BARRACAS
Já lá vai um ror de anos, um conhecido meu, quadro da administração pública de um PALOP, veio ter comigo para fazer um pedido. A minha mulher, disse, que é professora do liceu lá na terra, foi seleccionada para vir para Lisboa fazer um curso de aperfeiçoamento profissional (ou coisa do género) contando ficar por cá uns dois anos. Parabéns, respondi. E ele continuou: queria pedir-lhe o favor de me emprestar 600 contos. Fiquei passado. 600 contos, ao tempo, era muita massa. Para quê?, perguntei. Para comprar uma barraca atrás do estádio do Sporting. O meu espanto não tem descrição. Aquele era o tempo da erradicação, aliás bem sucedida, das barracas de Lisboa. E, ingénuo, disse: eh pá, você não está bom da cabeça, gasta os 600 contos e, passados dias, vai lá a Câmara e deita-lhe a barraca abaixo! O homem não desarmou. Pelo contrário. Respondeu com irrefutável lógica: pois é isso mesmo, meu amigo, a Câmara deita a barraca abaixo e dá-me uma casa nova, de pedra e cal, percebe?
Percebi. Não lhe emprestei o dinheiro nem me lembro se o voltei a ver.
Naquele tempo quase não havia imigrantes. As barracas eram muito, mas muito, menos, e mais portuguesas que hoje, havia mais construção, o cavaquismo tinha posto isto a mexer menos mal, o Soares filho estava na CML... Hoje, nascem como cogumelos, os preços da construção disparam, ninguém faz casas baratas... Resultado, as Câmaras de Loures e da Amadora, no cumprimento das normas em vigor, mandam demolir centenas de barracas. As Mortáguas & Companhia, a esquerda em geral, gritam pelos direitos humanos, pelo humanitarismo, o diabo a quatro (nada há tão cínico como a esquerda). Do Presidente da Amadora não ouvi nada. O de Loures declarou que “tinha que ser”, cumpriu-se o que está legislado, na certeza de que ninguém ficará a dormir ao relento.
Partindo do princípio que o homem cumpre o que diz, isto é, que tem alguma solução, provisória que seja, para não deixar as pessoas sem teto, porquê tanta polémica?
Por outro lado, a reacção dos atingidos. Foram aproveitar a tal solução provisória? Segundo as notícias, nem pensar. Foram construir, ou reconstruir barracas noutro sítio. Se calhar descobriram a solução preconizada pelo meu conhecido africano: assim, é capaz de ser mais fácil passar à frente na bicha quando houver casas para distribuir...
18.7.25