É o capitão Lourenço, desta vez em versão mais rendilhada. “Soluções” expeditas, para obter o tão ansiado resultado: pôr a esquerda no poder. Já o camarada Sampaio, de forma mais sofisticada, usou instrumentos de natureza análoga aos do tão representativo militar.

No pensamento da tribo, a tão incensada democracia, afinal, ou é de esquerda ou não é democracia. Mais ou menos como a República: mesmo tendo presenteado o país com 16 anos de repressão e bagunça mais quarenta de repressão e ditadura, a “cultura” dos alegres continua a confundi-la com liberdade e democracia. Não há nada a fazer.  

É certo que o nosso alegre comentador faz, no seu artigo, uma análise da situação que, sendo discutível, é comum a muita gente e até tem alguma lógica, ou seja, não é estúpida nem infundada – razão pela qual o IRRITADO a atribui a um economista tribal, que o Alegre destas coisas sabe nada.

O problema não é a análise, é a conclusão. E a conclusão é que é preciso acabar com a direita, seja lá como for. Se a democracia é estúpida ao ponto de pôr a direita no poder, então que se use outros métodos para acabar com o assunto, os métodos do aspirante Lourenço, os do camarada Sampaio, ou outros igualmente eficazes.

 

O Dr. Passos Coelho teve o culot de dizer que “temos que mudar o regime económico”. Aí está, no raciocínio brilhante da alegre criatura, a prova de vivermos no tal “PREC de direita”. E com razão: o actual regime económico tem dado tão esplendorosos resultados, que qualquer mexida é um acto criminoso. Não é? Mantenha-se tudo como está, a bem da ideologia e do poder socialista! O que não é socialista é ilegítimo!

 

Este reformado da RDP, e não só da RDP, onde “trabalhou” seis meses (com certeza por obra e graça do “destino” jamais apareceu na lista da caça às bruxas) acha que o actual governo segue uma política revanchista “ultra liberal”.

Se a ignorância desse dinheiro, o camarada Alegre era multimilionário. Então não é que descobriu que subir impostos, entrar no capital dos bancos, andar à nora para manter os insustentáveis serviços sociais de uma insustentável herança, é política “ultra liberal”?

 

Com a tribo não se argumenta. As alegres conclusões não dependem do saber, nem da lógica, nem dos sentimentos democráticos do senhor. Não são discutíveis. Aplicam-se, e pronto.

 

Viva o socialismo!

Viva o Lourenço!

Viva o Alegre!

Viva o golpe de Estado!

Viva a República!

 

6.11.11

 

António Borges de Carvalho

DA GREVE GERAL

 

 

O IRRITADO pensava que a adesão da UGT à greve chamada geral, do PC, era um acto de indignação e repulsa pelos sacrifícios que a crise - que ainda vai no adro - está a exigir às pessoas.

Haveria um certo oportunismo na coisa, ou uma certa ingenuidade, um “Maria vai com as outras”, um apanhar de um comboio que andaria com UGT ou sem ela, enfim, nada de especialmente grave.

A ingenuidade é de quem formula tais hipóteses.

Segundo os jornais, o anafado chefe da UGT, senhor Proença, grande consumidor de havanos de primeira qualidade, veio declarar que isso da greve chamada geral era uma questão de meia hora. Sim, de meia hora. É que, se o governo deixar de pedir, ou exigir, mais meia hora de trabalho por dia, acaba-se a adesão da UGT a tão nobre iniciativa.

É a “batalha da produção”, em versão social sindical. Como o IRRITADO dizia há dias, trabalhar faz calos.

 

3.11.11

 

António Borges de Carvalho

QUESTÕES MUITO, MUITO GRAVES

 

Uns quatrocentos juízes reuniram-se nos Açores, convocados por essa coisa que se chama Associação Sindical dos Juízes Portugueses e que passa a vida na televisão a deseducar o povo em vez de olhar para si própria e de se auto criticar pela forma como vem exercendo a sua profissão.

Males na Justiça, há muitos e de muitas origens. Se cada um, em vez de andar à procura, nos outros, da razão de tais males, se visse ao espelho, talvez tivéssemos a lucrar com este tipo de reuniões, em termos da tão badalada e tão desprezada cidadania.

 

Adiante.

 

O primeiro de todos os juízes, Dr. Nascimento, célebre pela asa protectora que pousou sobre o senhor Pinto de Sousa, em prejuízo, entre outras coisas, da tão prezada - quando convém - independência judicatória dos seus pares, decidiu entrar em seara alheia e fazer as suas propostas políticas.

 

É sabido que um dos males da nossa administração pública é a questão das competências, quer dizer, do poder de cada um. Não há repartição, universidade, instituto, direcção geral, município, etc. em que as pessoas se não batam por mais poder, por mais importância, por mais capacidade de acção, por mais visibilidade. Com isso se perde tempo, coisa preciosa em qualquer actividade, menos na função pública.

 

Ciosos de reconhecimento, os juízes recusam a classificação de funcionários. Até podiam ter razão, se como tal não se comportassem.

Mas o Dr. Nascimento quer nem mais nem menos que acabar com o Tribunal Constitucional e com o Supremo Tribunal Administrativo. Como? Transformando, um e outro, em meras secções especializadas do tribunal que ele próprio dirige!

Cá a temos, limpinha, a sede de poder, a sanha pelo açambarcamento de competências. Ó glória de mandar, ó vã cobiça, diria o poeta, mais uma vez com carradas de razão.

