ISTO É
Na última marcha popular organizada pela CGTP/PC (ontem, hoje não sei se já houve outras), havia uns artistas que exibiam uma pancarta original. Rezava assim:
“A minha reforma é propriedade privada!”.
Será que esta frase escapou ao general Carlos, ou foi obra de algum infiltrado, por certo fascista ou “neoliberal”, desses que andam para aí a defender, contra o povo, a propriedade privada? Não se sabe.
Mas, fosse a pancarta espontânea ou programada, uma coisa é certa: é mentira.
A reforma de cada um não é propriedade privada, muito menos de cada um. É, teoricamante pelo menos, a parte que a cada um cabe no rendimento de um fundo constituído a partir de contribuições de trabalhadores.
Isso de ser “de cada um” é uma norma fascista, do tempo em que o Estado Novo, na sua filosofia “assistencialista”, formou a chamada “Previdência Social”. Dando mostras do mais horrível capitalismo, a ditadura propunha-se pagar reformas a partir das reservas matemáticas dos cidadãos, de cada cidadão. Uma evidente manobra do patronato reaccionário. Até, imagine-se, os governantes da época permitiam-se pedir dinheiro emprestado à Previdência, e pagá-lo com juros, o que mostra bem a agiotagem em vigor à época.
Felizmente, veio o socialismo. A Previdência, à mistura com tantas outras coisas, foi nacionalizada, isto é, passou a ser “nossa”, isto é, passou a pertencer, e muito bem, ao colectivo e não ao individual. Uma grande conquista da revolução. Tendo passado a ser “nossa”, isto é, do Estado, o Estado passou a geri-la, isto é, a usar os meios disponíveis para outros fins que não os que o tenebroso capitalismo tinha imaginado, isto é, num magnânimo alarde de fé no “Estado Social”, o dinheirinho qie lá tínhamos posto passou, e muito bem, a ser distribuído com critérios de “justiça social”, isto é, por muito mais gente e para muito mais fins que não a tal reforma.
Numa palavra, passaram a vigorar critérios de solidarierade socialista.
Resultado, a partir de certa altura (governo PS/Pinto de Sousa) quando as pessoas começaram a ir à procura da reforma, e mesmo as que já a tinham, viram-se na contingência de não as vir a ter ou de vir a ter muito menos do que julgavam, isto é, o dinheiro tinha-se acabado, isto é, tinha sido distribuído segundo os critérios do socialismo.
Por óbvia consequência, os que se revêem no socialismo e gostam dele, não deveriam queixar-se, isto é, a massa que descontaram deixou de ser, egoisticamente, de cada um, e passou a ser distribuída “solidariamente”, para outros fins. De que se queixam? Até deviam estar contentes pelo destino “social” que o Estado socialista lhe deu!
Pensar-se-ia que a CGTP/PC seria a última a protestar. Deveria, pelo contrário, dizer aos seus seguidores, incluindo os profissionais de manifestações, que deviam orgulhar-se por ter contribuído para a “sociedade”. E, entre outros, aquela senhora, apre!, que parece estar sempre a sair do cabeleireiro, deveria ser objecto de um bom conselho do Oco: ó filha,não protestes, isto é o socialismo!
Isto é, como dizia a dona Margarida Tatcher que, coitadinha, já lá vai, o socialismo acaba quando se acaba o dinheiro dos outros.
O problema é que, por cá, o dinheiro dos outros já se acabou, mas o socialismo continua por aí. É constitucional, gaita!
13.4.14
António Borges de Carvalho