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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

Operação Da Vinci

O senhor Dan Brown é um exímio contador de histórias. Os seus livros obedecem a um modelo fixo, que se resume num minuto: um crime envolto em mistério, um senhor professor perito em certas matérias, uma pequena giríssima que também sabe muito, uma paixão óbvia, uma investigação pejada de peripécias, uns tipos péssimos e sem escrúpulos que, nas malhas da intriga, acabam por não ser assim tão péssimos - às vezes até são uns fulanos pacholas - e uns gajos pacholas que, lá para o fim, afinal são péssimos. O tema é sempre mais ou menos esotérico, sociedades secretas, serviços de espionagem, hackers da pior espécie, políticos sem escrúpulos, intrigas no Vaticano, mensagens crípticas, monumentos alquímicos, e por aí fora. Com estes ingredientes, aliados a uma escrita torrencial, o senhor Brown é o escritor ideal para quem não consegue dormir em voos de longo curso ou quer passar um fim de semana fora das preocupações da segunda-feira.
 
Umberto Eco, que, sobre muitas das matérias que servem de mote ao senhor Brown  sabe mais que qualquer outro ser vivo, diz que o homem “é um farsante”. Compreeende-se a indignação do medievalista. Mas, francamente, acho demais gastar adjectivos deste tipo com o senhor Brown. É que duvido que pela cabeça do homem alguma vez tenha passado defender alguma tese, ou demonstrar seja o que for. O que ele quer, e fá-lo como ninguém, é entreter as pessoas e ganhar dinheiro com isso. Não sendo aquilo a que chamo um Escritor, não tenho dúvidas de que, lado a lado com J.K.Rowling, se trata do mais eficiente e bem sucedido contador de histórias do nosso tempo. Não tem nada a ver com um Philip Roth, com um John Irving, com uma Margareth Atwood, mas dá “bigodes” aos Grishams, aos Crichtons, aos Follets e quejandos. Sabe daquilo a potes. Por muito que doa às nossas pretensões, ou às nossas legítimas exigências intelectuais ou emocionais, lê-lo é um prazer, um prazer simples, simplista, se se quiser, mas um prazer na mesma.
 
Posto isto, devo confessar o espanto que senti, aqui há tempos, quando um amigo me fez parte da sua indignação pelos ataques do homem ao Opus Dei, bem como pela sua “negação” de verdades bíblicas que são sagradas para os católicos. Não discuti o assunto com o meu amigo, porque percebi que, sem o saber, exagerava, isto é, sem ter lido o “Código Da Vinci” , teria sido por alguém induzido a condená-lo, como se de coisa digna de condenação se tratasse. Para além de ser, como acima digo, uma simples história (ou “estória”, como dizem os analfabetos pretenciosos), se espremido, o “Código” não é, nem é uma catilinária contra o Opus Dei, nem convence, ou, na minha óptica, pretende convencer as pessoas de que Jesus Cristo teve filhos de Maria Madalena. Isto é, os dois “crimes” que lhe são assacados nunca foram praticados. Servindo-se, com os exageros a que, como escritor, tem direito, de certas características do Opus, lança um assassino impiedoso, fundamentalista da organização, numa senda de crimes inomináveis, alegadamente a mando do respectivo prelado. Porém, lá para os últimos capítulos, o leitor fica ciente de que o assassino era um doido varrido e o prelado um tipo porreiríssimo, apenas preocupado em defender a sua verdade sem recorrer a nada de menos lícito. Quanto ao “casamento” de Jesus com Maria Madalena, a coisa é de tal e tão propositada forma inverosímil, para não dizer ridícula (a menina da história, agente dos serviços secretos franceses, é, nem mais nem menos que descendente directa do casal) que ninguém poderá dizer, ou que Brown quis demonstrar a realidade histórica do enlace, ou que, seja quem for, ficará convencido, disso ou do contrário, depois de ler o livro.
A sincera indignação do meu amigo não tinha, por tudo isto, qualquer espécie de razão de ser.
 
Mas as coisas não ficaram por aqui. Com o anúncio do lançamento de um filme com o mesmo título, o “Código Da Vinci” voltou a ser objecto de um sururu dos diabos. Multiplicaram-se as sessões em que “especialistas” autorizados, académicos, prestigiados “schollars”, se debruçavam sobre a infâmia, a fim de demonstrar, não sei se por A+B, a sem razão da blasfémia.
Estes tipos fazem uma tempestade num copo de água, pensei. Que parvoíce! Então não percebem que é um filme de aventuras, como os do “enrola a fita” do meu tempo?
Não tinha, à altura, percebido o que se estava a passar. Até que li, na “Time”, um dossier sobre o assunto. Era uma peça mais ou menos inócua, isto é, não defendia nenhum dos lados da estranha, quão mirífica, barricada. O que saltava à vista era que, pela priemira vez, dignitários do Opus Dei se mostravam, abertos, afáveis, pessoas como nós, que tinham uma forma muito própria de viver a sua crença, sem que tal representasse qualquer pecado social ou se envolvesse de um secretismo pouco simpático. O dossier da “Time” repetiu-se por todo o mundo. Em Portugal, o veículo foi, se não me engano, a “Visão”. Coisas estranhas, diria inaceitáveis, ou inacreditáveis, como o silício e a “disciplina”, aparecem como as mais normais das práticas. Os “tenebrosos” chefes da organização são, afinal, simpaticíssimos sacerdotes, bem postos, que vivem numas casas óptimas, cheias de bibliotecas e de quadros. As mulheres da organização não são as sopeiras dos numerários, mas senhoras de alta posição social ou cultural que oferecem à obra os seus serviços. E assim por diante. Como a “Time” sugeria nas entrelinhas da peça, o Opus Dei, em universal e concertada operação  “virou” a seu favor aquilo que, a fim de excitar a indignação dos crentes, tinha considerado como um vil ataque.
 
Não faço ideia de quem tem razão, se alguém a tem, nem, para ser franco, estou muito preocupado com o assunto. Mas acho interessante verificar três verdades que me parecem evidentes:
  1. O senhor Brown não demonstra nada, nem, propriamente, ataca seja quem for. Vende livros.
  2. O Opus Dei montou uma operação, primeiro para condenar, depois para negar as “verdades” do senhor Brown.
  3. Finalmente, o Opus Dei, aproveita a polémica que alimentou para lançar, urbi et orbe, uma operação de “limpeza”, de clarificação e de prestígio do seu nome.
 
E pronto. Há, neste mundo, tipos inteligentes. Para quem goste, para quem não goste, e para quem nem uma coisa nem outra.
 
 
António Borges de Carvalho
 

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