DA NACIONAL SUBSERVIÊNCIA
Vejam esta: o Benfica comprou, no Brasil, um tipo qualquer que se chama Ramires. Portuguesíssimo nome. Pois não é que os intelectuais da bola chamam Ràmìrez ao homem? Insuportável castelhanismo. Que diabo, há limites para a subserviência! Deixemo-la pela chamada “hospitalidade portuguesa”: se não for servil, já chega, se o for, já sobra.
E esta: altíssimas figuras da nossa mais correcta intelectualidade estão ao lado dos tipos da bola. Todos os dias ouvimos professores doutores e quejandos perorar na televisão sobre os mídia. Até nos jornais a palavra começa a aparecer escrita desta estranha maneira. Desta vez, o servilismo é de natureza anglo-saxónica. Que se procure pronunciar o melhor possível palavras daquela origem, certo estará. Neste caso, porém, trata-se de uma palavra, mais que de origem latina, latina mesmo: medium (meio) media (meios), em português com o e aberto, médium, média. Passe o plebeísmo da transcrição fonética. A visceral subserviência de certos intelectuais leva-os, no entanto, a dizer mídia, como os ingleses e os americanos. Imperdoável saloiismo! Os tipos da TV, do “Expresso” e tantos mais que se arrogam o direito de dar lições de português a toda a gente, pelos vistos não têm lá em casa, uma alma qualquer que os obrigue a falar com mínimo de propriedade.
Já agora só mais esta: a palavra bus, que a gente fina pronuncia mais ou menos bâss. Ora bus vem do latim omnibus (a todos), forma do plural de omnis (todo), palavra assumida em diversas culturas (a brasileira, a francesa e a anglo-saxónica, por exemplo) com o significado de meio de transporte colectivo, dantes de tracção animal, hoje a motor. No Brasil, a palavra tomou a forma da corruptela ônibus, em França e nos países de língua inglesa a forma truncada bus, naquela pronunciada mais ou menos büss e nestes bâss, todos eles adaptando a palavra à respectiva língua. Só em Portugal a estupidez subserviente e pedante das classes correctas pronuncia bâss, à inglesa,em vez de buch, à boa pátria maneira.
Isto dava para quinhentas páginas, mas fico-me por aqui, que já estou farto.
22.8.08
António Borges de Carvalho