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irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

irritado (blog de António Borges de Carvalho).

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill

O DISCURSO

 

No seu afã informativo e dando mostras da sua indiscutível independência, a TV do Estado presenteou-nos ontem com uns intermináveis dez minutos do inflamado discurso do camarada Jerónimo no comício comemorativo da gloriosa revolução de Outubro. Ainda bem. A entusiástica prelecção foi clara e elucidativa e, para almas menos avisadas, inacreditável.

Parecia que estávamos a ouvir uma leitura do “Avante”, em edição de em 1950. Um morto-vivo como o das séries negras, ressuscitado de mal cheirosas catacumbas. Verdades, nem uma. A cartilha de há um século ressuscitada: libertação de um povo, justiça para todos, alfabetização, progresso científico, pleno emprego, dignidade, bem-estar generalizado, protecção da cultura, tudo os sovietes realizaram na perfeição. Não houve Gulague, os culaques viveram felizes, ninguém foi perseguido ou morto, não houve progromes, nem escravos, nem trabalhos forçados, nem manipulações, nem assassínios, nem KGB, nem censura, nem deportações, nem sibérias, nada, só progresso e liberdade, maravilha total e indiscutível. Cá fora, o imperialismo capitalista teceu as piores calúnias contra a gloriosa coisa, e continua a tecê-las.

A utilidade da parlapatice foi a de haver quem ficasse a perceber que o PC não evoluiu um milímetro, que a sua aceitação da democracia é uma treta, que o objectivo continua a ser o mesmo, só falta oportunidade. A luta continua, arrotaram as massas no Coliseu.

 

Fui a Moscovo antes da perestroica, durante a perestroica, e depois da queda da ditadura. Gente famélica nas bichas a lutar por um papo-seco, nada de restaurantes, nem livrarias, lojas raríssimas sem nada nas prateleiras, miséria para todos, excepto a nomenclatura, claro. Tirando o metropolitano, nada funcionava, tudo era ridículo, paupérrimo, absurdo. No tempo da perestroica, havia uns resquícios de “liberdade”, havia a rua Arbat onde os pintores, os que não eram do partido, eram tolerados, os taxistas vendiam caviar em moeda boa, os criados do nauseabundo hotel vendiam dólares, para as desgraçadas que vigiavam os corredores a felicidade era um saco de plástico, o céu um par de meias. Havia sete meninas na recepção do hotel. Cada uma trabalhava 24 horas, um dia por semana, pleno emprego! As avenidas pareciam as autoestradas do lá-vai-um do socialismo português, a cada quarto de hora coxeava um calhambeque chamado Trabant, a cada dez minutos um carrão do partido, tipo Oldsmolbile de 1940. Moscovo era a capital dos sovietes, a dar-nos uma ideia do que seria fora dela.

Já depois do desmoronar da odiosa URSS, fiz uma viagem numa carrinha a cair aos bocados, de Erevan para Tbilissi, o que me deu uma imagem clara do que era a riqueza do império. Picadas imundas, nada de asfalto, fábricas do tempo da revolução industrial, a fronteira uma barraca de lata, aldeias com prédios decrépitos, sacadas apinhadas de lenha para o Inverno, postes de energia caídos, nem uma tasca, nem uma bomba de gasolina, o império tinha caído mas os seus sinais e as suas consequências lá estavam.  

Fico por aqui. A terrível verdade da mais carniceira de todas as ditaduras metia-se pelos olhos dentro.

Mas Jerónimo não tem olhos. Gosta daquilo, e quer levar-nos para lá. A ideologia paralisou-lhe o bestunto. O número de apoiantes que ainda tem dá-nos uma ideia do nosso atraso. E do poder que nos “governa”.

 

8.11.17

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