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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

COISAS DA VIDA E DA MORTE

 

Uma multidão de jornalistas, comentadores, psicólogos, analistas, políticos das mais variadas tendência, senhoras e senhores, meninos e meninas, se tem pronunciado, indignada, sobre a morte solitária de uma senhora de avançada idade, há nove anos, sem que ninguém tenha dado por isso. Ela, o cão, talvez o gato e o periquito.

É unânime a condenação desta sociedade “individualista”, que abandona os velhotes à sua solidão e à sua sorte.

E, no entanto, o caso tem pouco de anormal. A senhora vivia só, teria poucos parentes, dava-se com a vizinha do lado e era normalmente considerada por quem a conhecia lá na rua. Teria meios de sobrevivência, casa própria e uma pequena pensão. Não teria doença especial, para além dos inúmeros achaques que a idade trás a toda a gente. Terá morrido de repente, quando lidava na cozinha. Paragem cardíaca, ou coisa que o valha. A autópsia não indicou especiais sintomas de sofrimento ou violência.

Nesta ordem de ideias, parece que a pobre senhora se despediu da vida sem grandes problemas. Um caso triste, como a morte é sempre, mas dentro de uma aceitável normalidade.

 

Bate o ponto nos nove anos de solidão do cadáver, coisa não lhe terá causado incómodo de maior.

 

A vizinha foi não sei quantas vezes à Guarda Republicana reportar o estranho desaparecimento. Um primo recorreu às autoridades judicias mais de dez vezes.

A Guarda Republicana borrifou no assunto. As autoridades judiciais fizeram o mesmo.

Ninguém quis acreditar na história, mesmo sendo evidente que a senhora há nove anos não levantava a pensão, quiçá a sua única fonte de subsistência. Não é preciso mais que 0,2 de QI para perceber que quem vive da pensão não prescinde dela, a não ser que tenha morrido. Mas riu-se a Guarda, borrifou-se a "justiça".

Só as finanças se não borrifaram nem fizeram troça. Como a senhora lhes devia a astronómica soma de 1.500 euros, trataram de lhe penhorar o andarzinho. Nunca fizeram a mais pequena diligência para a encontrar. Ter-lhe-ão mandado umas notificações, daquelas que nem um vivo entende, quanto mais um morto. Depois, diligentes, as finanças leiloaram-lhe a propriedade por 30.000 euros. Que se saiba não fizeram o mais pequeno movimento, sequer para devolver as sobras (28.500 euros!) à sua proprietária. Terão ficado com a massa, a fim de que o senhor primeiro-ministro pudesse gabar-se do aumento da receita fiscal. Para as finanças o que havia a fazer era entregar o apartamento ao seu novo feliz proprietário. Para isso já deve ter havido alguma autoridade judicial a autorizar que se arrombasse a porta, isto se as finanças (ainda) não o puderem fazer do motu próprio.

 

No fim da história, a multidão de opinantes revolta-se contra a sociedade, que não é “solidária”, que condena as pessoas ao isolamento, que é egoísta e malevolente!

 

Quanto aos tipos da Guarda Republicana, nada. Ainda nenhum sargento, nenhum capitão, nenhum general mandou prender os responsáveis.

Os tipos da “justiça” nada fizeram para dar um porradão monumental aos que negaram auxílio a quem, fundamentadamente, o pediu.

Os tipos das finanças, esses, presume-se, receberão um prémio por ter cobrado uma dívida com tanto zelo, tamanha eficácia e tão formidável competência.

 *

Não passarão nove anos até que os credores venham à procura de Portugal, país em fase de desaparecimento, como as finanças foram a casa da desaparecida velhinha.

Na certeza porém que, como os culpados do caso da pobre senhora, o senhor Pinto se Sousa já estará longe daqui, em merecido, inocente e bem pago refrigério.  

 

13.2.11

 

António Borges de Carvalho

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