HOMENAGEM AO TRAULITEIRISMO
Conta-se, com foros de verdade, que, há já uns trinta anos, um deputado do CDS saíu, altas horas, de São Bento, meteu-se no carro e, talvez vítima do sono, capotou na Praça de Espanha. Rodas ao ar, o homem desmaiou. Atrás, viajava o feroz casal comunista Carlos Brito/Zita Seabra que, ao ver o acontecido, se precipitou para ajudar. O nosso homem, ao acordar do desmaio, deu de caras com o par de bolchevistas. Xiça, morri e já estou no inferno!, terá dito, com notável espírito.
É a sensação que tem hoje o IRRITADO ao ver o “escol” que rodeou a notável figura do senhor Soares na luzida cerimónia em que lhe foi entregue uma coisa pelos estrangeiros que actuam em Portugal à caça de manchetes. Se não estamos no inferno, pouco falta. Desta feita, a maralha da estranja agradece as “bocas” do fulano ante o olhar embevecido de inúmeras personalidades da nacional inteligentsia, ao nível do Pinto de Sousa ou do Vasco Lourenço.
Soares, como é do conhecimento geral, nunca foi grande espingarda. Tempos houve em que foi importante, mas hoje é de pensar se o que o movia era o interesse geral ou a glória pessoal. É que as demonstrações de mau carácter foram tantas e tão sinuosas, a velhice tem-nas agravado de tal forma, o homem é de tal maneira ultramontano e trauliteiro, que não se sabe por alma de quem é possível atribuir-lhe – a não ser pela negativa – o título de “personalidade do ano”, ou coisa que o valha. Se fosse personalidade de 1975, vá. Mas, de 2013, não cabe na cabeça de ninguém no seu perfeito juízo.
É possível que, dada a nossa natureza “periférica”, os media estrangeiros escolham uns tipos de segunda para os representar. Mesmo assim, é difícil comer esta.
Voltando ao princípio destas linhas, para justificar a infernal sessão de homenagem outro critério não resta senão o que, mais uma vez, demonstra o que é a generalidade da imprensa: bons são os que traulitam o suficiente para que sirvam de mote a parangonas, não os que vão dizendo umas verdades ou umas opiniões mais ou menos lógicas.
13.3.14
António Borges de Carvalho