ALEIVOSIAS DO CHATO
O Irritado não é, desde há muitos anos, o que se pode chamar um admirador do Prof. Cavaco Silva. Cedo se desiludiu quanto às excelsas qualidades do respeitável senhor.
No entanto, aceita sem qualquer hesitação ou rebuço que ele seja, com toda a legitimidade e de pleno direito, Presidente da III República Portuguesa. Como tal, deve-lhe o Irritado todo o respeito e a maior deferência. Jamais ocorreria ao Irritado ficar sentado quando o senhor entrasse, ou não lhe retribuir um cumprimento, ou sair da sala em protesto pela sua entrada, ou não entrar por se recusar a usar o mesmo tecto, ou virar-lhe a cara se por ele interpelado.
Postas as coisas nestes termos, perguntar-se-á, com razão, a que propósito vêm elas.
É simples. O “Expresso” do último Sábado vem fazer uma espantosa diligência para demonstrar o lado “humano” do mais chato e prolixo de todos os escritores portugueses, vivos ou mortos. Torcionário da Liberdade, saneador implacável, admirador e servidor dos sovietes, amigo de tiranos e assassinos, sobre ele vem o “Expresso” publicar um texto – servido por doces fotografias - em que sobressai a “cultura cívica” do homem: ele, José Saramago, jamais entrará onde estiver o Presidente da República, jamais o cumprimentará, jamais terá com o homem qualquer contacto, jamais lhe testemunhará qualquer respeito.
Enfunado pelo prémio em que a Academia Sueca demonstrou como se chafurda nas lixeiras do politicamente correcto, armado em dono da moral, da História e da Nação, vem o chato, como repetidamente tem feito, exprimir o seu desprezo pala Pátria que o fez, coisa que, na sua opinião, nem sequer devia existir. Devia era confundir-se, como ele, com a Castela que o albergou.
Para que conste.
António Borges de Carvalho