PRODUTIVIDADE
Viram o senhor Pinto de Sousa no túnel do Marão? Qual túnel? Não há túnel nenhum. O que há são as obras iniciais de uma infra-estrutura que talvez venha a estar pronta daqui a três anos.
O que não impede, como é justo e lógico, que o senhor Pinto de Sousa lá tenha ido:
a) Anunciar, em sessão solene na Câmara de Moncos de Cima, que estava a pensar o assunto;
b) Afirmar, em três entrevistas exclusivas a vários órgãos, que se tratava de coisa urgentíssima, que os outros (Guterres e Soares excluídos) tinham deixado para trás, em manifestação da mais radical irresponsabilidade;
c) Anunciar o início do projecto na feira de galinhas de Figueiró das Fossas, perante as forças vivas do distrito;
d) Declarar, num alarde de cultura e de originalidade, que “para cá do Marão mandam os que cá estão”;
e) Lançar a primeira pedra (ou a primeira cavadela) da coisa, perante o embevecido aplauso das populações em delírio;
f) Visitar os trabalhos uma vez por semana, aproveitando sempre a ocasião para vituperar os malefícios da oposição, que não faz propostas, que não tem nada a dizer, etc., e para denunciar as forças demoníacas que, a coberto das trevas, conspiram contra a sua honestíssima pessoa.
A contabilidade destas acções em prol da Pátria é feita num centro de comunicação devidamente computorizado, em que os êxitos de Sua Excelência são medidos em minutos de telejornal. Assim, um túnel que valha menos de 89 minutos e 27 segundos, segundo o software utilizado (elaborado na universidade de Caracas), não é túnel não é nada, ou seja, tecnicamente não tem a produtividade estabelecida por Sua Excelência. Por seu lado, algo que foi anunciado, re-anunciado, tornado a anunciar… etc., embora se não tenha feito e já esteja esquecido, se rendeu duas sessões solenes, um banho de multidão e, pelo menos 19 minutos e 53 segundos de notícias, pode ser considerado como tendo uma produtividade próxima dos 100%.
Poder-se-á, através destes tão modestos exemplos, avaliar, sobretudo admirar, a grande obra de “modernização das estruturas e das mentalidades” que, em boa hora, os nossos bem-amados dirigentes nos prometeram.
28.8.09
António Borges de Carvalho