A FILARMÓNICA
De repente, o Sevinate, ao levar um pontapé no mataco, quis dar uma de juízo. Afinal, segundo ele, a filarmónica da treta fez mal: não devia falar em “reestruturação da dívida”, ainda menos devia dar publicidade ao panfleto nesta altura. Não explicou por que carga de água o assinou, mas isso é coisa para psiquiatras e escapa à apreciação do IRRITADO. Outros arrependidos se lhe seguirão, diz um dedo que adivinha.
Afinal, o que uniu a filarmónica?
Preocupações com a situação do país? Nem pensar. Se tal coisa existisse, que sentido faria sujeitar-nos aos riscos a que o panfleto nos sujeita? Oportunidade? Só se for a oportunidade de causar mais problemas, numa altura em que não há quem não perceba que devia haver contenção de bocas e de exibições. Consistência ideológica? Aqui, o IRRITADO tem dúvidas. Afinal, em termos de consequências, que diferença faz o socialismo do Cravinho do do Freitas, dando de barato a coerência do primeiro e a falta de coluna vertebral do segundo? Que diferença faz a “democracia cristã” do Bagão das “preocupações” marxistas do Carvalho da Silva? Que diferença faz a social histeria da dona Manuela do socialismo revolucionário do Louçã, e este da “social democracia” do Capucho?
Se, pelo contrário, estas “personalidades” pensam diferentemente umas das outras, qual é o cimento que as fez unir-se? Aqui, já o IRRITADO não tem dúvidas: é a travessia do deserto de uma data de gente que, em boa hora, o eleitorado correu de cena. Então é admissível que figuras tão “gradas” como estas estejam reduzidas aos favores – e que favores! - dos media para mostrar que existem? De maneira nenhuma. Todas elas se acham com o incontornável direito a ter poder. Se o não têm, há que dar cabo dos que os mantêm na gaveta, mesmo que isso comece por nos dar cabo da vida ainda mais do que as dívidas e os cortes. A inveja, a dor de corno, a frustração, a vingança e outros sentimentos de parecido jaez estão na base do panfleto, são o que o informa. Todos unidos, à espera de galarim. Haverá alguns que fogem a esta “lógica”, como essa desgraça em figura humana que se abateu sobra a CIP, um tal Saraiva, ou a munificente e oriental figura de Adriano Moreira, pessoa cujos objectivos ou fundamentos ideológicos não há quem descortine. Para os panfletários, devem ser uma espécie de raminhos de salsa.
Assim se constituiu a filarmónica. Uns tocam trombone, outros ferrinhos, mas uniram-se na música, música intelectual e politicamente pimba, mas música na mesma.
Para dizer algo positivo, lembremos a opinião da dona Teodora Cardoso, Presidente do Conselho de Finanças Públicas, que não tem nada, antes pelo contrário, a ver com o governo. Cito: "Se nós estivéssemos numa situação catastrófica, não haveria outro remédio, como não houve na Grécia. Mas nós não somos a Grécia”; “Dizemos isso há anos e agora parece que estamos a querer ser a Grécia outra vez. Isso [reestruturação da dívida] não resolve os problemas. O que resolve o problema da sustentabilidade da dívida é pormos a economia a crescer - e para isso precisamos de financiamento e nós não devemos afastar esse financiamento - e a disciplina orçamental". “Estes manifestos dão a ideia que não se acredita na capacidade do País de disciplinar o orçamento".
Haja alguém , indiscutivelmente independente e sem frustrações ou histerismos, a dizer a verdade.
13.3.14
António Borges de Carvalho