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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

QUEM O VIU E QUEM O VÊ

No pretérito ano de 85 fui a Luanda pela primeira vez depois da independência. Senti uma tristeza infinita. Chorei. Uma cidade magnífica, onde passara, vinte anos antes, umas três ou quatro semanas (arranjava umas baixas ao hospital militar para intervalar 27 meses de mato), cheio de juventude e das loucuras que ela traz, semanas felizes numa cidade limpa, onde havia mais liberdade que em Lisboa, mais oferta do que em Lisboa, onde a Coca-Cola não era proibida, como em Lisboa, onde não era preciso ter licença de isqueiro, como em Lisboa, onde as raparigas eram tinham um convívio mais aberto e mais fácil do que em Lisboa, onde se comia bom marisco mais barato que em Lisboa…

 
Pois essa cidade, em 87, estava transformada no mais odioso pardieiro que se possa imaginar. Não havia um restaurante, nem Coca-Cola, nem isqueiros, nem liberdade, nem fosse o que fosse, os hotéis eram uma desgraça, produto algum se arranjava sem “esquema”. Num dos últimos prédios da marginal que ainda tinham elevador, onde fui dormir, entrava-se no hall por um caminho de tijolos a fim de não meter os pés nos produtos dos esgotos que subiam e desciam com as marés, as praias da restinga estavam ocupadas pelas forças armadas soviéticas... e assim por diante.
No aeroporto começava uma odisseia de polícias à procura de revistas, jornais desportivos, pornografia e tabaco nas malas de cada um, ficavam-nos com o passaporte até nos irmos embora, nas ruas as patrulhas mandavam-nos parar a cada passo, a ver se arranjavam alguma “coisita”, não havia táxis, as crianças, na rua, perseguiam-nos a pedir tudo e mais alguma coisa. Um horror.
Tudo isto, e muito mais.
Porquê?
Porque se vivia, para além da guerra, nas delícias do socialismo leninista, conhecido localmente por “socialismo esquemático”. A propaganda soviética era constante, na rádio, na televisão, nos jornais. A solidariedade socialista tinha transformado o mais progressivo território de toda a África na mais horrorosa das misérias. Os generais do MPLA eram condecorados com a ordem de Lenine, heróis soviéticos, a classe dirigente vivia dos mais corruptos expedientes, tinha o que precisava, de champanhe a “puros”, de caviar a Mercedes. A classe média, que era pouco numerosa, tinha sido aniquilada. Famintos, doentes, desgraçados, eram o que restava. Esplendorosos resultados da infalível receita comunista.
 
O “mais velho” lá estava, como hoje, nas delícias muralhadas do Futungo de Belas, a dirigir os destinos da pátria.
 
Quem isto viu e, hoje, vê o que vê, faca banzo. O “mais velho” inclina-se respeitosamente perante Bento XVI, antigamente representante do ópio do povo, hoje grande líder espiritual dos angolanos e do seu presidente. O “mais velho” discursa sobre a miséria imerecida do seu povo. O mesmo povo que, dantes, era objecto das benesses do socialismo soviético. O “mais velho” discursa contra a corrupção, ele, de quem as más-línguas dizem ser o chefe dela. O mais velho, cuja filha veio a Portugal fundar, com a ajuda do senhor Pinto de Sousa, um banco de que fica accionista, por certo por aplicação das poupanças de uma vida de trabalho e de sacrifício, vai, segundo diz, distribuir com justiça as imensas riquezas de Angola.
 
Tudo isto é muito estranho. Mas tenhamos esperança. Não é o que, por cá, ainda resta a quem resta? Façamos um esforço. Pode ser que, a partir de agora, as coisas melhorem para os angolanos. Pode ser que o homem, uma vez salvaguardado o seu futuro, esteja a falar verdade. Porque não?
Não é o que, à excepção do Bloco de Esquerda, toda a gente deseja? O Bloco, esse, tem desculpa para a sua falta de fé. É que anda tão preocupado em fazer passar a mentira da sua indefectível democraticidade, que vale tudo, até achar que Angola deve ser isolada e continuar como tem estado.
 
23.3.09
 
António Borges de Carvalho

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