DAS ASAS DO DINHEIRO, OU DAS GRILHETAS DO SOCIALISMO
Quando o 25 de Abril aconteceu, a população em geral regozijou-se: íamos, finalmente, ser iguais aos outros. Íamos ter Liberdade e liberdades, íamos poder escolher o nosso governo, ter um sistema de justiça sem critérios políticos, etc. Resultado de tudo isto, poderíamos sair da apagada e vil tristeza em que vivíamos, isolados, pobres, emigrantes forçados, etc.
Cedo porém, como é sabido, esta ilusão foi espezinhada. A Liberdade era a das “amplas liberdades” do Cunhal, a justiça era a dos saneamentos políticos, a escolha era limitada porque o socialismo se tinha tornado obrigatório…
É certo que a deriva comunista acabaria por ser estancada, que se estabeleceu um regime de democracia liberal, que, em grande parte, não se concretizaram as pavorosas ameaças do PREC, que se assistiu a um certo esforço de justiça social, que o país tomou algum caminho de melhoria económica, que a abertura proporcionada pelo 25 de Novembro de 1975 foi benéfica para a maioria da população.
Mas o comunismo deixou horrendas sequelas e o socialismo democrático que se lhe seguiu não teve coragem para as arredar da nossa vida colectiva.
Foram, por exemplo, precisos 14 anos para se acabar com a irreversibilidade das nacionalizações, embora, de um ponto de vista formal, tal tivesse sido possível 7 anos antes. Mas o PS - o “socialismo democrático” - teimosamente, não deixou.
Quando hoje se fala de confiança como elemento fundamental para o progresso económico, atribui-se a falta dela a coisas como o “falhanço do capitalismo”, “os malefícios do neo-liberalismo”, e outros chavões tão idiotas como estes.
Esquece-se que a confiança acabou com o PREC e nunca mais foi recuperada. Esquece-se que quem tinha “alguma coisinha de seu” a pôs a salvo, e nunca mais a fez regressar, o que é humano e lógico. Quem pensar de outra forma está a pensar numa espécie que não existe.
Nunca mais, em Portugal, houve dinheiro. Falo, como é óbvio, de dinheiro “a sério”, aquele que é capaz de grandes investimentos, de arriscar na grande inovação e de criar grandes clusters de emprego. Desconfio que o dinheiro “a sério” que terá sido excepção, voltou sob a forma de investimento estrangeiro, de forma a poder, com toda a legitimidade e sem “chatices”, ir embora outra vez.
Entretanto, o Estado centuplicou estupidamente as formas de controlo e as peias burocráticas da ditadura, obtendo, de través, uma coisa que só é comparável ao condicionamento de Estado Novo.
O resultado é que os portugueses, cada vez mais, hesitam em investir, o dinheiro recusa-se a regressar e a situação é tal que, cúmulo dos cúmulos, o investimento estrangeiro só se arrisca a vir até cá mediante uma diversificada gama de privilégios, em violenta entorse da concorrência que se proclama proteger. Dir-se-á, com razão, que também há portugueses a beneficiar dos privilégios do Estado. Seria interessante esmiuçar até que ponto, para além dos visíveis titulares ou testas de ferro, tais portugueses são portugueses, ou seja, até que ponto é português o dinheiro que, dizem, aplicarão em Portugal, se é que aplicam algum para além do que gastam em papéis e em favores.
A Lei é tão complicada que parece ter sido feita para não ser aplicada, ou para ser ultrapassada. Assim, quem souber “mexer-se”, passa ao lado, ou por cima dela. Assim se fomenta a corrupção, coisa tão virulentamente condenada e tão claramente incentivada pelos “condicionamentos” que o “socialismo democrático” criou.
Trata-se, no fundo, de características fulcrais do terceiro mundo: onde a Lei não serve, legisla-se por despacho. O despacho é o supra-sumo do discricionário, o contrário do "estado de direito".
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Vem isto a propósito de uma interessante notícia há dias publicitada na imprensa: na primeira metade de 2009, saíram de Portugal, em plena legalidade, nada menos de nove mil milhões de euros. O que quer dizer que, enquanto Portugal for “criando” algum dinheiro, ele continuará a ir-se embora. Por causa da “crise internacional”? Não brinquemos com coisas sérias, como faz o governo. Se a crise está por toda a parte, que interessa pôr o dinheiro noutro lado? O dinheiro não sai porque lá fora não há crise, sai porque os portugueses não têm confiança em Portugal. Sai, porque é mais fácil e mais barato investi-lo além fronteiras do que sujeitá-lo às tropelias do socialismo doméstico. Sai, porque ninguém gosta de pagar impostos sobre impostos sobre impostos. Sai, porque só quem não andou a bater a quarenta portas fechadas para fazer uma coisinha de chacha é que se arrisca a tentar abri-las. Sai, muitas vezes, porque as pessoas não estão para andar de carteira em punho à procura de quem “resolve” os assuntos. E sai, finalmente, porque os homens são homens, tendem a proteger o que é seu e têm toda a legitimidade moral e legal para o fazer.
Como se sai disto? Não sei. Sei que, com esta gente, não vamos lá.
29.10.09
António Borges de Carvalho