ENSINO
O Comissário-chefe Barroso, com inesperada coragem, veio declarar que, na II República, o ensino secundário era bem melhor que o de hoje.
Carradas de razão. A disciplina podia ver-se, os professores eram licenciados a sério e só acediam à profissão mediante um curso suplementar chamado “pedagógicas”, de um modo geral sabiam falar e escrever português e... ensinavam! As turmas tinham 30 alunos, chegavam muitas vezes aos 40, e daí não vinha mal ao mundo ou sacrifícios de maior para os docentes, ou desorganização que se visse.
A III República, ainda bem, alargou o ensino a muito mais jovens, universalizou-o ou, como se diz por aí, “democratizou-o”. Naturalmente, a qualidade desceu. Com o tempo, isso é que é grave, tal descida acentuou-se em vez de estancar. Proliferaram os os teóricos, os inventores de programas, os burocratas e, bem pior, novas concepções ditas pedagógicas, destinadas a pôr o aluno “no centro do ensino”, a considerar este como coisa lúdica, que se faz quase por desporto, sem “pressões” nem castigos nem exames, enfim, nada que se pudesse parecer, de uma maneira ou outra, com o ensino “fascista”.
Os professores – era preciso muitos mais – passaram a ter habilitações de via reduzida e a entrar na escola impreparados e com dúzias de teorias “democráticas” metidas no bestunto pelo “pensamento” reinante, mal digeridas e interpretadas com o facilitismo da moda. Instalou-se a confusão. Todos os anos mudavam (e mudam) os programas, os manuais, os sistemas. Os teóricos continuaram a parir teorias, pagos pelo Estado para aumentar a bagunça. Do ponto de vista disciplinar, instalou-se o caos. O manual, dito livro único na II República, começou por ser condenado como anti-pedagógico e ditatorial: depois, transformou-se em indústria, negócio chorudo de autores e editoras, a mudar todas as semanas, sacrifício inaguentável para os pais dos alunos.
Tudo isto seria mais ou menos aceitável dado que, embora pior, o ensino chegava a muito mais gente. Mas, ao longo dos anos, ninguém ou quase se preocupou em melhorar a qualidade, em estabilizar, com pés e cabeça, normas e procedimentos. Ao fim de quarenta anos de democracia, as exigências dela ainda não chegaram ao ensino. E, pior ainda, os professores deixaram de o ser, pelo menos em primeiro lugar, isto é, passaram a tratar mais de si que dos alunos. A corporação foi tomada de assalto por demagogos políticos, a quem só interessa “zelar pelos interesses da classe”, transformando-a numa força de destruição, imune a classificações, feroz opositora de todo e qualquer governo, recusando avaliações ou coisas do género, usando todos os meios para reclamar em vez de ensinar. Tudo, como não podia deixar de ser, em nome da “qualidade do ensino” e de outras falsidades inventadas para “agitar a malta”.
Entretando, a natalidade desceu, há menos alunos, é preciso menos escolas e menos professores. Uma boa oportunidade para seleccionar os melhores. Mas os líderes da classe dizem “nem pensar!”. O governo tem que “comer” o que a classe lhe der e não se atrever a avaliar o préstimo de cada um. Nem pensar!
É nisto que estamos. O Comissário-Chefe Barroso tem carradas de razão. Só é pena que não aproveite para pedir desculpa ao país por, aos vinte anos, muito ter contribuído, por palavras e acções para o caos, violento e atrabiliário, do ensino.
14.4.14
António Borges de Carvalho