DIREITOS DO HOMEM
Você quer manifestar-se na rua, com mais uns milhares? Não há problema. Filie-se no PC, vá aos primeiros de Maio, vá à festa do Avante, acompanhe o PM e o PR nos “concertos” do Nogueira. Vai ver: se for correcto, se se der bem com eles, não há normas que o impeçam. As normas são para os outros, os que, não acreditando nelas, se lhes submetem e aceitam, que remédio, as parvoíces dos restaurantes, os afastamentos nas praias, as máscaras, o diabo a quatro. É tudo para nosso bem! Eles estão acima do bem e do mal, podem dizer hoje uma coisa amanhã outra, hoje abrir amanhã fechar, ir aos ajuntamentos e condenar os ajuntamentos, os dois marmanjos é que sabem, você entregou-lhes a sua liberdade a troco de uma coisa a que chamam vida. Você ou acredita ou cede ao medo que lhe instilaram na cabeça, tem o cérebro na cadeira de rodas, as meninges encolhidas de terror, está feito ao bife. E depois?
Acabado o vírus do corona, ficará (para sempre?) o domínio dos seus actos, a sua independência deixará de ser independência, haverá n apps a condicioná-lo, o Google informará o governo de todos os seus passos, o governo saberá quando foi ao supermercado, à farmácia, ao barbeiro, às gatas, ao bar quando eles deixarem que haja bar. À sua volta, milhares de falidos, novos pobres aos milhões, vidas desfeitas, tudo minha gente à espera das esmolas do Estado, e o Estado com poderes como nunca teve, nem na primeira nem na segunda repúblicas, nem no absolutismo nem no liberalismo à portuguesa.
Segundo o poder, você vai viver as maravilhas do “novo normal”, ou seja, a conversão do anormal em normal e a sua entrada, via lavagem quotidiana do seu bestunto matraqueado e moribundo. Quando toda a gente estiver nos braços do “novo normal”, aí estará você a aceitar como normal tudo o que o poder lhe impingir, como a tanta gente aconteceu no tempo da ditadura. Havia pessoas felizes no tempo da ditadura, não é? Desta vez será pior, porque a ditadura, enquanto tal, não era aceitável, agora será “democrática”, impecável, justificada, constitucional. E você, se quiser sentir-se livre, meterá a máscara no bolso quando sair das lojas que ainda houver, a fim de respirar outro ar que não aquele que os seus pulmões deitaram fora.
Prepare-se, mas contenha-se, não se enerve. Talvez os seus netos, um dia, descubram outra vez a liberdade. O problema é como.
8.6.20