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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

CARTA DE ATENAS

 

No merecido gozo do que resta de um passado cujo principal defeito é já ter passado, aqui está o IRRITADO em Atenas, a convite de velhos companheiros que, por amizade ou ilusão, são capazes de pensar que as arengas do autor podem ter algum efeito na talvez impossível solução da pessegada em que estão metidos.

O autor sente-se um bocado grego. Não, não é por ser português e fazer, como eles, parte dos PIGS.

Os gregos são como os portugueses. Foram o que foram, mas já não são nada do que foram. Berço da democracia, da filosofia, da estatuária, da arquitectura, da tragédia, etc., hoje tudo cinzas perdidas na poeira anárquica desta horrível cidade.

O que foram de nada lhes vale, e está certo que de nada lhes valha.

Como nós, que também fomos o que fomos - sem gozar sequer do universal conhecimento e reconhecimento de que os gregos gozam - e que tendemos a achar que, por termos sido, somos.

Substituímos o génio das descobertas pelo Mourinho, as grandezas do império pelo CR7 e pelo fado, este arrastado na lama em Bali perante a alegria alarve e pacóvia de uns excursionistas.

Como os gregos, nem sequer sabemos se somos os herdeiros genéticos dos que foram gente, tal foi a misturada que por cá, como por lá, entrou em antigas veias.

 

Digamos que o passado serve de motivo de orgulho, de estudo, de contemplação, mas não vale um caracol quando se trata de resolver problemas do presente. Isto apesar de gregos e portugueses pareceram ter a ilusão, ou a sensação, que podem pôr o que fizeram no prato da balança do que têm a fazer.

Há pessoas com quem se passa um fenómeno parecido. Fulanos que tiveram importância há décadas, por um momento que fosse, e se acham no direito de usar o feito passado para justificar a estupidez de um presente que deviam ter o bem senso de esconder. Gente desta, porém, tem a bênção da classe dominante, leia-se dos media. Como os excursionistas do fado, podem desbocar-se como entenderem. Terão sempre à porta, solícitos, servis e oportunistas, os vendedores de “informação”.

 

É verdade que, salvo poucas excepções, ninguém gosta de morrer. Difícil é perceber que se está morto em vida e querer usar o que já se não é como ainda se fosse. Não é mau ter passado, mau é achar que o passado pode ser usado como tal, ou que a autoridade que o que fez deu a cada um não acaba quando se acabou de o fazer. As pessoas que se demitiram da vida, ou não são capazes, ou não querem fazer outra coisa que não seja remexer no passado à procura de autoridade moral, melhor fariam se encontrassem outras missões, a fim de continuar vivas.

 

Para quê estas filosofias? Não sei.

 

Para dizer alguma coisa, conclua-se que estamos no “Rinoceronte” do Ionesco. Lá fora, ouve-se o tropel de um rinoceronte, de dois, de vinte, de milhares de rinocerontes. Na cena resiste-se. Rinocerontes, nós? Nunca! Aos poucos, ora um ora outro se vão entregando ao tropel. Até que o herói fica só. Só, e condenado.

Aos gregos, não valeu Aristóteles, nem Burke aos irlandeses, nem a nós o Gama. Aos italianos de nada valerá Galileu, nem aos castelhanos Cortez, nem os Habsburg vão valer aos austríacos ou os Orange aos holandeses. O duque de Brabante não virá em socorro dos belgas, nem o Hugo dos franceses.

E assim, por aí fora.

Até que, um dia, a dona Ângela, que é dura de ouvido e de bestunto, perceba que de nada lhe vão servir Goethe ou Beethoven ou Marx e que está a matar a galinha dos ovos de ouro… na estulta pretensão de conservar os que a galinha já pôs.

 

Todos somos culpados, todos estamos inocentes. O problema é que, se queremos deixar de ser rinocerontes, temos de começar por sê-lo. Todos.

