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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

DA NATUREZA DE VITAL

 

Há vinte e tal anos, conheci o distinto professor Vital Moreira. Era um académico de Coimbra, cheio de “ciência certa” e opinião absoluta. Quadro do PC, distinguia-se com facilidade num grupo parlamentar onde ainda havia uma maioria “proletária”. Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Vital supria, com mais dois ou três, o primitivismo de uma vida dura de clandestinidade ou de “trabalho” partidário, herdado pelos camaradas.

Estalinista feroz, “crente” vigoroso e fervoroso no dogma soviético, voz tonitruante alicerçada na “fé” dos amanhãs que cantam.

Nem a mais pequena falha, nem uma sombra de desvio “burguês”. Vivia entre os camaradas como um camarada, um intelectual que tinha feito “opção de classe”. Não era um jovem como os que tinham feito loucuras aos vinte anos. Era um homem de trinta e tal, responsável e maduro.

 

A Constituição de 76 funcionava para ele como o garante de uma revolução que o 25 de Novembro tinha interrompido, mas que o “povo”, as “massas”, continuariam, uma barreira intransponível para as forças da “reacção”. Um passo atrás não é mais que a garantia de dois em frente, como diria o camarada Vladimir Ilitch. A revolução é cientificamente inevitável e inevitavelmente triunfadora.

 

Os tempos, porém, mudaram, e Vital com eles. A URSS, gloriosa pátria da Revolução, começou a tremer nos seus alicerces. A burguesia ocidental, o imperialismo, o capitalismo, o senhor Ronaldo Reagan e a dona Margarida Tatcher, funcionavam como cavaleiros do apocalipse para a união universal do proletariado e das suas vanguardas organizadas, como o PC do Vital.

Havia que se aggiornare. Havia que acompanhar os novos ventos da história, que sopravam em inusitada direcção. Esta inevitabilidade traduzia-se, na prática, em mudar o rumo para zonas mais seguras.

Em plena consciência, sempre coerente, Vital abjurou da fé bolchevista e procurou abrigo para as inquietações da sua alma. Após breve hesitação, acoitou-se no PS, acabando por ser, décadas depois, o líder, falhado mas incontestado, da equipa europeia do partido.

 

Tudo isto, usando de cristã boa vontade, se pode compreender. Mas Vital, o contestatário, o impoluto, o sabedor, ultrapassou-se a si mesmo. Transferiu a sua força, a sua verve, a sua pena, e transmudou-se num instrumento cego da propaganda socialista e num defensor quase tresloucado do “chefe”.

Vital usa o mesmo pendor totalitário que o animara na fase de ultramontanismo estalinista, para a defesa e a propaganda acrítica, desmesurada e trauliteira do status quo.

A mesma pessoa, a mesma cabeça, mas ao serviço de outras causas. Causas que, vistas bem as coisas, se resumem numa só: defender, seja como for, à tord ou à raison, a pessoa do chefe, louvar, seja como for, à tord ou à raison, o partido do chefe, atacar, seja como for, à tord ou à raison, os que não gostam do chefe. Mesmo correndo o risco de passar de Vital a Vitalino.

Eis como as mesmas qualidades e os mesmos defeitos podem servir para coisas diferentes.

 

É por isso, por exemplo, que Vital embandeira em arco com a “vitória” do chefe na Comissão de Inquérito, uma vez postos de lado os documentos oficiais e legais que lhe foram postos à disposição. Vital não vê a mais simples das verdades: se o chefe estivesse politicamente inocente seria o primeiro a exigir que as gravações fossem postas ao serviço da Comissão. O alívio que a monstruosa estupidez do Amaral causou nas hostes que Vital defende é de tal ordem que, por si só, prova o medo que delas tinham e as verdades inconvenientes que encerram. Isto para não falar nas desastradas respostas do senhor Pinto de Sousa à Comissão, documento escrito que, sem mais considerações, prova, ou deveria provar, que mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo.

 

Vital pisa, partidarite oblige, a sua própria formação jurídica, valendo-se da disposição constitucional que garante a confidencialidade das comunicações pessoais, esquecendo-se que foi o poder judicial quem fez legitimamente as escutas, que legitimamente as enviou ao parlamento e que as comissões parlamentares de inquérito têm o legítimo e “judicial” poder de as conhecer e sobre elas opinar.

Na senda dos “argumentos” do chefe, para Vital as comissões parlamentares servem “puros propósitos de perseguição política ao primeiro-ministro”. Já não se trata das “forças ocultas” que o primitivismo do chefe inventou. Como as “forças” em causa são tudo menos ocultas, há que dizer que se trata de uma “coligação do PSD com a extrema-esquerda parlamentar, com o fim de “flagelar e fragilizar” o governo, num “propósito que não é sério”.

 

Não vale a pena esmiuçar os escritos de Vital a este respeito, o que daria pano para mangas. Não o merece, de tal forma procede de pouco honesta parcialidade.

Vale a pena, sim, verificar que quem tem uma mentalidade totalitária, a usa sem critério nem pudor.

 

É a sua natureza.

 

26.5.10

 

António Borges de Carvalho

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