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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

ROMPER, ROMPER!

 

Ao aproximar-se data em que faz 30 anos que Sá Carneiro morreu, é capaz de valer a pena pensar um bocadinho sobre o que, com ele, tivemos, e sobre o que, sem ele, hoje temos.

 

 *

Sá Carneiro comandou uma rotura. Rotura com o comunismo institucional, rotura com o socialismo dito democrático, rotura com um passado recente feito de tentativas totalitárias e de tibieza política nas subsequentes “soluções”.

Afastada a aterradora ameaça do sovietismo, importava dar sentido de liberdade à democracia, manietada que continuava por uma superestrutura eivada de preconceitos e de complexos.

Sá Carneiro não contemporizava, nem com o comunismo nem com o socialismo, nem com a continuidade, com vestes democráticas, da ordem instituída, inspirada pelo bolchevismo.

Por isso que tenha decidido e comandado o movimento libertador da AD, que tenha apostado na criação de uma sociedade sem garrotes estatais, coisa a que, durante muitas décadas, com um sinal ou com outro, a sociedade portuguesa se habituara.

Seria trabalho para uma geração. Mas era preciso começá-lo quanto antes.

Batido por ventos e marés, traído por até aí insuspeitas figuras do seu próprio partido, peado por problemas de saúde, Sá Carneiro não transigiu, não tergiversou, não desistiu.

Pouco mais de um ano depois de chegar ao poder, no auge de mais uma rotura, embrenhado na luta contra a continuidade socialista, bem ou mal corporizada pelo General Eanes, Sá Carneiro era assassinado. Ou era vítima de acidente - para quem em tal queira acreditar.

 

No princípio da AD, quando o movimento de apoio popular era já gigantesco, lembro-me de descer a Avenida da Liberdade com ele, na primeira grande manifestação de rua. À frente, um grupo de Zés-Pereira ribombava tambores. O ambiente era de exaltação, de júbilo, de esperança.

Junto de mim, Snu estava inquieta.

Lembro-me, como se fosse ontem, de lhe ter perguntado a razão do seu ar aflito. Sabe, disse ela, estes tambores, esta multidão, em vez de me alegrar, traz-me um cheiro a tragédia. Tenho a sensação de marchar, não para o triunfo, o futuro, mas para o cadafalso, o fim.

A minha juventude entusiástica respondeu com uma ironia qualquer. Só mais tarde viria a compreender a terrível premonição.

 

* 

Nos tristes dias que agora vivemos, um sem número de sabichonas vozes dedica-se ao fabrico de mezinhas para resolver os nossos problemas.

Ele é a “grande coligação”, ele é o “bloco central”, ele é o “acordo parlamentar”, o “pacto de regime”, o diabo a quatro.

 

Mais uma vez a resposta adequada ao estado em que estabilidade quer dizer crise - a única coisa estável que por cá temos - não é a das sabichonas vozes que se recreiam com cenários, que congeminam soluções. Soluções para quê? Para dar ainda mais continuidade a todas as crises em que estamos mergulhados? Para manter os mesmos actores, ainda que assessorados por novos? Para mudar algumas moscas em vez de limpar a casa?

 

Não. Não é disso que Portugal precisa. Precisa de rasgar, romper o colete-de-forças que o manieta, colete que a III República criou e do qual acabou por nunca se livrar, colete servido por políticos que, ao contrário de Sá Carneiro, se revêem, como Marcelo Caetano, numa espécie de “evolução na continuidade”.

Quem será capaz de tal rotura? Quem poderá ter a força moral, a tenacidade, a coragem, a temeridade de Sá Carneiro? Quem será capaz de denunciar o socialismo em todas as suas formas, até na sua forma “cristã”, mesmo que para isso tenha que assumir a sua própria tragédia?

 

Eis a pergunta que devíamos fazer, em vez de andar à procura de bengalas para estabilizar a desgraça.

 

16.11.10

 

António Borges de Carvalho

7 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Filipe Bastos 19.11.2010

    Caro Manuel,

    Já que o Irritado (até agora) não me respondeu, pode dizer-me o que pensa do conteúdo deste blog:

    http://ofimdademocracia.blogspot.com

    Grato,
    FB
  • Sem imagem de perfil

    ManuelB 20.11.2010

    Caro Filipe,

    O artigo é muito interessante. Não traz enormes novidades mas tem o grande mérito de relacionar de uma forma diferente e inteligente factos conhecidos que a esta nova luz corroboram aquilo que todos (excepto aqueles a quem convém negar a evidência) sabem há muito: que Camarate não foi acidente.

