PASSAGEM PARA A DEMOCRACIA
Esse insigne monumento da nossa mais alta intelectualidade, espírito independente e alma de grande artista político que é Pacheco Pereira, foi contratado pelo jornal socialista Diário de Notícias para se espraiar sobre o 25 de Abril e seus heróis, aqueles que seleccionou. O IRRITADO não se pronuncia sobre a selecção nacional fabricada pelo grande opinador.
Mas, na sua inesgotável e prolixa “análise”, há um pequeno pormenor que o IRRITADO não pode deixar passar em claro.
Diz o grande cérebro: “ Não era possível imaginar que em Portugal, depois de tantos anos de ditadura não houvesse explosão e turbulência”.
Ou nós, portugueses, somos uns selvagens, ou o analista esqueceu-se de olhar para o lado.
É que, em Espanha, passou-se de uma longuíssima ditadura para uma democracia, mas não houve nem explosão nem turbulência! Por conseguinte, ou o homem acha que não é, por definição, possível passar sem bagunça de uma coisa para a outra (o que é mentira, como a Espanha demonstrou), ou que a coisa foi da nossa exclusiva responsabilidade (e, nesse caso, somos uns selvagens).
Seria talvez altura de dizer qualquer coisa sobre as razões da diferença entre um processo e outro.
Antes de mais, o que foi oferecido aos espanhóis foi a democracia tout court. A nós ofereceram a democracia adjectivada, isto é, a “democracia socialista”, vertida numa constituição que, embora híbrida e impraticável, quarenta anos passados ainda se mantém híbrida e impraticável.
Depois, os espanhóis tiveram um herói chamado Santiago Carrilho, que percebeu que o estalinismo era coisa do passado, e preferiu a democracia. Por cá, o Cunhal gritava que “democracia parlamentar, jamais!”.
Acresce que os espanhóis (comunistas, socialistas e puros republicanos incluídos) souberam aceitar um Rei que com eles e com a democracia se comprometeu, e nós tivemos o Costa Gomes, o Vasco Gonçalves e, com muitas diferenças mas parecida “fé”, o Mário Soares.
Dizer, ainda que implicitamente, que os espanhóis foram foram civilizadíssimos e nós uns selvagens é abusivo e trafulha.
16.4.14
António Borges de Carvalho