DA FELICIDADE
O inigualável Júlio Isidro, frequentador de almoços da Associação 25 de Abril, pôs inúmeros generais e coronéis a chorar baba e ranho ao ouvi-lo ler um texto, pelos vistos genial, texto que, diz-se, é hoje “viral” nas chamadas redes sociais.
É comovente ver os duros homens, em perigos e guerras esforçado, se calhar heróis, a lacrimejar impotentes perante a isidral verve.
Exactamente porquê? O IRRITADO não sabe, nem vai perder tempo à procura de tal oração. Mas, ao que o Júlio diz nos jornais, deve ter-ser tratado de coisa celestial.
Segundo ele, a felicidade é a liberdade, não se é livre sem se ser feliz, nem feliz sem se ser livre. Mais ou menos assim:
O que é ser livre, ou feliz? É ter “bem estar, as necessidades básicas garantidas, a ideia de um futuro risonho, de um Estado que vela por cada um de nós... isso... são valores da liberdade.” Hoje em dia, as pessoas vivem angustiadas, não dispõem de “uma sociedade que as protege e as respeita”, as pessoas vivem “a incerteza, a desesperança, a tremendíssima angústia do dia de amanhã... As pessoas não são livres”.
Andam, há milénios, filósofos, psicólogos, ascetas, psiquiatras, sacerdotes, sociólogos, profetas, a tentar definir o que seja a felicidade.
O Isidro resolve a questão em duas penadas: quem não tem um Estado a tratar de tudo (quem paga é outra coisa), não é feliz e, não sendo feliz, não é livre. E vice versa, etcetera, paralelamente. O Estaline e o Hitler diriam a mesma coisa, não é? Todos iguais, o Estado a resolver o que é preciso, saúde, alimentação, educação, transportes, empregos, cultura, fraldas para os meninos... e todos seremos felizes e livres, ou livres e felizes.
O IRRITADO imagina a raiva que estas palavras devem provocar em inúmeras almas bem intencionadas, eventualmente infelizes e escravizadas. Imagina também onde pode levar o estilo de “raciocínio” dos nossos inumeráveis isidros. Imagina mais, o mal que a postura de ideal comodidade deles pode fazer à sociedade. Demitamo-nos da nossa vida, da nossa luta por ela, das nossas responsabilidades! Há, ou tem que haver, um deus chamado Estado que nos trata do essencial, mais não nos competrindo que ir tratando do acessório. Se não tratarmos, que se lixe: lá estará o deus dos isidros para nos dar o que é preciso. Seremos felizes e livres, os generais chorarão de comovida alegria, o paraíso afinal está ao nosso alcance.
Gaudeamus.
18.2.14
António Borges de Carvalho