AINDA AS BOLSAS
Um grupo de auto intitulados cientistas, ou a tal candidatos, manifestou-se nas ruas contra a diminuição do número de bolsas que lhes vinham sendo concedidas. Terão razão para o protesto.
A manifestação vem no seguimento de uma polémica que o IRRITADO já comentou. No entanto, como a confusão persiste, talvez valha a pena voltar ao assunto.
Anda por aí um coro a chamar ao governo os mais extraordinários nomes, que promove a ignorância, que favorece a emigração, que condena a Pátria a um negro futuro, que tudo submete a considerações orçamentais, que garrota o desenvolvimento, isto para citar as observações mais doces.
Ora a verba orçamentada para a ciência, ao contrário do que naturalmente se passa na generalidade da despesa do Estado, é mais alta que em 2013. O que, desde logo, destrói a argumentação do coro. É mentira, evidentemente, que estejamos perante as tais considerações orçamentais.
Mas há menos bolsas. Parece que isto é verdade, tal como haver mais dinheiro. Em que ficamos? Os críticos não esclarecem. Ouvi ontem um tipo que, apesar de socialista, costuma tecer comentários mais ou menos lógicos: António Vitorino. Neste caso, porém, ficou-se pelos argumentos do coro, sem, sequer, os sofisticar. O inexistente corte é um ataque político à ciência feito por um governo incompetente, e pronto. É prático, barato e as audiências gostam, não é?
Sendo verdade que, se falamos de dinheiro, está demonstrado que não há ataque nenhum, concluímos estar perante a habitual crítica pela crítica, a habitual verrina, própria de oposicionistas desonestos. Nenhum deles levantou a questão de fundo: se há mais dinheiro e menos bolsas, que aconteceu? Os critérios de atribuição foram mais exigentes? Houve descriminação política ou social? Houve selecção de candidatos com critérios duvidosos? Um deles dizia à televisão, a coberto do anonimato, que aquilo das bolsas era o seu emprego, e que não sabia como ia sustentar a família, o que expressa bem o que vai nalguns espíritos.
O IRRITADO está há que tempos à espera, ou por uma crítica com pés e cabeça, ou por um esclarecimento cabal do assunto por parte de quem de direito. Quem de direito, no caso, parece não ser o eterno culpado Crato. Ele deu a massa, quem a aplica é uma tal Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Parece que esta organização gasta menos dinheiro com bolsas e mais com outras coisas. Com razão? Sem ela? Triste é que toda a gente se fique pela rama “orçamental”, mentindo, em vez de ir à matéria de facto.
Não percebo lá muito bem porque há-de o IRRITADO ser tão sensível a esta história. Talvez porque ela seja o exemplo ideal do que há de acéfalo, quando não desonesto, na chamada luta política.
22.1.14
António Borges de Carvalho