DO ESPÍRITO DAS COISAS
Juntando os seus esforços, os dois firmes e sinceros aliados que nos dominam ganharam mais uma guerra.
Não havia qualquer partido parlamentar a pedir a não recondução da procuradora geral. Pelo contrário, nem uma só voz a pediu. Como é sabido, exceptua-se o partido minoritário que está no poder por artes de berliques e berloques. A opinião pública era, primeiro quase unânime, depois maioritária: Dona Joana devia continuar. Após mais uma campanha, tão suja como as que lhe são habituais, o PS conseguiu, mercê da mais valente de todas as alianças – a informalmente celebrada, mas fortíssima, entre o chamado primeiro-ministro e o senhor de Belém -, que o país ficasse sem a pessoa que mais dignificava a tão indignificada Justiça. Por seu lado, o PS viu-se livre de quem cortava a direito sem ter o devido cuidado com quem é quem.
A coisa é lógica. Faltava esta “reversão”, talvez – futuro o dirá – a mais importante de todas. O que Passos Coelho fez é para desfazer, sem ser preciso justificá-lo. É o caso das reformas feitas por ele em prol da meritocracia, como a fundação da CRESAP, hoje moribunda e substituída por “comissões de serviço”. No caso da RTP, a quem deu independência, mantém-se o sistema, apesar de algumas tentativas de criar zaragata: ainda não tiveram coragem para esta reversão. O Dr. Reis que se ponha a pau. E assim por diante.
A aliança Costa/Rebelo de Sousa funciona maravilhosamente. Desta vez, dizem eles, porque o “espírito da Constituição” (leia-se, a opinião do PS e do ex-professor) aponta para o do mandato único. Não aponta nada disso, mas a opinião do PS, mesmo que minoritária, é que é a boa. É o que se passou quando da fundação da geringonça: o espírito, a letra e a prática constitucional impunham que o governo fosse formado pelo partido mais votado: neste caso, o PS marimbou no “espírito”, na letra e em quarenta anos de praxe constitucional, coisa que, se não convêm, vão para o caixote.
Aprendam, rapazes, é o “espírito” da democracia em vigor.
21.9.18