UMA DESGRAÇA NUNCA VEM SÓ
O IRRITADO absteve-se de, a seu tempo, comentar o novo governo do senhor Pinto de Sousa. Desprezá-lo-ia silenciosamente, não fora uma outra “infelizmência” se ter vindo juntar a esta.
Este governo não passa de um remake do anterior, mas mais maximalista, isto é, o senhor Pinto de Sousa deixou ficar os mais duros yes men e correu com os que, ou eram completamente incompetentes (iguais ao chefe), ou não davam garantias de se abster de intervenções idiotas ou inconvenientes. Conseguiu assim, chapeau!, meter-se e aos mais duramente fiéis num bunker tão inexpugnável quanto possível. Depois, ou compôs o ramalhete com inócuos aparatchiks, ou com os chamados “especialistas”, gente que, em governos democráticos, não devia ter lugar. Reunido o material, faltava dar voz ao ideal: foi o que o senhor Pinto de Sousa fez no discurso de posse, vazia arenga inspirada nas verdades do amigo banana.
Os comentadores de serviço são, por seu lado, unânimes em achar que o governo “virou à esquerda”. O IRRITADO não sabe se virou para algum lado, o que sabe é que o senhor Pinto de Sousa e seus apaniguados assobiaram para o ar quando o Doutor Cavaco teve a ousadia de frisar que “ter palavra” é uma coisa preciosa. Ficou assim tudo dito, sabendo quem não for surdo no que a coisa vai dar.
Esta, a primeira desgraça.
A acompanhá-la temos outra talvez ainda maior: os mais visíveis barões do PSD – Machete, em representação dos velhinhos que servem para tudo, o impagável Arnaud, com mandato de Cascais, o craque Relvas Alexandre, vindo de Belém, aquele tipo das europeias de cujo nome já não me lembro, e por aí fora - apareceram a defender em uníssono a candidatura de outro de Sousa, desta vez Rebelo, não Pinto, à chefia do partido. Não aquilatarei, como há quem faça, dos motivos pessoais que levam estas variegadas personalidades a defender ideia tão objectivamente contrária aos interesses do partido e do país.
Rebelo de Sousa tem demonstrado ao longo de uma já longa vida que não é fiel a coisa nenhuma. Há quem diga que nem a si próprio. Já foi a face da direita do PSD, já foi, politicamente, liberal, agora aparece rodeado da ala esquerda, passou a social-democrata, e passará ao que muito bem lhe der na mosca quando achar que lhe convém. Rebelo de Sousa já disse quase tudo e o seu contrário, já intrigou contra este e contra aquele, conforme lhe apeteceu, já andou a reboque do Dr. Sampaio quando isso aos dois convinha, já colaborou activamente, dezenas de vezes, no descrédito do seu próprio partido, já ajudou ao seu derrube, já o ridicularizou com mergulhos no Tejo, já usou os púlpitos que lhe pagam para fazer política contra o PSD, já deu cabo de um contrato de coligação que tinha assinado há dois dias, já, já, já…
É este homem que pessoas tidas por inteligentes defendem para chefiar o PSD, para ir a eleições, para ser Primeiro-Ministro! Alegam que o outro candidato, Passos Coelho, teve um comportamento de garoto durante o consulado da dona Manuela. É verdade. Mas o que foram as garotadas do rapaz, se comparadas com os malefícios do Sousa? Uma brincadeira de inocentes criancinhas. Será que esta gente quer “oficializar”, sem mais disfarces, a “política da intriga e da conspiração, já não dentro do partido, mas no país?
Uma desgraça nunca vem só…
31.10.09
António Borges de Carvalho