O TANGO DOS DANADOS
Assistimos nestes dias a um interessante bailado. Peralvilho Safardana saracoteia-se diante de Beatriz Escada, fazendo oa que pode para chamar a atenção.
PS
A menina dança?
BE
Não, não e não!
BE encolhe-se toda. Não é preciso ser muito esperto para perceber que a moçoila está doidinha por dar uns passes com o pretendente. Este, que sabe da poda, não perde a coragem. Manda de França, expressamente para renovar a corte, um emigrante.
EMIGRANTE
Mas não dança porquê? A menina é tão gira! O Peralvilho, coitado, anda tão cheio de pica por si!
BE
Não…, ai filho, que seca, não, já disse, já disse, já disse!
PS(surgindo da esquerda baixa)
Minha linda moçoila, eu até vou deixar o teu primo casar com o guarda-nocturno, como tu andas a pedir há tanto tempo…
BE
Não me acenes com as tuas promessas, ai, que me pões nervosa!
PS
E olha que o emigrante já disse que, se não danças comigo, terei que ir dançar com a minha Prima Sónia Duarte!
BE
Pois vai. É bem feita. Se quisesses dançar comigo… enfim, tinhas que mudar de vida…
PS
Mas eu mudo, eu mudo, não vá por aí o gato às filhoses!
BE
P’ra já, a resposta continua a ser não!
PS
Veremos…
(e sai, orgulhoso, pela esquerda alta)
Quanto mais a menina, mesmo quando nada lhe perguntam, grita que não e que já disse, mais a malta desconfia que está toda derretida. Ai! Se não fosse umas primas que lá tenho, umas estúpidas que não querem que eu dance, ai como eu dançava…
No bairro, as pessoas interrogam-se. O senhor Pedro Comuta, fulano sabido, emite a sua opinião:
PC
A Beatriz é uma tonta! Vão ver que acaba por se agarrar ao Peralvilho. Não quer outra coisa há muito tempo. Vai é vender caro o tango. Depois de umas bailações, o gajo julga que ganha: faz um namoro com incidência balnear, uma união de facto ou um casamento com comunhão de bens. De uma forma ou de outra, a gaja vai sugá-lo até ao tutano. E ele todo contente! Hi,hi.
Várias personalidades locais, sobretudo as ligadas às marchas populares, previnem a maralha. Paulo Porteiro avisa.
PP
Olhem que isto vai dar bota, ponham-se a pau! O nosso baile é outro. Se ela for outra, mais séria, por exemplo a Carolina Duarte Simões, a ruína não vai ser tão rápida. O Peralvilho vai acabar por me dar razão.
No bairro, o pessoal olha para o baile com a maior desconfiança. Quem ainda tem cabeça para pensar (muitos ou poucos, não se sabe) já percebeu que a desgraça menos desgraçada será ser a Prima Sónia Duarte a escolher com quem dança ou a poder dançar sozinha, como é moda nas modernas boîtes.
A ver vamos.
18.8.09
IRRITADO