SALOIOS NO PODER E NA IMPRENSA
De um modo geral, a Europa civilizada (França e Alemanha, por exemplo) prepara-se para uma nova geração de centrais nucleares, certa de que as energias renováveis, à excepção da hídrica, têm ainda um longo caminho a percorrer até que se possa obter delas, a preços sustentáveis e em quantidades úteis, a energia necessária para preencher as necessidades do mundo desenvolvido, de forma a vir a libertá-lo da insegurança estratégica que o petróleo representa. Isto não quer, como é óbvio, dizer que não se desenvolvam e ensaiem, com urgência, fontes energéticas de que o vento e o sol, meninas dos olhos do senhor Pinto de Sousa, são meros exemplos.
As economias emergentes, a Índia e a China, para só falar das maiores, perceberam o problema e estão a entrar muito a sério na produção nuclear, aproveitando as tecnologias que, entretanto, o mundo mais avançado foi desenvolvendo. Até o Irão e a Coreia do Norte, os países mais reaccionários do mundo, tem o seu programa nuclear em curso, e não é certamente a produção de energia o que, nessa matéria, vem preocupando a humanidade.
Parece tudo isto de uma evidência tão óbvia, tão imediata, que se esperaria que, à excepção dos maluquinhos do costume, os governos equacionassem a construção de centrais nucleares. Em Portugal, como sempre à atrasada revelia do razoável, do actual e do evidente, o primeiro-ministro que temos esclareceu, assim que tomou posse pela primeira vez, que “o nuclear não está na agenda do governo”. De acordo com esta inteligente postura, viria o dito a impulsionar, cheio do mais saloio orgulho, as florestas de moinhos de vento e os lagos de painéis que estragam a paisagem e nos esvaziam os bolsos. É sabido que o break even das eólicas e das fotovoltaicas, se alguma vez for atingido, o será à custa de preços de energia incompatíveis com o bolso das pessoas e as necessidades da economia. Mas tal não interessa ao senhor Pinto de Sousa. O que interessa é fazer uns fogachos, dizer à vilanagem que “vamos à frente” que “somos os melhores”, etc. Isto, como é evidente, perante as palminhas condescendentes e o sorriso caridoso da Europa rica: coitadinhos, cada vez se enterram mais, mas, a prazo vão servir-nos de cobaia.
O General Doutor Ramalho Eanes teve o topete de defender o nuclear numa entrevista qualquer, pelo menos em termos de “debate”, que é uma coisa que para pouco serve mas está na moda. O governo, é claro, não ligou meia ao que o Senhor disse.
Mas a porcalhota das ideias está presente em todos os jornais, e com que força! Calcule-se que o suplemento de economia do “Sol” põe o General Doutor Eanes na secção do “frio”, por se ter atrevido a falar no assunto. Diz o semanário que “Portugal é um país livre onde todos podem debater o que quiserem. Mas daí a alinhar nesta tecnologia vai um grande passo atrás. O país está no bom caminho, dando o exemplo ao mundo.”
Aqui temos como, em mentes mais fracas, penetra a estúpida e enganosa propaganda do senhor Pinto de Sousa.
Para conhecimento dos leitores, diga-se que a prosa referida é assinada por um tal Ricardo David Lopes. Um primata da escrita, a evitar a todo o preço.
Com primeiros-ministros tão provincianos como o nosso, com propagandistas tão primários como este Lopes, ainda acabamos por comer moinhos de vento com batatas, se ainda houver batatas, auto-estradas de cabidela, com o nosso sangue, e aeroportos fritos em painéis solares.
Gastar dinheiro para obter electricidade limpa e mais barata, isso nem pensar!
25.10.09
António Borges de Carvalho