BARALHAR OS CONCEITOS
Aqui há dias, com incontido orgulho e indisfarçável júbilo, o jornal ultra socialista “Diário de Notícias”, a toda a largura da primeira página, anunciava que o “Casamento homossexual avança a seguir à tomada de posse do governo”. Debaixo da coisa aparece, sentado e pensativo, o senhor Pinto de Sousa, primeiro-ministro com que a ignorância e a falta de vergonha de muita gente nos brindou.
Na segunda página, em negríssimo destaque, o referido órgão oficioso do Partido Socialista acrescenta que a coisa é a primeira prioridade dos deputados do partido assim que o programa do governo passar.
Ao contrário do que tem sido aldrabófonamente anunciado, a prioridade do governo e dos seus apoiantes não é a crise em que nos meteu, nem o desemprego, nem a saúde, nem a educação, nem sequer o comboio espanhol ou a pista de Alcochete.
Não. O maior problema nacional, o mais urgente, o mais “estruturante”, é, para quem diz governar-nos, alterar a definição de um instituto que é da mesma natureza desde a mais remota antiguidade e que, apesar de muitas e notáveis civilizações terem tolerado práticas homossexuais, jamais deixou de ser exclusivamente aplicável a parcerias heterossexuais, ou seja, a casais propriamente ditos.
Os poucos socialistas que leram alguns livros - o que não é o caso do senhor Pinto de Sousa - devem, provincianamente, ter ficado extasiados com o “Satiricon”. O problema é que não perceberam nada do que leram.
Talvez por mor da sua fatal ignorância, acham que, por uma questão de “direitos humanos”, expressão que não compreendem a não ser como chavão político, os homossexuais se devam “casar”, obtendo para a sua esfera jurídica os mesmos direitos e deveres que aos casais cabem.
Como se fosse possível!
A homossexualidade, permanente ou temporária, passou, ao longo dos tempos modernos, de coisa mais ou menos discreta a “virtude” que se propagandeia. Os propagandistas assumem-se como uma espécie de nova classe social. Os esquerdistas integram-nos, com certeza por isso, na chamada luta de classes. Fazem patéticos e ridículos cortejos, inventam um folclore mais ou menos repugnante, e têm conseguido penetrar na vida política como se a sua circunstância fosse de louvar e não de lamentar, ainda que com a maior das tolerâncias.
Nada disto é gratuito. A “comunidade” organizada propagandeia-se para obter ganhos, alguns dos quais a sociedade civil, tolerante ou enjoada, vai concedendo. A Câmara de Lisboa, por exemplo, deu-lhes uma mansão, com obras de beneficiação e tudo, a fim de que a rapaziada se possa divertir a bom recato e possa organizar devidamente a defesa das suas reivindicações classistas. Há quem diga que a distinta CML até contribui com umas massas para a publicidade.
A coisa foi progredindo até se chegar à fase da conquista do “direito”. Como se o direito igual para todos não implicasse a diferença, ou seja, como se o direito, substancialmente igual, de todos, não implicasse o reconhecimento das diferenças da circunstância de cada um.
O Louça e seus amigos não querem, porém, que a sociedade reconheça, sem penalizar, a diferença homossexual. O Louça e seus amigos - a burguesia média/alta das cidades, ou parte dela - estão-se nas tintas para a diferença que, noutras matérias, acham fundamental reconhecer. Não querem que, a quem vive em comunhão de lar, possam ser reconhecidas as prerrogativas que, por contrato, quem assim viva possa escolher. Não. O Louça e os seus amigos querem que o que é diferente se torne igual, não por ser, de facto, igual, mas por querer abusar do conceito de igualdade, desconhecendo a diferença. Quando convém, é claro.
E é assim que os louças, os pintos de sousa, mais essa coisa paranóica que se chama Juventude Socialista, querem que a sociedade portuguesa, à imagem de outras que o fizeram com catastróficas consequências, mandem às urtigas um conceito secular e fundamental: o de “casamento”.
Nenhuma filosofia do direito subjaz a esta postura. Nenhuma tradição a justifica. Exemplo algum há, na história da civilização, que para aí aponte.
O que subjaz ao “movimento” que os louças apoiam é o mais radical oportunismo político, com o fim óbvio de pôr em causa a Justiça e o Direito como a civilização os conhece.
Da parte do PS, lastimo dizê-lo, mas a prioridade que à coisa atribui é fruto de uma estupidez tão estúpida quanto imaginar se possa.
29.10.09
António Borges de Carvalho