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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

INSONDÁVEIS MISTÉRIOS

 
Tenho enormes dificuldades para perceber esta coisa das viagens ideológicas serôdias, hoje tão “normais” e corriqueiras.
Que um tipo seja maoísta, leninista ou nazi, aos vinte anos, e que, vinda a maturidade, viaje até regiões mais inteligentes, não me faz confusão (quase) nenhuma.
O que se passará, porém, com esta gente que, madura e instalada, percorre enormes distâncias sem mais nem menos, ou parece viciada em mudar de fidelidades tantas vezes quantas lhe apetece? O que pensam estas cabeças? Para além das desculpas públicas, o que se passa dentro delas? Talvez o diabo o saiba.
Há para aí vinte anos, na Praia do Vau, Mário Soares perguntava-me porque é que eu lhe “batia” no jornal. Expliquei-lhe que era por ele ser socialista, e eu não. Com o mais ternurento dos sorrisos, o homem disse-me: “mas você acha que eu ainda sou socialista?” Era. Era e é. Mas metia confessamente o socialismo na gaveta quando achava que lhe convinha. A verdade, para ele, sempre foi o que lhe foi convindo a cada momento. Apesar disso, foi capaz de manter uma básica fidelidade a ideias que, mais ou menos evidentes, mais ou menos disfarçadas, vão sendo sempre as mesmas.
Não é dos mários soares da nossa praça que estou falando, mas daqueles que se vão da lei da coerência libertando à medida que o tempo passa ou as conveniências mudam. Freitas do Amaral, Helena Roseta, Vital Moreira, José Magalhães, Ribeiro Telles, José Miguel Júdice… Figuras que, de uma forma ou de outra, ganham notoriedade num sector, e aparecem noutro, da noite para o dia, como que por encanto. Que se passará nas mais profundas arcadas destas inquietas consciências, para, com a mesma cara, com a mesma declarada dignidade, surgirem hoje a defender o que ontem condenavam, ou a prestar fidelidade aos adversários da véspera? Insondável mistério.
O que fará um amigo meu, eleitor e apoiante confesso de Mário Soares, aparecer na bancada dos admiradores de Salazar no concurso do “melhor português”? Insondável mistério.
A minha porventura estúpida consciência crítica, levar-me-ia, se mudasse de ideias ou as tivesse tão dispares, a “esconder” preferências súbitas antes que pusessem em causa o que tenho levado os outros a, com bons fundamentos, pensar de mim.
Um tipo que, já por volta dos quarenta, na perspectiva da perestroika, abandona o barco do PC, terá passado de feroz inimigo da democracia “burguesa” e de adepto da ditadura do proletariado a indefectível defensor do sufrágio universal e das liberdades individuais? Ou terá visto abrir-se, do lado do “inimigo”, uma janela de oportunidade? Insondável mistério.
A dona Helena Roseta viajou da AD de Sá Carneiro (primeira organização que, durante a III República, correu com a esquerda do poder), e do PSD, principal partido não socialista, em representação do qual foi autarca (de péssima memória) em Cascais, para os braços do PS. Entrada no PS pela direita, aí vai ela disparada para a esquerda do partido. Daí, passa a adepta dessa perigosíssima boutade que se chama “democracia” participativa. Porquê? Que tortura de consciência não terá a senhora sofrido ao longo do tempo, sempre em busca de uma verdade quiçá escorregadia e rebelde! Ou não? Ou o que lhe aconteceu foi ser iluminada pela luz das janelas de oportunidade que lhe foram entrando na torturada consciência, a última das quais se chama Câmara Municipal de Lisboa? Insondável mistério.
O que terá feito o senhor Júdice tomar o TGV na estação da extremíssima direita (JP, ELP, Partido do Progresso e quejandos) e viajar, pelos carris do PSD, até à Comissão de Honra do inimigo número um dos lisboetas, o impensável socialista Costa? Será o anti-capitalismo que está na massa do sangue dos fascistas o que, lá do fundo da tortuosa alma, lhe enviou uma mensagem de socorro? Ou haverá alguma oportunidade nesta coisa? Insondável mistério.
 
Dirá, já disse, o ilustre Director do SOLcrates que, na vida, toda a gente muda. O mundo é feito de mudança, dizia o vate. Talvez. Eu é que não passo da cepa torta. Por mais que tente, não consigo engolir o socialismo, seja ele fascista, estadonovista, nazi, democrático ou comunista. Pobre de mim que não mudo, nem com tantos e tão ilustres e dinâmicos exemplos à minha volta. 
 
António Borges de Carvalho

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