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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

Esta Lisboa de Outras Eras

 
I
 
Não jogo golfe nem percebo nada do assunto. Não direi, como Eisenhower, que o golfe é the best way to spoil a nice walk, nem farei críticas a quem o joga. Às vezes ouço uns porreiraços a falar golfês. Não percebo patavina. Confesso que a conversa me provoca uma espécie de condescendência caridosa, coitados, não há nada a fazer, são assim, e pronto.
O golfe é jogado por salsicheiros ingleses e senhores portugueses, matronas holandesas e tias da Lapa. É um desporto democrático. Há até quem diga que o dr. Sampaio começou a pensar o golpe de estado num puting e o decidiu no buraco nove. E que a Alexandra Lencastre deu com os pés ao marido por ele falhar o buraco três. Aleivosias de  malandrins sem sombra de credibilidade. Repito-as aqui, como se compreenderá, para, veementemente, denunciar e condenar a irresponsabilidade da boataria.
Reconheço que o campestre desporto deve ser um bom pretexto para estar com uns amigos, dizer umas piadas, dar umas passeatas e comer um bom almoço no aftermath da refrega. Neste aspecto, até tenho uma certa inveja. Lá para as américas, há uns tipos que ganham triliões com a coisa. Mais inveja tenho. Porque é que não nasci um Tiger Woods qualquer, mulatinho mas podre de bago?
 
Possuído destes péssimos sentimentos, e vindo de Campo de Ourique, passava há dias pelas Torres das Amoreiras, onde trabalhei uma data de anos. Mesmo em frente, a fechar o green do depósito da companhia das águas, lado Nascente, uma construção estranha, nem bonita nem feia nem antes pelo contrário, dois andares de boxes ao jeito cavalar, umas casinhas – a meu ver bares e instalações sanitárias – e, ao longo das margens do herbáceo terreno, umas torres esquisitas, de ferro ou equivalente, aos quadradinhos.
Veio-me à lembrança um velho e excelente companheiro de lutas empresariais, de seu nome Augusto Ramalho Rosa. A despropósito, no meio de uma reunião, num salão que havia no alto da Torre 2, ao olhar o abandono em que estava a cobertura do depósito, Ramalho Rosa disse-me que aquilo era o sítio ideal para um campo de putings(?), ou seja, para uns tipos darem umas cacetadas numas bolinhas, a fim de treinar para outras cacetadas mais ambiciosas. Achei a coisa inteligente, imaginativa, embora não a percebesse lá muito bem.
Anos depois, a ideia aparecia construída. Ainda bem, pensei, há uns tipos que conseguem realizar coisas nesta cidade de pacóvios. E fiquei à espera de ver os porreiraços à porrada às bolinhas, à hora do almoço e depois de sair do escritório.
 
Baldada espera. A coisa construíu-se, ficou prontinha, e nada! Hoje as boxes enferrujam, está tudo porco, a relva abandonada, as torres de ferro para ali, como dedos espetados de gigantes enterrados, a apontar para o espaço sideral. Resta a torreca do Aqueduto, ainda pintada (única torreca pintada, que as outras, fora do infeliz empreendimento, estão ao abandono, por certo vítimas do IPPAR), e pouco mais.
 
Que terá acontecido?
O que aconteceu, minhas senhoras e meus senhores, foi mais uma magnífica demonstração dos resultados da chamada democracia participativa, boutade constitucional de dramáticas consequências.
Passo a explicar:
Os promotores da coisa obtiveram, da companhia das águas, da câmara e das outras quatrocentas e vinte e duas organizações, públicas e privadas, com voto na matéria, as necessárias autorizações. Fizeram aprovar os trezentos e trinta e oito projectos que, naturalmente, são impostos. Obtiveram as respectivas licenças. Construíram a golfosa facility. Sujeitaram-se à oitocentas e setenta e duas vistorias que a lei postula. Tudo nos conformes, as boxes, as torres, as redinhas transparentíssimas que impediam que os passantes levassem como bolinhas no toutiço, os bares, as casas de banho, a casota do porteiro, os buracos, sei lá.
E, no entanto, ao contrário do que diria Galileu, a coisa não se move. Não. Está parada, enferruja, há-de cair um dia sem que ninguém lhe acuda.
Porquê?
Porque, minhas senhoras e meus senhores, houve um abaixo assinado de uns moradores das torres, marqueses e patos-bravos, advogados e cavalheiros de indústria, embaixadores do terceiro mundo e artistas de variedades, comerciantes barrigudos e meninas esterlicadas, banqueiros e empreiteiros, a exigir à câmara o fim da abominável construção, cujas transparentíssimas redes impediriam as vistas do Tejo aos andares de baixo, dos quais talvez se visse, e continuaria a ver-se, uma nesguinha do dito. A câmara cedeu, não sei se de motu próprio se por intermédio de alguma providência cautelar, e lá se foi a alegria dos porreiraços, as cacetadas nas bolinhas, os púcaros no bar…
 
Ficou a cidade com mais uma ruína, tão do agrado da filosofia triunfante, ainda há dias lapidarmente defendida pela dona Helena e pela dona Maria José na SIC Notícias.
As pessoas elegem o Presidente, o Parlamento, mais a câmara, mais a junta. Legitimidade democrática. Legitimidade, mas pouco, que a “democracia” participativa está ali, para infirmar as decisões da outra, a liberal, coisa abominável para muita gente, do doutor Oliveira Salazar à dona Helena e ao camarada Jerónimo.
 
