ESTROFES DA DESGRAÇA
... Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma núvem que os ares escurece
Sobre nossas cabeças aparece.
Tão temerosa vinha, e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo.
Bramindo, o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
Se me não falha a memória, é assim que o Vate abre o episódio do Adamastor.
Glosando, é esse grande medo que nos avassala ao ver surgir por todos os lados exércitos de gradas figuras da nossa praça precipitando-se com cargas de cavalaria de opinião, confiantes, corajosos, inteligentes, cultos e doutorais, e abatendo-se sobre os descuidados que, na cortadora proa das suas casas, se inquietam sobre o que aí vem, a tal núvem que os ares escurece...
Bramindo, os negros opinadores desdobram-se em cenários de desgraça, crises políticas, pancadaria, loas à sacrossanta (para o PC e o BE), ou santa (para o PS) Constituição - ou ao que resta de tralha programática nela inserida em tempos que, felizmente, já lá vão - que, apesar de paralítica e paralisante, o PS insiste em manter como arma de arremesso político.
A única coisa verdadeiramente importante que o PR disse, mas que é sistematicamente esquecida pelo negro mar dos artistas convidados, foi o apelo à concertação, isto é, à colaboração do PS, com diálogo, propostas e abertura democrática. Uma ilusão. O PS, temeroso do bando de tarados que por lá viceja (o Vitalino e o seu séquito de socratistas, as maluquinhas tipo Isabel Moreira ou Ana Gomes, etc.), completamente incapaz de outra política que não seja a do confronto soez e da partidarite aguda, pior que um peso morto, é a parte que mais escurece a carregada núvem que sobre nós aparece. Do que o PR disse – pouco ou nada disse que não fosse tentar “safar-se”, dando abébias a gregos e troianos –, esse sensato apelo está, desde o primeiro minuto, posto no caixote do lixo pela onda de opinião dos intelectuais pagos para dizer, ad nauseam, mais ou menos o mesmo.
Se quisermos ter esperança, haverá que torcer para que o negro mar desta gente dê em vão nalgum rochedo...
4.1.13
António Borges de Carvalho