LAMENTÁVEL
Não sei se haverá algum estatuto, de alguma associação, clube, confraria, etc., que não preveja, como dever dos sócios, o de não ofender a instituição a que pertence, não a desonrar publicamente, não praticar actos que lesem os seus interesses, e assim por diante.
Normalmente, quem prefere ser contra a instituição em que se filiou, se for honrado, sai dela. Até há os casos dos sócios do Carcavelinhos que rasgam o respectivo cartão quando a equipa leva mais de quatro a zero...
O senhor António Capucho, ao que se diz fundador do PSD, seu ex-secretário geral, seu ex-ministro – não terá, enquanto tal, feito nada que se visse, mas isso é o menos -, seu ex-autarca – que se demitiu por causa de uma doença que não tinha -, um homem – o mais possível - do aparelho, – um militante que fez uma vida inteira ao serviço do PSD – ou servindo-se dele -, decidiu, numa altura em que – com razão ou sem ela – deixou de estar de acordo com a direcção do partido, desatar a desancar publicamente a organização, numa fúria opositora dificilmente ultrapassável. Dir-se-á que outros membros do pelotão dos invejosos – a dona Manuela e o Pacheco, por exemplo – terão feito, e fazem, o mesmo, gozando de altos púlpitos, de sonoros e servis trombones, e de gozosas loas da oposição em geral e do Oco em particular.
Estarão no seu direito? Talvez. Não estão é no direito de o fazer ao mesmo tempo que continuam a dizer que são fieis à organização, ou no de o fazer de forma reitrada, continuada, pública, tonitruante e, quantas vezes, paga. Aliás, nisto da política, há muitas maneiras de matar moscas. Por exemplo, o Oco – o IRRITADO será o último a elogiá-lo -, que toda a gente sabia não afinar pelo diapasão do Pinto de Sousa, usou os seus melífluos talentos para a ele se opor, mas sem entrar na sanha oposicionosta, primária, odiosa e fácil, que é praticada pelos invejosos.
O dito Capucho foi ainda mais longe: candidatou-se a um cargo público contra o partido. Não colhe dizer que o partido meteu a pata na poça em Sintra: toda a gente sabe disso. Uma coisa é não concordar com a decisão , outra é pôr-se ao serviço do “inimigo”. Ou, pelo menos, pôr-se ao serviço do inimigo sem, prévia e honradamente, se desligar da origem.
Quando o assunto se pôs, o IRRITADO foi-se aos estatutos do PSD. Neles leu que a capuchética atitude tinha a exclusão do partido como consequência automática. Capucho sabia-o melhor que ninguém, mas deixou-se ficar, no óbvio objectivo de causar à organização o maior dano possível.
Estranho é que a dita tenha dado o flanco como deu. O PSD, se tivesse um bocadinho mais de savoir faire, teria simplesmente declarado a exclusão automática do homem. Não o fez. As eleições autárquicas já lá vão há uma data de meses, o PSD andou para aí a tergiversar, a deixar que uma alcateia de comentadores se pronunciasse sobre o “escândalo”, a “falta de pluralismo de opinião”, o “atentado à liberdade individual” e outros mimos. Deu o flanco, o que, por não inteligente, é imperdoável.
É certo que o chefe destas coisas lá no partido veio agora dizer, e muito bem, que não se tratava de uma “expulsão” nem havia lugar a um processo disciplinar, uma vez que se tratava da simples verificação de circunstâncias para as quais não há saida que não seja a exclusão. Não se percebe porque levou tanto tempo. Não se percebe porque pôs o partido a jeito para prolongar a polémica que os seus habituais detractores não deixarão de alimentar.
Uma história que poderia estar esquecida há meses – Capucho, a estas horas, estaria politicamente morto e enterrado – acaba, por inépcia, por continuar a morder as canelas daquela gente.
Lamentável, tanto a atitude do Capucho como a reacção - ou a tardia reacção - do PSD.
12.2.14
António Borges de Carvalho