Não se pense, nem por sombras, que a democracia participativa foi uma invenção de esquerdistas para legitimar os desmandos dos sindicatos e das comissões de moradores. Marqueses e patos-bravos, advogados e cavalheiros de indústria, embaixadores do terceiro mundo e artistas de variedades, comerciantes barrigudos e meninas esterlicadas, banqueiros e empreiteiros, são exactamente iguais aos tipos de PC, quando se trata de fazer barulho.
 
O mais grave, minhas senhoras e meus senhores, é que as autoridades, no espírito, diga-se, de inelutáveis princípios constitucionais, cedem a esta gente, mesmo que, depois, venham a ter que pagar aos lesados monumentais indemnizações, saídas do bolso de todos nós, que não moramos nas Amoreiras, não jogamos golfe, nem temos nada a ver com o assunto.
 
II
 
Em tempos havia, em São Pedro de Alcântara, um lindíssimo miradouro, regalo de Lisboetas e turistas, que dele disfrutavam uma vista única sobre a cidade velha.
Aqui há uns anos, não sei porque carga de água, começou a constar que o local estava num estado miserável, que era uma vergonha para todos nós, que precisava de obras de "requalificação", de urgente intervenção das autoridades (julgo que da câmara e do IPPAR) e que blá blá, pó pó, etc.
Bom. Tratei de ir ver a coisa. O jardim estava mal tratado, é verdade, mas há algum jardim bem tratado em Lisboa? As esculturas precisavam de limpeza, mas há, em Lisboa, alguma que o não precise? Alguns bancos de pedra estavam semi-partidos, mas há algum jardim em Lisboa que não tenha bancos partidos? As árvores precisavem de umas podas, mas há alguma árvore em Lisboa que não precise de podas? As sargetas estavam entupidas, mas há alguma sargeta em Lisboa que não esteja entupida? Facto é que a vista se mantinha, que a sombra das árvores lá estava, que a balaustrada, algo ferrugenta, não deixava de dar para as pessoas se encostarem a ver a paisagem, que havia meninos e meninas aos beijinhos nos bancos, turistas a tirar fotografias, uma vendedeira de castanhas no honesto exercício do seu nobre mister, enfim, a coisa funcionava como a generalidade das coisas em Lisboa, isto é, funcionava mal, mas funcionava.
Foi este, garanto, o resultado da minha facts finding trip.
 
Fiquei contente por saber que as mui distintas autoridades se preparavam para "requalificar" o local, dando de barato a justeza da prioridade dada ao assunto.
As obras começaram há cerca de dois anos. Desde logo, verifique-se o extremoso cuidado que as ditas autoridades, sejam elas quem forem, tiveram no planeamento da obra. Diriam os estúpidos como eu que a execução se deveria fazer em duas fases, isto é, que se devia pegar em metade do miradouro, tratá-lo, e depois passar à outra, a fim da não privar as pessoas, a cem por cento, do gozo da coisa. Nem pensar! Puzeram lá um tapume a impedir o acesso, uns contentores a dar cabo do trânsito, e pumba!, vai disto: partiram aquela porcaria toda, escavacaram o que lá havia, e pronto.
 
Uns dois anos depois, lá está o tapume, os contentores, o jardim escavacado, um caos, uma merda. Não sei se as obras pararam por ter sido encontrada nos escombros alguma gravura fugida de Foz-Côa, se deram com as ossadas do Dom Fuas Roupinho, se o empreiteiro se zangou com a amante, se o Sá Fernandes intentou alguma acção popular, se o presidente da câmara se constipou, se quê. O que sei é que ninguém trabalha nas obras há meses e meses, que ninguém pode mais ver as vistas, que a senhora das castanhas assadas foi para o desemprego, que as meninas têm que procurar outro sítio para dar beijinhos aos meninos. Uma desgraça.
 
Olhai, senhores, esta Lisboa de outras eras. Já não há cinco reis, já não há esperas, nem há toiradas reais. Já não há festas, nem seculares procissões, nem populares pregões matinais, que já não voltam mais. Nem há Jardim de São Pedro de Alcântara, nem miradouro, nem banquinhos de jardim, nem beijinhos, nem castanhas assadas. Vá-se lá saber porquê.
 
 
III
 
Ali mesmo ao pé, um machimbombo, que foi amarelo mas agora está submergido em cartazes, debruça-se perigosamente sobre a Calçada da Glória.
Rezam os cartazes qualquer coisa do género "Elevador da Glória", "Gloria funicular", em reparação, "works".
Também deve dizer desculpem a maçada, ou sorry for that, mas isso não me lembro de ter lido. Nem li mais, a coisa chateia-me e chatices já tenho com fartura.
Encantado. Tudo bem. O problema é que o machimbombo está assim há mais de um ano.
Com certeza preocupada com a eventualidade de algum bando de turistas cair de escantilhão pela encosta abaixo, ou prevendo que os tipos das obras do túnel do Rossio se enganem no buraco de modo a aparecer algum combóio da linha de Sintra no cruzamento da rua da Glória, junto ao sex-shop do Paladium, a Carris, sorry pela demora, parou o elevador há que eras, e pronto. Quem quiser que vá a pé, que é bom para a saúde, ou que se deixe de parvoíces, que isso de ir dos Restauradores à Misericórdia em cinco minutos não passa de pura estultícia.
Talvez não tenha razão, e seja de presumir que a reparação do machimbombo se revista de altíssima complicação tecnológica.
Da minha humilde tribuna, e sempre, sempre, numa postura colaborante, pro-activa, prospectiva e positiva (ai o português do sec. XXI!), sugiro que se contacte imediatamente o senhor Bill Gates, ou que se enquadre a coisa nos acordos om o MIT, a fim de obviar às dificuldades científicas com que, por certo, se debatem os engenheiros da Carris.   
 
António Borges de Carvalho

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