 

30.11.11

 

António Borges de Carvalho

2 comentários

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    ManuelB 01.12.2011

    (continuação)

    O estranho - e desalentador - de todo este jogo de espelhos do presente, com mais de muitos mil reflexos entre todos eles, de modo a não nos deixarem percepcionar a realidade, é que tudo isto era previsível no futuro, porque estava mais que visto no passado.
    E nem sequer recente, porque infelizmente cíclico, quase até onde a crónica o regista, ainda que com os contornos diferentes no acessório, o que sempre veio permitir que o essencial se repetisse.

    O desassossego europeu vem desde o fim do império de Carlos Magno em que a sua “fatia central” deixou uma Alemanha (e Itália) feudal, sem identificação nacional, feitas de centenas de principados, que acordou estremunhada no fim do séc. XIX, atrasada na dinâmica industrial e colonial, e para se reunir em si mesma recorreu ao exacerbado nacionalismo que provocou duas guerras mundiais e nos está a empurrar para uma terceira.

    Quando os alemães olham para os seus próprios interesses, à frente de mais nada que isso, dá sempre mau resultado.
    De uma forma geral, são laboriosos, bons trabalhadores, mas não muito inteligentes (do Mein Kampf, “Que sorte para os governantes que as multidões não pensem!”), sobretudo insensíveis entre si e para os outros povos.

    Numa coisa discordo do Irritado: os gregos já têm muito pouco de gregos, como nós vamos tendo pouco de portugueses, uma vez que estamos em acelerada extinção.
    Uma minha amiga esteve 3 semanas no hospital, numa enfermaria de 4 camas numa maternidade, e sempre que fui visitar vi novas caras nas outras camas: brasileiras, eslavas, ciganas, pretas, indianas (algumas nem sabiam falar português), tudo a custo zero para elas, e as criancinhas iam chegando, mais ou menos nessa proporção: 3 estrangeiras e uma portuguesa.

    Da mesma forma a Grécia tem macedónios, turcos, o que quiserem, mas poucos gregos.
    Como está a suceder em toda a Europa, preocupada mais com estupidezes como abortos subsidiados (menos população), os maricas em “casar” (menos população) ou o tamanho da fruta ser normalizado, e mais mil parvoíces, de que esta do fado é o mais recente e triste exemplo.
    Fosse património material (para o Carlos do Carmo, o “capachinho vermelho”, até é), já teríamos um ministro do Fado, com a missão de vendê-lo ao desbarato.

    Ainda há uns dias falava com alguém sobre o BCP e dizia que era um caso típico de “no dia em que uma árvore deixa de crescer, começa a morrer”, e esse dia ninguém dele se apercebe, senão quando é tarde de mais, quando a árvore tomba, que foi o que aconteceu com o banco – e com o País.
    Tudo a rir e a foliar, e afinal já estavam todos mortos, sem o saberem.

    Na Europa, talvez esse dia tenha sucedido quando a Alemanha e França desrespeitaram as normas de contenção que elas mesmo haviam criado, mas não lhes convinha respeitar, e por cá a Manuela Ferreira Leite bem amargou com o caso, por querer cumprir com o limite do défice, que tanto irou os socialistas, agora falhos dessa memória – como já se estão a mostrar em relação ao que se passou há meses.

    Talvez o têxtil cá do sítio, entretido nos últimos anos (qual Penélope da Odisseia – só que em mais ignorante e descortês – tricotando o manto à luz do dia, para o desfazer a coberto da noite) haja já entendido como o menino-de-oiro socialista não passou de um perigoso louco, um aparolado caixeiro-viajante que quis controlar o Estado com o partido, uma espécie de Otelo do MFA que teve mais tempo para fazer mais estragos.

    São muito democratas, mas depois das eleições terem ditado o seu veredicto, vão para a rua “votar com a voz”, como se de nada tivesse servido as verdadeiras, porque juntar um rebanho de manifestantes, a provocar a polícia perante a televisão, para que não haja hipótese de levar uma merecida cacetada no bestunto – afinal é ali que mora o pouco entendimento de que fruem – tudo isso é fácil de fazer, para obstar a que se construa.

    Enchem a boca com a palavra “democracia” exactamente porque não acreditam nela ne a respeitam, senão quando lhes convém, e servem-se dessa palavra como os falsários do dinheiro contrafeito, para enganar os outros.

    (para acabar)
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