DE PROFUNDIS
Anda por aí, há vários dias, esta notícia, não desmentida: A ministra da Saúde veio dizer que dos 2.600 portugueses que morreram em 2018 à espera de uma cirurgia no âmbito do SNS, 70% morreram dentro do “prazo de espera”. Este prazo é o período de tempo que o próptio governo define como normal para a execução da cirurgia.
Portanto, morrer dentro do prazo é óptimo. Vistas as coisas assim, só uma minoria de 30%, ou seja, 780 doentes é que violaram as regras e foram morrer fora do prazo. Boas notícias...
Dir-se-ia que se trata de coisa normal, dado que a tal senhora, dita ministra, é especialista em bocas ordinárias, irritações fáceis, palavrões ideológicos, socialismo radical, pacotilha vária. Não: este tipo de novidades é prática política do governo, inúmeras vezes reiterada. Os desgraçados que pedem a reforma também são beneficiados pelos prazos do governo: deixem-se estar por aí que, com sorte, talvez cheguem vivos ao luminoso dia em que o governo despachará o assunto. Não estão ainda devidamente contabilizados os que morrem sem ver um chavo. Espera-se que o chamado ministro que tutela a coisa venha a público, seguindo o exemplo da sua colega da saúde, gabar-se de mais esta geringoncesca maravilha. E os que tiveram acoragem de ir contra as finanças nos tribunais, e ganharam? Esses, muitos, uns dois ou três anos depois verão o trânsito em julgado da sua “vitória”. Condenado, o governo leva pelo menos mais uns dois aninhos para cumprir a sentença e pagar o que deve. Sem juros, que isso de pagar com juros é exclusivo do cidadão. Mais uma vez, em muitos casos, devem ser os herdeiros a receber a massa.
É nisto que se vive, graças à maravilhosa gestão, elogiada urbi et orbe, dos camaradas Centeno, Silva, Temido, e outros mais.
Se os gritos clamados de profundis se ouvissem nesta terra, talvez as eleições servissem para alguma coisa.
10.5.19