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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

Socialismo Constitucional

Manuel Alegre, espécie de aristocrata republicano à francesa, com pontes para inúmeras coisas, mais ou menos acéfalas, à esquerda e à direita, poeta jeitoso e prosador sem graça, tribuno tonitruante e fátuo, revoltou-se contra um fulano que veio propor que se tirasse o socialismo do preâmbulo da Constituição. Para Alegre, o socialismo é uma espécie de referência moral ou, se quisermos, um paradigma, uma “matriz da nossa democracia” a que se não deve fugir.
O assunto merece alguma reflexão.
Demos de barato o facto de a presença do socialismo em sede tão nobre, a todos obrigando, ser, incontornavelmente como à francesa se diz por aí, ou brutal e intoleravelmente, como eu digo, anti-democrático. Mais. É a negação da própria Democracia, declarada ao mais alto nível da superestrutura jurídica do Estado.
Numa altura em que os conceitos de esquerda e de direita estão em crise, talvez seja útil discernir sobre os paradigmas actuais, ou seja, sobre o que está, ideológica e socialmente, em causa nas sociedades do século XXI.
Ao contrário do que a “cultura” oficial e “correcta” não se cansa de propalar, o socialismo não é coisa de esquerda, ou só de esquerda. Bem pelo contrário, o socialismo começa em Lenine, passa por Kim Il Sung, Mao, Fidel e quejandos, mas é também, expressamente, referencial de Hitler e Mussolini e, implicitamente, de Salazar ou Franco. Assume formas mais ou menos moderadas, mais ou menos radicias, mais ou menos híbridas, à esquerda e à direita, umas vezes sob bandeira propriamente socialista, outras sob roupagem diversa, doutrina social da Igreja incluída enquanto reacção aos “desmandos” do individualismo liberal.
O que subjaz ao paradigma é o princípio da supremacia do colectivo sobre o individual. À questão “destina-se o estado a servir as pessoas ou as pessoas a servir o estado?”, o socialismo opta pela segunda, implicando que ao indivíduo (pessoa, cidadão) só será dado ser feliz, ou realizar-se, se o mesmo acontecer à sociedade em que se integra, assim consagrando o axioma do primado do colectivo sobre o individual. Para o socialismo, de esquerda e de direita, a felicidade de cada um é função da felicidade do colectivo, não o contrário, isto é, o sucesso do colectivo afere-se pelas condições de acesso à felicidade de cada um dos seus componentes individuais.
O colectivo é objecto de designações diversas, ou é invocado sob diferentes conceitos: “sociedade”, “classe”, “nação”, “massas”, o que se quiser, segundo os gostos, à esquerda e à direita. Concebendo a liberdade de cada um como coisa que o colectivo lhe outorga, o socialismo retira à liberdade a sua natureza individual, o mesmo fazendo, necessariamente, à responsabilidade.
As consequências civilizacionais desta concepção são gigantescas. O trabalho deixa de ser uma obrigação que cada um tem em relação a si próprio e aos demais, para passar a ser um direito cuja fruição compete à sociedade assegurar. Aquilo que se poderia considerar como conquista, no labor responsável pela felicidade da cada um, passa a ser exigível, e devido, em termos “sociais”. A luta pela melhoria da vida de cada um é substituída por essa coisa estranhíssima e flagrantemente injusta que se chama “estabilidade” laboral. O projecto de vida de cada um, numa sociedade moldada por conceitos socialistas, é arranjar um empregozinho para a vida, aconteça o que acontecer, com progressão automática e evolução da situação individual segundo normas pré-determinadas, sem qualquer relação com as circunstâncias, individuais ou sociais.
Em Portugal, após várias gerações guiadas pelo paradigma socialista, as transferências da responsabilidade individual para uma entidade mais ou menos abstracta, tolhem o desenvolvimento, e são a razão primeira da estagnação em que vegetamos.
A lei socialista destina-se a conferir “direitos”(quantas vezes absurdos e “ingozáveis”), isto é, a consagrar o princípio de que o direito ou as liberdades em geral são pertença da sociedade. Esta “dá-os”, ou faz o favor de os reconhecer. Não são próprios do indivíduo, que pode limitar o seu exercício apenas e tão só para o assegurar, em igualdade de condições, a terceiros e a si próprio, como postula o princípio liberal.
Sendo o socialismo quem os “dá”, também o socialismo os pode tirar. Razão pela qual, em estado puro, ou mais ou menos puro, jamais houve uma experiência socialista que não tenha abolido, pura e simplesmente, a prática totalidade do exercício dos direitos individuais.
Em sociedades como a nossa, em que, apesar da “matriz” de Manuel Alegre, o paradigma liberal está formalmente presente, os estragos e as deformações culturais de muitas décadas de primado do colectivo continuam a anquilosar as pessoas e, por via delas, a sociedade que tal primado se propõe, por caminho errado, favorecer.  
 
A escolha de fundo não é entre o que soe chamar-se esquerda e o que é tido como direita. É entre duas formas opostas de olhar o homem: uma, que o concebe como ele é, pessoa livre e responsável, outra que o vê como gostaria que ele fosse, beneficiário e servidor social.
 
António Borges de Carvalho

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