    Foi uma “coincidência” que deu jeito a muita gente, desde os americanos ao MFA e a Soares, esse lacaio de Carlucci, em quem eles apostaram precisamente porque por dinheiro o homem faz tudo o que se lhe mandar, bem ao arrepio de Sá Carneiro.

    Na noite em que o avião caiu, vestido de luto, Freitas jurou descobrir toda a verdade, sem rodeios. Como ele é um homem de palavra, é só esperar mais uns tempos…

    Um abraço amigo do
    Manuel
  • Sem imagem de perfil

    Filipe Bastos 21.11.2010

    Caro Manuel,

    Se a morte de Sá Carneiro deu jeito a tanta gente, não deu também a certa facção do próprio PSD?

    Como sugere o artigo, não foi Cavaco cúmplice do atentado, por omissão, e não foi um dos principais beneficiados, senão o maior - pelo desaparecimento do líder natural do partido? Sá Carneiro era a força motriz do PSD, tão respeitado quanto contestado, e era sobretudo imprevisível, difícil de controlar. Já Cavaco...

    O que teria sido a carreira política de Cavaco, sem o seu assassinato? Nunca saberemos.

    Uma coisa parece certa: em toda esta história, tão mal contada, é impossível olhar para Cavaco à mesma luz.

    E outra ainda: vendo o percurso de Sá Carneiro, dá certa vontade de rir, ver a submissão ritual e zelosa de certa ortodoxia do partido, à sua memória. Como se Sá Carneiro fosse o elo condutor do PSD, o seu redentor e conciliador.

    Na verdade, ele teria as suas ideias para o país, mas foi tudo menos conciliador: como o Irritado (bem) escreveu, a sua divisa seria "Romper, Romper!"... exactamente o oposto, do PSD que tivemos depois dele.

    Não concorda?

    Um abraço,
    FB
  • Sem imagem de perfil

    ManuelB 22.11.2010

    Caro Filipe,

    No que respeita a este assunto só posso falar pela rama, como quase toda a gente que fala dele.
    Os que sabem a sério sobre a matéria, são precisamente esses que estão calados.

    É um pouco como o que me sucedeu este fim-de-semana, ao entrar num café de uma aldeia, com meia dúzia de casas, perdida no Alentejo.
    Um eleitor ventripotente, um tanto oleoso, de palito na boca, atendia ao balcão.
    Como na televisão estavam a transmitir a cimeira da OTAN, tive ocasião de observar um taberneiro a dissertar de cátedra sobre geoestratégia e outros assuntos militares só acessíveis a generais - e taberneiros "de esquerda".

    Com outros contornos, não é nada que não se veja por todo o lado, até mesmo aqui. E quanto mais inscientes – a ponto de desconhecerem a sua própria ignorância – mais afoitos a alvitrar.

    Voltando ao assunto, cá no meu fraco entender, se Cavaco ganhou com a morte de Sá Carneiro, tenho as maiores dúvidas que houvesse participado nela, nem por omissão.
    Do que me lembro, foi o grupo de Santana e Marcelo quem lançou Cavaco, que era um apagado ministro sem a menor projecção política.

    Daquilo que me lembro também, Pinto Balsemão foi um dos maiores perseguidores de Augusto Cid, que lutou quanto pôde contra a tese de acidente.
    O facto de Balsemão pertencer ao grupo de Bilderberg, de que Kissinger também é “sócio”, isso sim, já pode explicar alguma coisa.

    Para mim, acho essas “altas manobras” muito acima da capacidade e conhecimentos de Cavaco.

    Quanto a se ter transformado Sá Carneiro na “santinha da Ladeira”, é um fenómeno muito indígena, para consumo das massas com carências afectivas: Delgado e Catarina Eufémia são só dois exemplos.

    Sá Carneiro tinha os seus atritos com o partido exactamente por se opor aos tais “barões” que não querem saber do partido para nada, menos ainda do País.
    E em política (ao baixo nível que por cá se pratica) ou se transige com tudo, desde princípios, meios e fins – ou então mais vale retirar-se.
    Quando isso não acontece, é-se “retirado”.

    Finalmente, repugna ver homúnculos moralmente mirrados menoscabar o seu nome, ainda que seja um espectáculo tão antigo – mas não menos ascoroso por isso – como os ratos rstejando por entre as campas do cemitério.

    Um abraço amigo do

    Manuel
  • Sem imagem de perfil

    XXI 22.11.2010

    A minha vénia aos os seus comentários, que é um gosto ler.
  • Sem imagem de perfil

    ManuelB 23.11.2010

    Caro XXI,

    Muito obrigado pelas suas palavras.
    Uma vénia para si também, este lado do monitor e via satélite.

    Manuel
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