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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

MISSIVA GOVERNAMENTAL

Carta de Sua Excelência o Secretário de Estado das Comunidades, Engenheiro António Braga, a que o Irritado não teve acesso, mas imagina, enquanto imaginar lhe for dado.
 
 
Meu querido Hugo
 
Espero que tenhas gostado da minha visita. Já comuniquei ao meu Primeiro Ministro e aos jornais do meu país as minhas impressões sobre a Venezuela, feliz rincão que, sob a tua firme direcção, se encaminha a passos largos para gozar as maravilhas do socialismo. Foi-me grato verificar, in loco, como tens sabido introduzir na vida pública do teu país os valores com que, tanto o teu governo como o meu, vêm, contra ventos e marés, iluminando as vidas dos nossos povos.
 
Reconheço, com admiração e humildade, que estás muito à nossa frente. Dizem-me que já meteste os juízes no saco, que já controlas os generais, que já puzeste os políticos no seu lugar, coisas que, por cá, talvez por influência dessa odiosa organização que dá pelo nome de União Europeia, ainda estamos longe de conseguir. Mas lá chegaremos. Pelo menos, já demos alguns passos nessa direcção.
Calaste a televisão que era contra a luz deslumbrante do socialismo. Lá chegaremos. Nacionalizaste uma data de coisas, e até tens feito as devidas provocações a esse fascistóide do Lula, que anda a aldrabar o povo do país nosso irmão. Indemenizaste os canalhas, é certo, ficando, nesta matéria, a larga distância do grande Gonçalves, mas deste-nos um exemplo quase tão precioso como o dele.
A verdade é que, embora não te cheguemos aos calcanhares, vimos dando uns exemplos claros das nossas intenções. Ainda há dias, um díscolo qualquer atreveu-se a uns dichotes sobre o nosso bem-amado Primeiro Ministro. Foi imediatamente corrido e, com mais um empurrãozinho, acaba no desemprego. Por outro lado, como sabes, já conseguimos convencer os órgãos chamados judiciais a trabalhar com base em denúncias anónimas, o que nos pode vir a pemitir, no médio prazo, pôr definitivamente cobro a inúmeras arrancadas anti-socialistas dos que estão apostados em travar o nosso caminho. Estamos em fase de recuperação dos bufos e delatores que tiverem a dignidade de ser a nosso favor, com a ajuda, diga-se em abono da verdade, de um tal Fernandes, que tem feito imenso jeito. 
Seguindo o teu luminoso exemplo, estamos colocando as secretas, as polícias e outras instituições de natureza análoga sob o comando único de Sua Excelência, a fim de evitar desvios e iniciativas anti-patrióticas. Até já mandámos para as eleições autárquicas o ministro que, nesta matéria, podia vir a fazer sombra a Sua Excelência. E arranjámos outro, com menos competências, ansioso por nos servir. Magnífica jogada, não achas?
 
Já anunciei as intenções do meu governo de aprofundar a nossa colaboração com o teu, ciente que estou de que o teu exemplo, a tua liderança intelectual e a tua coragem serão esteio da nossa obra.
Ainda não começámos a dar cabo dos capitalistas – a maior parte deles, em política, não vê um palmo à frente do nariz e faz-nos imenso jeito – mas já começámos, como sabes, a espremer a classe média por via fiscal (aumentámos mais impostos do que quaisquer outros na Europa), para que, a breve prazo, não reste a essa gente margem de manobra para se opor ao futuro que vimos construindo. Estamos a criminalizar uma série de atitudes menos socializantes. Já demos, definitivamente, cabo dessa arma da reacção que é o sigilo bancário. E, ó maravilha!, quem por nós for acusado terá que demonstrar que não temos razão, o que, como deves calcular, será virtualmente impossível.
Para demonstrar, e reforçar, a nossa autoridade, estamos a impôr a construção de um aeroporto que ficará para a história como a imagem viva da nossa força e da nossa determinação. Já nem nos preocupamos em defender a coisa. Quando nos fazem perguntas a tal respeito, mandamos um louco furioso e um chéché responder, isto para que percebam que, ou é como nós queremos ou não é de maneira nenhuma.  E, se insistem, mandamos o ministro das finanças, que é pau para toda a obra, responder-lhes em conformidade.
O socialismo tem que se afirmar sem rodeios nem meias tintas, mesmo que, para inglês (leia-se UE) ver, mantenhamos um discurso algo contido.
 
Uma coisa há, devo confessar, que nos tem ajudado. É a forma, absolutamente estúpida, como os principais opositores à direita têm reagido ao nosso ímpeto socialista. Calcula, meu caro Hugo, que dizem que nós fazemos coisas que eles também fariam! Que estamos a fazer política de direita! Isto é galinha da perna, do melhor, porque cala a reacção, porque convence as massas ignaras de que estamos a reformar o Estado e de outras patacoadas que usamos para lhes atirar areia para os olhos. De direita, a nossa política! Ah, ah! Os tipos, e ainda bem, são burros como as casas! Idiotas úteis!
 
Bem podes imaginar com que alegria anunciei aos jornais que estamos a preparar a tua visita a Portugal. Não será para amanhã, como deves calcular. Mas não terás que esperar muito. Com a desculpa de que estamos a proteger os nossos emigrantes no teu país, havemos de te trazer cá, e receber-te como recebemos a Isabel Segunda no tempo do fascismo, brigantim real e tudo! Vais ver.
 
Mais ou menos na mesma altura em que me desloquei a Caracas, Sua Excelência foi a Moscovo. Ficou alojada no Kremlin, e mandou fechar a Praça Vermelha para fazer jogging! Foi lindo, ver as perninhas meio canejas de Sua Excelência a percorrer, garbosas, o histórico lagedo!
E, para nosso gáudio, Sua Excelência foi clara: o nosso amigo Putin, na douta opinião de Sua Excelência, pode, e deve, continuar a meter os chatos e os opositores na ordem como muito bem lhe apetecer. Não temos nada com isso. Pois não é o que tu fazes, meu caro Hugo, e o que nós também vamos fazendo, na modesta medida das nossas oportunidades?
 
Meu caro Hugo, anseio pelo dia em que, lado a lado com Sua Excelência, te receberei no cais das colunas, reconstruído para ti pelo camarada Costa.
 
Até breve, ó intensa luz das Américas!
Sempre teu, que é como Sua Excelência diz aos reitores
 
António
 

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