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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

UMA CENA LAMENTÁVEL

 

Ontem, a SIC Notícias fez uma reportagem sobre a macacada de Foz-Côa. O povo aos gritos, que lhe deram cabo da vida, que não acredita em nenhuma das iniciativas do governo, que tudo vai ser o maior dos flops, que não há estradas, que isto e que aquilo, numa revolta tão indignada quanto inútil. As autarquias a protestar, num esbracejar inconsequente e patético. A obra do governo, um abjecto e monstruoso mamarracho, numa paisagem lunar, horrível.

 

Há quinze anos, o brilhante governo do engenheiro Guterres mandou, como estará na memória de toda a gente, parar as obras de uma barragem em construção no local, por causa de uns bonecos ditos paleolíticos ou coisa que o valha, encontrados nas respectivas escavações.

Na senda da filosofia de então, desgraçadamente a mesma dos nossos dias, mais milhão menos milhão era a mesma coisa. E lá ficaram, deitados à lixeira da “cultura”, uns dez milhões de contos, o que, falando em euros, é só multiplicar por cinco.

  

À altura, o autor destas linhas, movido pela curiosidade e pela indignação, foi ao local observar o que se passava.

Viu o colossal buraco já aberto para a barragem, viu as monstruosas máquinas paradas ao sol, viu a grandeza do empreendimento abandonado, intuiu o que deixava de se produzir em “energias renováveis”, grande descoberta dos nossos dias, ainda que já conhecida nos tempos da outra senhora.

Ouviu um homem dizer que o avô, moleiro, fazia bonecos nas pedras quando não havia vento – exagero! –, ouviu a dona de uma tasca dizer que quando lá entrasse “aquela gorda” (a chefe dos arqueólogos) lhe poria arsénico no bife, e outras observações populares igualmente satisfeitas com o andar dos acontecimentos.

Ouviu, mais tarde, o engenheiro propriamente dito Mira Amaral defender a continuação da construção da barragem, oferendo aos arqueólogos a possibilidade técnica de obter, através de cortes nas rochas, os exemplares necessários à conservação museológica do que mais representativo fosse da arte dos pitecantropos locais. Ouviu, por outro lado as “justificações” do governo socialista: o património, a riqueza da descoberta, o respeito internacional a obter, as monumentais receitas que a “gestão” da coisa permitiria, etc., etc., blábláblá.

Pensou: grande bambochata, o povo local sem emprego, a região sem energia, os milhões da barragem no lixo, uma data de “gordas” ao ataque, despesas monumentais, directores, assessores, monitores, investigadores, professores, adjuntos, automóveis, motoristas, construtores, chefes, subchefes, lacaios, funcionários e trintanários, tudo minha gente a ganhar a vidinha, o Estado a gastar fortunas, a coisa a nunca, jamais, em tempo algum vir a retornar um chavo, um encargo monstruoso para todos nós, uma desgraça sem nome mas com um preço colossal.

 

Quinze anos passaram. Não sei quantos megawates estaria a barragem a produzir há para aí dez anos. Sei que a “cultura” levou quinze anos a “instalar-se”. Ninguém sabe quantos milhões escorreram pelo caminho.

Ontem, a seguir à “peça” da SIC que acima refiro, apareceu, bonequíssima, sorridentíssima, simpatiquíssima, a dona Canavilhas, ilustrérrima ministra da cultura, a gabar-se de mais uma grande obra do socialismo nacional: o museu de Foz-Côa - o tal mamarracho que a SIC já tinha mostrado. Disto, sabe-se o preço: 18 milhões de euros. Sem uma derrapagem. Tudo fiscalizado pelo IGESPAR, com altíssima competência, noção de serviço e patriotismo.

A senhora, com copiosa distribuição de bem ensaiados sorrisinhos, espraiou-se em afirmações acerca da excelência da iniciativa ao mesmo tempo que ia arranjando o cabelo e dizendo “claramente” pelo menos 22 vezes.

Claramente, a coisa custou dezoito milhões.

Claramente, não há estradas, mas vai haver, diz ela.

Claramente, vai haver um exemplar “modelo de gestão”, que ainda não se sabe como vai funcionar, mas que, garante a Cavilhas, será sustentado em exclusivo com dinheiros públicos.

Claramente, os gastos a suportar pelo Estado (95%) e pelas autarquias (5%) não serão orçamentados nas contas públicas, uma vez que, claramente, serão entregues a uma empresa de direito privado e dinheiro público.

Claramente, o museu não vai conter nada do património arqueológico, que fica onde está, para que as pessoas possam andar aos tombos pelos pedregulhos, atrás de um guia.

Claramente, o museu será um centro de interpretação, não um sítio onde se possa ver a lítica bonecada. Tão claramente que vai abrir como uma exposição de… “gravura contemporânea”!

 

Raramente se vê uma pessoa que, com tanta calma e tantos sorrisos, meta os dedos pelos olhos dentro de terceiros.

Patético? Talvez. De certeza certezinha, patético é que, com parangonas de “cultura”, se deite, com estas porcarias, mais uma data de milhões pela borda fora.

A “empresa”, como é de timbre, não vai facturar para pagar as despesas. Mas estas continuarão a correr e a ser cobradas a todos nós, como já pagámos, sem saber (o IRRITADO calculava), estes últimos quinze anos de ineficácia, preguiça, de falta de respeito e de demagogia pseudo-cultural.

Será verdade que os fundos da UE ajudaram (quanto?), legítimo sendo perguntar se não poderiam ter aplicação mais “produtiva”.

 

29.7.10

 

António Borges de Carvalho

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