ANTÓNIO BARRETO
Conheci o doutor António Barreto em 1975, era ele um jovem entusiasta socialista em campanha eleitoral em Trás-os-Montes. Conheci dele os tios, Gramacho e Taborda, dois indefectíveis monárquicos. Conheci a avó, uma senhora à antiga, que já tinha ficado viúva três vezes e dominava os filhos como se fossem rapazinhos.
Depois, vi-o como Ministro da Agricultura. Assisti, como todos os que já não são novos, às vicissitudes de “lei Barreto”. Fisicamente, nunca mais o vi. Mas, como toda a gente, “vi” a sua carreira académica, o seu afastamento do PS, os seus magníficos programas na televisão, a sua independência intelectual, a sua honestidade pensante. Admirei as suas intervenções nos jornais e o seu portal sobre nós, obra de extraordinário valor. Fiquei passado de tristeza quando o vi apoiar o Sá Fernandes.
É um Homem admirável.
Vi-o, vimo-lo agora, a prestar homenagem aos combatentes no Dez de Junho oficial. Pela primeira vez e pela sua mão, a nossa indigna e tristíssima República “cedia” a contemplar os que sofreram a guerra em nome de Portugal e da sua indigna e teimosíssima República.
Um pequeno senão: o doutor Barreto, sendo um refractário a tal guerra, deveria, a meu ver, retratar-se, pedir desculpa ao soldado desconhecido que foi para a guerra e que até pode lá ter deixado a vida em vez dele. Não poucos foram os que lá bateram com os costados sem concordar com tal guerra. Mas foram porque era a sua vez, foram para que outros não pagassem o preço da sua fuga.
Sem diminuir Barreto, acho que deveria pensar duas vezes e completar o nobre gesto da homenagem que motivou com um pedido de desculpas aos que não foram, mas poderiam ter sido, seus companheiros de armas. E ao desconhecido que lá esteve em seu lugar.
14.6.10
António Borges de Carvalho