Deixemos de parte a argumentação contra ou a favor da espantosa proposta. Registe-se apenas a incursão do Dr. Nascimento em áreas que, manifestamente, não são da sua competência. Porquê? O poder, ah, meus amigos, o poder! Legítimo, ilegítimo, legal, ilegal, que importa?

O Dr. Nascimento não se fica por aqui. Ele quer que os advogados passem a ganhar segundo uma tabela pré estabelecida, supõe-se que por ele. Como se fosse possível tabelar os honorários dos advogados! Como? Com que critérios? Quem determina o que vale o trabalho do advogado? Não há acordos advogado/cliente? De que havia o Dr. Nascimento de se lembrar, vinte anos depois de ter sido abolida a tabela de preços da bica e do pastel de nata!

E quer mais, o Dr. Nascimento. Quer que os juízes passem a ter o poder de “evitar manobras dilatórias”. Toda a gente concorda que o processo, em Portugal, proporciona o abuso desmesurado de tais manobras. O problema é que a solução encontrada pelo douto Presidente do STJ não foi no sentido da alteração do processo, mas no de dar aos juízes o poder de dizer se aceitam ou não as normas do dito. O Dr. Nascimento não apela ao legislativo para que altere a lei, nem diz como, na sua opinião, devia ser alterada. O que ele exige é que passem a ser os juízes a determinar quando se deve ou não cumprir a lei processual!

  

Tudo isto, meus senhores, é o menos. O pior é o resto.

 

O resto é outras propostas, freneticamente aplaudidas, essas não tratando de funcionais prerrogativas, mas de violentos atentados aos mais elementares princípios do Estado de Direito.

Os juízes que,  sem o mais leve protesto, se deixam representar pela incrível associação - gravíssima verdade - querem muito mais.

Querem o poder todo! Querem passar a “activistas judiciais”. Que quer isto dizer? Que, para os juízes reunidos nos Açores, a lei deixou de ser a lei, mas o que eles entendem ser justo. Eles é que sabem quando a lei está de acordo com a Constituição e quando não está. Eles são quem distingue o que é justo e o que não é, independentemente da lei.

A Justiça, meus senhores, segundo esta gente, tem que deixar de ser cega, tem que deixar de se aplicar a todos por igual. “O Direito”, diz o chefe, “tem que (re) ganhar (?) a sua função de controlo e de regulação”.

Os juízes passarão a pedir a declaração de IRS às partes, a fim de decidir a quem dar razão. Será? Se és rico e estás contra um remediado, estás feito! Se és remediado e estás contra um pobre, vai-te lixar! Ou será de outra maneira? O juiz pergunta a cada um a sua tendência partidária, a fim de saber se se trata de um “defensor” dos “trabalhadores” ou de algum fascista encapotado. Se fores dos segundos, filho, nunca terás razão.

O general do sindicato, aplaudidíssimo, quer que os tribunais “se assumam como entidades políticas”.

Na senda do meritíssimo Dr. Nascimento, os juízes vão mais longe. Não se ficam pelo downgrading do Tribunal Constitucional. É a eles que compete verificar se a lei está ou não de acordo com o que a Constituição diz, ou com o que eles acham que a Constituição diz, presume-se que na senda dessoutro “intérprete” da dita que se chamava Sampaio e que a pôs ao serviço do partido.

Um juiz de Almada, gloriosamente aplaudido pelas massas reunidas nos Açores, disse, defendendo o “activismo judicial”, que os camaradas se devem “libertar dos artigos dos códigos para poderem (sic!) defender os princípios do direito e da justiça”. Ou seja, o direito e a justiça passarão a ser o que cada juiz quiser. A lei não interessa a ninguém, muito menos à distinta classe, que julgará segundo o que cada um dos seus membros achar que está de acordo não se sabe com quê. Pior, sabe-se. E, segundo o mesmo douto iconoclasta da Justiça, o que interessa é o que a Constituição diz, ou o que cada um achar que a Constituição diz, segundo os seus próprios “princípios” e opiniões políticas.

Não se pode ser mais claro, pois não?

Mais. Por “activismo judicial” designa-se “a ampliação dos poderes dos juízes no controlo dos outros poderes públicos”. Mais uma vez, qual lei qual carapuça, qual Tribunal Constitucional qual carapuça, qual Parlamento qual carapuça, quem controla, quem regula, quem tem o poder absoluto de dizer o que está certo e o que está errado são os juízes!

 

Não, meus amigos, ao contrário do que você pensa, não compete aos juízes julgar com independência, isenção e bom senso, nos limites da Lei. Segundo as forças judiciais sindicalizadas, compete controlar o poder político, decidir o que é a lei a cada momento e julgar segundo os seus critérios pessoais.

Vasco Gonçalves não faria melhor. Álvaro Cunhal, ao pé disto, era uma criança. Salazar um benemérito. Só Hitler e Estaline se safariam.

 

A reforma da Justiça é, ou devia ser, uma prioridade essencial da governação. Não se sabe se é, se não é. Ainda não se viu nada.

 

Desta humilde tribuna, o IRRITADO recomenda vivamente a quem compete mandar nestas coisa que comece tal reforma por pôr na rua esta gente. Gente que não percebe ou não quer perceber o que é o Direito, nem o que é a Justiça, e que nega estrondosa e vilmente os seus mais fundamentais fundamentos.

 

1.11.11

 

António Borges de Carvalho

Pág. 2/2

O autor

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2007
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2006
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub